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Luto desafia retorno às aulas em Juiz de Fora após período de chuvas

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Quando Isabela Cordeiro, de 4 anos, retornou para a escola em 9 de março, sua vida estava bem diferente das semanas anteriores: sua família foi uma das atingidas pelas chuvas e deslizamentos em Juiz de Fora, que fizeram mais de 60 vítimas na cidade. O avô, com quem ela ficava quando a mãe trabalhava, foi um dos mortos. A tia e a avó, que moravam na mesma casa que ele, também foram atingidas pelo deslizamento que destruiu o imóvel e precisaram ir para a sua casa, causando uma mudança evidente na rotina — além do forte abalo emocional do luto para toda a família, que também causou mudança de comportamento em seu primo, de 6 anos.

O retorno às atividades escolares no município foi marcado por vários casos como esse: de alunos que perderam familiares, colegas de escola, a própria casa e até lacunas no corpo docente. Sem contar os muitos estudantes que precisaram se deslocar de bairros e estão lidando, ainda, com a perda de uma realidade que conheciam. As dificuldades do retorno à “normalidade” são várias. Para dar apoio a esses casos, Juiz de Fora contaria com apenas um psicólogo contratado pela Secretaria de Educação para dar suporte às escolas do município e três do estado presentes na cidade, de acordo com o Ministério Público.

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O primeiro sinal que chamou atenção de Gislaine Cordeiro sobre a filha foi a agitação que teve nos dias seguintes à tragédia. Ela também passou a comer mais e a sempre perguntar pelo avô — o que impactou, evidentemente, a volta às atividades. “No primeiro dia, ela não queria entrar na escola. Começou a chorar. Estamos nesse processo de readaptação, depois de tudo”, conta a mãe, que acredita que a escola está ajudando da maneira que pode. 

Essa etapa é descrita pela psicóloga e professora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Fabiane Rossi como natural no luto. Ela explica que cada um pode vivenciar este momento de forma muito particular, mas há alguns sentimentos e comportamentos comuns, como tristeza, choque, culpa ou raiva. Ela também indica que dificuldade de concentração, alterações no sono e no apetite e a tendência ao isolamento social também indicam mudanças. “A pessoa enlutada poderá vivenciar momentos mais orientados para a perda, ou seja, com muitos sentimentos de dor e saudade, comportamentos muitas vezes de isolamento social e desmotivação para as atividades diárias, mas também momentos de restauração, quando começa a realizar atividades pelas quais já não sentia interesse”, explica. Também é comum que esses comportamentos se mesclem e oscilem.

Fabiane entende que parte desses sintomas ocorre diante de diferentes situações de perda, não somente a morte de pessoas queridas. Após a ocorrência de um desastre, como explica, comunidades inteiras podem enfrentar uma espécie de sensação de luto devido à perda de casas, de objetos pessoais, do distanciamento de amigos, de parentes e de importantes fontes de suporte social. “Por isto a escola se destaca como um importante fator de proteção e suporte social, pois traz de volta ao enlutado a sensação de pertencimento”, destaca. No momento de retorno, ela entende que é possível usar várias estratégias para que o ambiente se mostre acolhedor, como realizar rodas de conversa sobre luto para estudantes e funcionários e proporcionar a professores e funcionários orientações sobre como lidar com o luto, um lugar onde se saiba como escutar, o que dizer e quando encaminhar para cuidados mais especializados. Além disso, ela também cita que é importante proporcionar a professores e funcionários orientações sobre comunicação de notícias difíceis e sobre os primeiros cuidados psicológicos, e ainda sobre como flexibilizar demandas acadêmicas e profissionais. Por fim, também é importante conhecer os serviços especializados em luto do município para realização dos encaminhamentos necessários, avalia. 

Nesse sentido, os psicólogos que atuam junto às escolas desempenham papel importante: não são eles que fazem o trabalho psicoterapêutico com os alunos, mas são responsáveis por identificar problemas e fazer a resolução de casos que envolvem psicologia dentro das escolas. É o que explica a promotora de Justiça do Ministério Público, Samyra Namen, que tem acompanhado de perto esse retorno às aulas a partir do gabinete de crise. A principal preocupação, neste momento, é oferecer a sensação de normalidade. “Muitas escolas hoje exibem cicatrizes, como parquinho interditado, talude onde houve escorregamento, alguém do corpo docente que perdeu a vida ou o familiar que faleceu. E até um coleguinha que não voltou mais”, diz. Nesse momento, como também destaca Liliane Knopp,  gerente do Departamento Inclusão e Apoio ao Educando da Secretaria de Educação, é preciso um trabalho  intersetorial. “A educação é um dos aspectos de atenção e proteção de suas famílias. Esse atendimento integral passa por outras políticas públicas, como assistência social e saúde”, diz.

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Escola no Três Moinhos foi uma das afetadas pelas chuvas de fevereiro em Juiz de Fora (Foto: Felipe Couri)

Lei não determina quantidade de psicólogos em escolas

Em 2025, o Ministério Público atuou para garantir que o município de Juiz de Fora contratasse psicólogo e assistente social para atendimento da rede de ensino, conforme previsto em Lei Federal. No entanto, a norma não estabelece o número de psicólogos que as escolas precisam ter e nem quantos a Prefeitura precisaria alocar para a educação. É preciso, como destaca Samyra Namen, a criação de cargos e de verba específica para isso, assim como a lei determina que seja feito com os nutricionistas. 

