
Junto da professora Simone, alunos da Escola Municipal Gabriel Gonçalves da Silva se orgulham dos prêmios conquistados com o xadrez (daniela aerbex)
Na Dr. Adhemar Rezende de Andrade, tem música no recreio (OLAVO PRAZERES/25-09-15)
Elas não foram escolhidas por terem alcançado pontuação máxima em sistemas de avaliações e, sim, porque, apesar de todos os problemas que rondam a educação brasileira, são escolas nota dez quando o assunto é a busca por alternativas para um cotidiano de violência. Usando do xadrez ao rádio, do cinema à música, colégios públicos de Juiz de Fora estão descobrindo que o ensino tradicional tem muito a aprender com as iniciativas que valorizam habilidades diversas da criança e do jovem. Estimulados em outras competências, alunos com dificuldades de leitura se revelaram vencedores na arte do raciocínio lógico ao tornarem-se enxadristas de mão cheia. Além disso, estudantes antes desinteressados transformaram-se em bons mediadores de conflito após encontrarem o seu lugar na escola. Nesta reportagem, a Tribuna foi atrás não de números de sucesso, mas de gente capaz de perceber que, para lidar com a infância e a adolescência, é preciso muito mais do que método e conteúdo, é fundamental investir no aluno e oferecer esperança.
Há 17 anos na rede municipal, a professora de educação física Simone Augusto da Silva Lima, 50 anos, resolveu, em 2013, fazer uma proposta ousada para a Escola Municipal Gabriel Gonçalves da Silva, no Bairro Ipiranga: queria ensinar xadrez aos estudantes do ensino fundamental no contraturno escolar. Inspirada por um colega que fazia um trabalho semelhante na rede particular, onde ela também atuou, a professora decidiu que usaria as características desse esporte – imaginação, criatividade, planejamento e estratégia – para criar novas oportunidades para os alunos.
Contrariando as expectativas, o xadrez despertou, de imediato, o interesse das crianças. Assim, a primeira classe formada por meninos e meninas de 10 e 11 anos acabou se transformando em dez turmas. Hoje são nada menos que 220 estudantes da escola envolvidos com o esporte, 150 deles com problemas de defasagem idade/série. Apesar de apresentarem algum tipo de dificuldade de aprendizado, os participantes das turmas de aceleração surpreenderam pelo envolvimento nas aulas de xadrez, hoje inseridas na grade curricular do colégio.
No último torneio realizado na escola, no mês passado, 51 alunos compareceram, em um sábado, para participar das disputas. Simone conta que os professores saíram do evento com uma interrogação na cabeça: por que os estudantes têm interesse no xadrez, mas não se mostram interessados pelas coisas da sala de aula? É a criadora do projeto “Xadrez sem grades” quem responde: “Com o xadrez, descobri uma potencialidade imensurável nesses alunos, que ultrapassa os muros da escola e se reflete na interação social fora do ambiente escolar”, revela Simone, que tem motivo de sobra para se sentir feliz. No ano passado, a Escola Gabriel Gonçalves da Silva, representada por 25 alunos enxadristas, abocanhou o terceiro lugar no campeonato mundial de xadrez realizado na cidade, evento que contou com a participação de 27 países. Para entrar na disputa, os alunos precisaram tirar carteira de identidade e CPF, sentindo-se visíveis pela primeira vez.
O troféu obtido no campeonato, um belo globo de vidro sustentado por quatro pilares de metal, é uma conquista importante, mas Simone reconhece que os verdadeiros ganhos não podem ser traduzidos por um símbolo material. “Eles jogaram com meninos de todos os continentes e dialogaram de igual para igual, porque dominam a linguagem universal do esporte. Adquiriram confiança neles mesmos e a prontidão para novos desafios. Juntos, eles desconstruíram o mito de que, na escola pública, só tem aluno violento e professores descomprometidos. Isso não é verdade. Eu quero que esses meninos sejam livres no seu pensamento e capazes de voar muito alto “, emociona-se a professora de educação física.
Tímido, com dificuldade na leitura e na compreensão de textos, Natã Amarildo entendeu que isso não o desmerece. Hoje é um dos melhores pontuadores da escola nas competições de xadrez, passando a ser visto com outros olhos pelos colegas. Filho de um motorista de ônibus e de uma mãe diarista, o menino disse que, tanto em casa, quanto na escola, todos passaram a sentir orgulho dele. “Minha mãe fala para todo mundo que jogo xadrez. No campeonato mundial, eu joguei com um menino do Japão e me senti muito feliz, porque a Simone sempre diz que não há problema em perder, mas o que importa é o aprendizado. Deixei de ter medo”, afirma.
