
Rádio Piraí resgata autoestima de usuários da rede de saúde mental
Terreno onde antes só havia mato deu lugar a jardim e horta, que tem como um dos cuidadores Antônio José de Azevedo
“Não desperdice a sua loucura.” Com o slogan bem-humorado, a Rádio Piraí está mudando não só a história dos participantes do projeto do Centro de Convivência do Departamento de Saúde Mental, mas a forma como eles estão sendo vistos. Há um ano no ar, o programa exibido mensalmente nas redes sociais é feito por pessoas com diagnóstico de esquizofrenia, bipolaridade e outros tipos de transtorno mental. Juntos, os integrantes estão conseguindo provar que a doença é apenas uma faceta da trajetória deles. Com sonhos e desejo de conquistar um lugar ao sol, os criadores dos quadros “Cuca fresca”, “Cada um no seu quadrado” e outros construídos durante o processo de gravação têm surpreendido a própria comunidade que um dia os excluiu. Além da rádio, os usuários da rede de saúde mental de Juiz de Fora contam com oficinas terapêuticas nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) que buscam resgatar a dignidade do sujeito em meio ao desafio diário da reinserção. Na última matéria da série “Vidas roubadas”, a Tribuna mostra que devolver a cada ex-paciente psiquiátrico parte do que lhes foi arrancado é o primeiro passo na reconstrução dessas vidas.
Com mestrado em comunicação, a coordenadora do Centro de Convivência, Ilka de Araújo Soares, 50 anos, afirma que a Rádio Piraí está conseguindo mobilizar frequentadores do espaço que não tinham afinidade com outras atividades, como a do ateliê. “Na rádio, elas se tornaram extremamente produtivas. A primeira vez que o Walmir escutou sua voz, aquele vozeirão sendo aproveitado, transformando-se num produto final e tendo o resultado, ele resgatou sua autoestima e o respeito da família”, salienta a psicanalista. Ilka refere-se a Walmir dos Santos Costa, o locutor da rádio que passou mais de 13 anos dos 44 de vida institucionalizado. Internado pela primeira vez aos 13 anos, ele só voltou a ver a família aos 21. “Passei por eletrochoque, cheguei a tomar injeção de entorta, vivi situações difíceis. Depois que minha família se afastou de mim, mergulhei nas drogas por 20 anos”, relembra. A guinada na sua vida aconteceu há quatro anos, quando ele deixou a Clínica Aragão Villar e conheceu o Centro de Convivência, localizado na Rua Tiradentes, no Bairro Santa Helena. “Antigamente me chamavam de maluco, debochavam. Depois que passei a frequentar o centro, é que vi o que é viver em sociedade e ter liberdade, o que eu nunca tive. Hoje sou respeitado na minha comunidade. Agora estou descobrindo o que é viver. Com a rádio, eu me sinto importante, porque todo mundo lá no bairro só sabe falar do programa. Agora me elogiam, coisa que ninguém nunca fez.”
Geraldo Vasconcelos Fajardo, 62, é o poeta da Piraí. Depois de uma adolescência de internações, o ex-paciente carregou por toda a vida o apelido de louco e inútil. Quase acreditou nisso, mas sua paixão pelas rimas alimentou o sonho de novos tempos. Por isso, Geraldo começou a compor versos em silêncio. Guardou tudo por décadas até ter a chance de mostrar seu trabalho na rádio. O usuário que estudou até a quarta série primária diz ter escrito mais de 300 poesias, a maior parte delas fala do quintal da sua infância em Piracatuba, de um tempo em que felicidade era sinônimo de apanhar frutas na casa do avô. “Estou feliz em poder falar das minhas poesias na rádio. O hospital psiquiátrico não é lugar para a gente, nosso lugar é aqui, dentro da sociedade”, afirma o escritor.
Ouça o programa da Rádio Piraí:
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Dias de isolamento ficam para trás
Flávia Beatriz Mendes, 34, estudante do ensino médio, também experimenta o gosto da convivência social. Assim como Walmir e Geraldo, ela participa da rádio e deixa para trás os dias de isolamento em casa após diagnóstico de esquizofrenia. A doença se manifestou anos depois de uma infância de maus-tratos, quando ouvia a mãe dizer que sentia vontade de lançá-la pela janela. Hoje ela faz piada dos problemas e tem uma definição própria da loucura. “Para mim, é bom ser diferente, porque, se todos fossem iguais, não teria graça. Louco não é simplesmente viver isolado, numa camisa de força. Ser louco é incomodar as pessoas que se acham muito certinhas. Nesse sentido, eu sou louca, sim”, ri.