Para lidar com a questão de maneira coletiva, a Secretaria de Educação da Prefeitura de Juiz de Fora informou que as equipes da Rede Municipal de Ensino participaram de formação voltada ao acolhimento em situações de crise, disponibilizada pelo Governo Federal, por meio do FORSUS. Além disso, as escolas-abrigo contaram com o apoio direto de profissionais da rede de proteção social, entre eles psicólogos, assistentes sociais, médicos e enfermeiros, garantindo suporte aos abrigados e às equipes.

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“Como parte dessas ações, a Secretaria de Educação elaborou e encaminhou às unidades escolares um protocolo de acolhimento, com orientações às equipes sobre a abordagem com estudantes, com o objetivo de promover o cuidado, o acolhimento e evitar a revitimização de crianças e adolescentes que passaram por situações traumáticas neste momento. A secretaria conta, ainda, com o apoio do Governo Federal, por meio do FORSUS e do FORSUAS, e da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que também tem contribuído, por meio de projetos de extensão, com ações de acolhimento à comunidade escolar”, acrescentaram, em nota. 

Já a Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE-MG) informou que a rede estadual de ensino conta com 460 psicólogos e assistentes sociais que atuam, em dupla, nos Núcleos de Acolhimento Educacional (NAEs) distribuídos em 230 núcleos nas 47 Superintendências Regionais de Ensino.  No caso específico de Juiz de Fora, os NAEs estão promovendo, desde o retorno às aulas após as chuvas fortes que atingiram o município, ações de acolhimento, escuta e apoio emocional nas unidades escolares, seguindo orientações da SEE/MG. A pasta elaborou um guia para o acolhimento dos estudantes, principalmente aqueles que vivenciaram situações delicadas. “Entre as estratégias utilizadas pelos NAEs, estão a realização de rodas de conversa, escuta ativa e mensagens de apoio. Além disso, as escolas da rede estadual contam com o Projeto Socioemocional, que visa a formação integral dos estudantes, fomentando o desenvolvimento de habilidades com o intuito de estimular o diálogo, o respeito, a empatia, a inclusão e a amizade, contribuindo significativamente para o aprimoramento do clima escolar”, disseram. 

Dia a dia nas escolas

Uma das estratégias mais importantes neste momento é a escuta ativa dos atingidos. “Não no sentido de buscar entender, questionar e revitimizar o aluno por tudo que passou, mas de escutá-lo e validá-lo pelo que passou, como em espaços de escuta, rodas de conversa, rodas de literatura, em que os sentimentos possam se manifestar por meio da arte”, destaca Liliane. É o que professores como Laura Assis, do João XXIII, buscaram fazer. Ela, que é professora de literatura e também foi aluna anos antes, conta que toda a comunidade escolar sentiu as perdas: tanto de um aluno do sétimo ano, que faleceu, quanto o receio por outra aluna que esteve em risco de vida e pela necessidade de mudança do prédio. Todos os estudantes estão precisando se adequar à nova rotina, em outro local. “Não acho que seja uma questão de voltar ao normal, e sim de reconstruir a nossa realidade”, diz.

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Em sala de aula, isso também deixou reflexos. Enquanto o corpo docente aguardava orientações sobre o retorno das aulas, Laura conta que os professores receberam orientação do psicólogo da escola sobre como lidar com o momento. O profissional chegou a elaborar um documento orientando os professores no momento anterior ao retorno, e fez sugestões sobre como o tema das chuvas e do luto poderia aparecer em cada disciplina. “ Assim que retornamos, lemos um texto sobre a literatura em tempos de crise. É uma reportagem que fala sobre diversos momentos em que a literatura foi um refúgio para as pessoas”, explica. No momento atual, ela também conta que estão discutindo qual é o papel da arte em momentos como esse e que os alunos também foram incentivados a trazer obras que funcionaram para eles como algum tipo de refúgio. Parte dos alunos falou sobre o momento atual, e alguns não quiseram falar na frente de todos — mas escreveram sobre isso e mostraram à professora.

Na Escola Municipal Tancredo Neves, a professora Alice Frascaroli também buscou abordar os impactos das chuvas dentro das salas de aula do sétimo e oitavo ano. Trabalhando gêneros textuais com as turmas, ela de início abordou as notícias sobre a tragédia, tratando dos motivos que levaram às chuvas e ao desequilíbrio ambiental. Mas, para além disso, quis incentivar que os alunos se mobilizassem de alguma forma, para não se sentirem impotentes naquele momento, já que a escola também foi impactada, com funcionários da limpeza que perderam a casa, professores que estavam em local de risco e vários alunos na mesma situação. ”Pedi como dever de casa que eles fizessem uma pesquisa em casa e trouxessem uma notícia que informasse sobre pessoas que estavam ajudando as vítimas”, conta. Foi assim que eles também encontraram várias possibilidades de ajuda para os afetados e, durante o mês de março, também se engajaram em uma campanha de aproveitamento de óleo de cozinha usado para ajudar as vítimas das enchentes.

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