A coordenadora da escola, Maria Helena Neder Vieira, 58 anos, diz que o xadrez tem sido um motivo especial para investimento nos alunos. “Hoje os meninos do Gabriel são respeitados. Toda vez que eles voltam de uma competição, vêm para a escola exibindo suas medalhas”, comemora.
Núcleo de Cidadania dá voz aos alunos
O que o rádio e a escola têm em comum? Tudo. Na Escola Municipal Dr. Adhemar Rezende de Andrade, localizada em São Pedro, esse veículo de comunicação tornou-se instrumento de conscientização e de participação dos alunos. O projeto foi desenvolvido pelo estudante Higor Teixeira Rodrigues, 21 anos, que manteve-se ligado ao antigo colégio como voluntário mesmo após deixar a instituição de ensino rumo à faculdade de filosofia.
Mas para falar da rádio é preciso voltar oito anos no calendário, quando a professora de história do colégio Eliane de Souza criou no contraturno escolar um núcleo de cidadania jovem. A ideia, implantada a partir de 2008, nasceu com a constatação de que a ociosidade, a falta de informação e de diálogo contribuem para o crescimento dos casos de violência dentro e fora dos muros da instituição de ensino. “Para saber o que deveria ser feito na tentativa de solucionar os conflitos na escola, resolvemos fazer entrevistas, debates e ouvir a comunidade. Percebemos que a maioria desejava atividades extracurriculares voltadas para a arte e para a discussão de assuntos, como bullying, racismo, meio ambiente, política, desigualdade social, fome e pobreza. Criamos, então, o Núcleo de Cidadania para trabalhar o respeito e a defesa dos direitos humanos”, explica.
Inicialmente, a proposta encontrou resistência entre alguns professores, mas, ao revolucionar a forma de ensinar, acabou levando os docentes a repensarem suas práticas pedagógicas. Já os alunos foram despertados para a vontade de aprender e de se envolver com os problemas da escola e até da cidade. Meninos antes infrequentes mudaram seu comportamento ao serem inseridos em oficinas com espaço para pensar questões do cotidiano. “Muitos alunos desabrocharam”, comemora Eliane.
Kawã Martins, 12 anos, é um deles. Antes sua mãe era constantemente chamada na escola em função do desinteresse do filho que hoje atua na rádio, um dos projetos do Núcleo de Cidadania. Comprometido com o cotidiano do colégio, ele agora critica o vandalismo contra a escola pública. “Quem faz isso é inconsequente, porque, ao utilizarmos a escola, devemos nos preocupar com o bem-estar dela”, ensina.
Andressa Carvalho Lima, 11, uma das 60 participantes do Núcleo de Cidadania, também mudou a forma de enxergar o espaço onde estuda. “Antes, tinha vergonha de estudar em escola pública, porque achava diferente da particular. Hoje não, pois a escola privada não é minha, mas a pública é”, diz. Yasmin Lorrane, 13, demonstra que a discussão de várias temáticas sociais contribuiu com sua formação. “Aprendi a argumentar e a ser mais educada. Quando se recebe uma formação melhor, se tem mais chance.”
“Fique Atento”
São esses meninos de língua afiada e conscientização em alta que hoje movimentam o dia a dia da Escola Municipal Dr. Adhemar Rezende de Andrade. Com o apoio de Higor Teixeira Rodrigues e Diana, ex-alunos voluntários, e de Eliane, professora chamada por todos de tia Lili, eles tocam o programa da “Rádio Fique Atento” que vai ao ar uma vez por semana durante o recreio com duração de 20 minutos. “A rádio é um dos projetos do Núcleo de Cidadania e nasceu a partir da vontade que eu tinha de ajudar a escola por meio da música e da interação com os professores. São os próprios estudantes que fazem a leitura das redações escritas a partir dos temas escolhidos”, explica Higor.
No quadro “Mandou bem”, os alunos/locutores destacam o que acontece de bom na escola e citam nomes de meninos que se saíram bem nas provas, por exemplo. Já no “Fala sério”, as crianças e adolescentes discutem problemas ocorridos no cenário escolar, como uso de celular em sala de aula ou a ocorrência de alguma briga. E no “Fique ligado um minuto”, eles leem notícias sobre o mundo publicadas em jornais. “Isso nos incentiva a vir para a escola, porque a gente muda e passa a pensar diferente. Antes eu não levantava minha cabeça. Hoje melhorei no português e abri minha mente”, conta Nayara Medeiros, 15 anos.