Jardinagem traz esperança
No terreno onde todos viam apenas um matagal, Cláudia Aparecida Esteves dos Santos Teixeira e Laura Travassos Fagundes Netto enxergavam possibilidade. Foi assim que elas transformaram desordem em jardim. Através do projeto “Revitalizar”, as duas técnicas do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD) criaram mais do que uma oficina de jardinagem no endereço do serviço: devolveram esperança. Um ano depois de sonharem, as duas veem o antigo espaço ganhar cores. Quem chega ao centro na Rua Silva Jardim encontra plantas, horta vertical, jardim suspenso e muita reciclagem. “Muitos só aderiram ao tratamento após a participação na oficina”, comenta a estagiária de Serviço Social Laura Netto.
Antônio José de Azevedo, 56 anos, é usuário antigo do Caps. Procurou o serviço depois de enfrentar sérios problemas com a bebida. Recaiu recentemente, mas o trabalho com o jardim tem ajudado o gerente de mecânica industrial a enfrentar o novo momento difícil. “Essas atividades resgatam a nossa autoestima. No caso da jardinagem, ela exige dedicação diária. Quase tudo plantado aqui tem a minha mão”, orgulha-se, apontando para os pés de alface e mudas de hortelã. “A bebida me causou graves lesões no cérebro. Já a jardinagem está me mostrando que sou capaz de fazer algo novo”, completa Antônio, que sonha em desenvolver, profissionalmente, as técnicas que aprendeu na oficina. A ideia é criar novos jardins e retirar deles renda para a compra dos insumos necessários ao projeto. Para Laura, a revitalização do antigo espaço fortalece a renovação do ideal de cuidado. “Tivemos a intenção de revitalizar o espaço e também fazer com que eles, aprendendo a cuidar das plantas, aprendam a cuidar de si mesmos.”
Orgulho em ações cotidianas
O que o simples ato de alugar um filme representa? Para a maioria, nada, mas para pessoas que foram privadas de escolhas, significa a chance de recuperar autonomia. E foi assim, por meio da oficina de filmes, que o Caps Leste conseguiu despertar interesse dos usuários em alguma atividade. Para participar da oficina, o frequentador do serviço tem a chance de sair às ruas, caminhar até a locadora e exercer a liberdade de selecionar um título. No começo, foi tudo novidade para pessoas que não tinham passado pela experiência de caminhar nas ruas ao lado de alguém, já que muitos estavam acostumados a andar atrás de algum familiar envergonhado diante da deficiência do parente.
Antônio Carlos de Carvalho, 56 anos, é integrante da oficina. Depois de passar mais de uma década em situação de rua, o ex-vigia tenta recomeçar a caminhada. Sua história foi interrompida na década de 1980, quando ele trabalhava com guincho. Durante o expediente, Antônio ateou fogo no mato próximo onde estavam os veículos guinchados, e pelo menos sete carros ficaram destruídos. Por causa do episódio, que ele trata como acidente, passou mais de 20 anos internado em hospitais psiquiátricos. Questionado sobre a pior lembrança do passado, ele cita o dia da tragédia. “Foi terrível. Quando vi tudo queimando, fiquei desesperado. Aí dei uma de doido e me internaram”, conta, tentando fazer graça sobre um episódio que lhe tirou o emprego e o contato com a família. Resgatado pelos dois filhos e encaminhado ao Caps, Antônio quer recuperar os sentidos da existência. “Na rua, passei frio, senti fome. Hoje vivo ao lado dos meus filhos”, comemora.
Estudante do décimo período de psicologia da UFJF, Ernani Gomes, 24 anos, estagia há um ano e meio no Caps frequentado por Antônio Carlos. A experiência o ajudou a enxergar melhor a doença mental. “Aprendi que não existe um diagnóstico fechado, eles têm outras possibilidades e comportamentos diferentes do esperado. Mais do que medicamentos, eles precisam de acompanhamento, atenção e de escuta. Precisam ser reconhecidos como pessoas.”
Para a coordenadora do Centro de Convivência do Departamento de Saúde Mental, Ilka de Araújo Soares, é esse respeito à singularidade de cada um que faz diferença no contexto da reforma psiquiátrica. “Não podemos criar os espaços perdendo de vista a intervenção individualizada e não normatizada. Senão, a gente cria novos manicômios e passa a ser excludente de novo.”