Recreio cultural leva música para colégio
Outra isca do colégio do Bairro São Pedro é o recreio cultural. Uma vez por semana há música de todos os tipos, estratégia de aproximação que tem dado certo na Escola Municipal Dr. Adhemar Rezende de Andrade. O show musical é garantido pelo professor de história Clodoaldo da Silva, 45 anos, 16 deles dedicados à rede municipal. Popular entre estudantes do ensino fundamental, Clodô, como é carinhosamente chamado pelos seus 110 alunos, conseguiu estabelecer com os meninos diálogo e respeito dentro e fora da sala de aula. “A aula dele é interativa. Muitas vezes, ele abraça o aluno que está conversando e diz que é para prestar atenção no conteúdo que está ensinando. Isso dá vontade de estudar”, revela Kawã Martins, 12 anos. Recentemente, o menino questionou o professor sobre o motivo de ele ter ido ao Rock in Rio. “Ele respondeu que foi até lá para buscar inspiração”, diz o adolescente.
Clodoaldo ri da história revelada por Kawã. “O professor tem que ter autoestima e fazer o que gosta, porque, apesar dos espinhos de toda a profissão, a minha permite que eu cresça com eles. Essa troca faz com que eu me sinta eternamente jovem”, diverte-se. Clodoaldo, que toca violão, baixo e guitarra, demonstra conhecimento sobre o impacto do seu trabalho entre os alunos.
“Apesar de enfrentarmos problemas em relação à valorização do salário do professor, isso não é empecilho para realizar um trabalho importante. Quero deixar a minha marca registrada na vida deles”, comenta o docente que se recusa a transformar suas aulas em fichas amareladas pelo tempo. “Não fico preso a esquemas de avaliação tradicionais. Nas minhas aulas, uso no conteúdo o que se passa dentro da vida deles e da comunidade. Nunca temi a sala de aula. Para mim, ela é um palco, no qual, com muita responsabilidade, se cativa o aluno. Sinto que o olhos deles brilham no momento em que a gente discute valores sociais. Meu desejo é que eles sejam críticos e se tornem cidadãos transformadores. A escola pública não é esse lixo que dizem por aí. Nós estamos fazendo a diferença”, destaca.
Cinema como meio de discutir a realidade
Se na Escola Municipal Dr. Adhemar Rezende de Andrade o recreio tem rock, música clássica e MPB, na Escola Municipal Quilombo dos Palmares, no Sagrado Coração de Jesus, os alunos assistem a filmes que têm trilha sonora de Ennio Morricone, o maestro italiano com cinco indicações ao Oscar. A ideia de levar o cinema para o colégio ganhou forma através das mãos dos professores de geografia Sérgio Pimentel Leite Gomes e de história Lyon Guimarães. O objetivo inicial era fazer da sétima arte um espaço coletivo de discussão. “De repente, percebemos que eles tinham potencial para mais e iniciamos oficinas de fotografia e filmagem. Queríamos mostrar aos alunos as armas que eles têm nas mãos e dar a eles a chance de serem protagonistas da própria vida”, explica Sérgio, que, ao lado de Lyon, foi selecionado, em 2011, para apresentar o projeto em um congresso de educação realizado em Lisboa, Portugal.
Os professores também incentivaram os estudantes a usar o celular para realizar filmagens no bairro e fazer vídeos usando o stop-motion, uma técnica de animação. “Ao filmarem o que os incomoda e agrada no lugar onde moram, eles acabaram mudando a maneira de se identificar com o mundo. O que eu percebo é que, quando alguém olha para eles dentro da perspectiva deles, os alunos se entregam muito mais. Com os projetos, nós oferecemos a cada um a possibilidade se sonhar e perceber que a escola pode mais”, afirma Sérgio.
Para a psicóloga Natália Meneghine, as iniciativas mostradas pelo jornal confirmam que não é preciso inventar a roda, apenas entender que a seleção de conteúdo e saber acaba resultando na seleção de pessoas. “Todos têm possibilidade de aprender. O que varia é o modo, o ritmo e o tempo. As escolas têm dificuldade de romper com o modelo tradicional, de arriscar mais e de pensar esse espaço de maneira diferente. Quando se reconhece que as pessoas não aprendem do mesmo jeito abre-se novas possibilidades para o professor reformular o exercício de seu ofício.”
Segundo Natália, é fundamental que as escolas se organizem de forma que os alunos caibam nelas e não o contrário. “A maioria das escolas tem um conteúdo muito tradicional tanto no modo de ensino, quanto no que escolhem como importante a ser estudado. Na prática, elas acabam elegendo aquilo que é intelectualmente mais valorizado e nessa seleção deixam de fora aquilo que muitas vezes é o mais significativo para o aluno. Se ela não se preocupar em fazer o encontro do conhecimento acumulado pela humanidade com a realidade do aluno acaba ficando desinteressante para o menino que, muitas vezes, é visto como mau aluno. Uma escola distanciada das possibilidades de seus alunos será uma instituição com muitos problemas de disciplina, porque o professor não consegue acessar o estudante e o aluno não consegue acessar o professor. São dois lados que não se encontram, embora devessem caminhar lado a lado.”

