
Garrafas e latas de cerveja foram encontradas pelo campus depois de uma festa no último dia 29
Mesmo proibidas, festas regadas a álcool continuam a acontecer na UFJF. A Portaria 333, publicada no dia 19 de abril deste ano, que proíbe festividades associadas ao consumo de bebida no campus, não tem sido respeitada e há registro de eventos que varam a madrugada com alto consumo de cerveja e destilados. A Tribuna teve acesso a fotografias e vídeos que confirmam o desrespeito à determinação da Reitoria, adotada após o estupro de uma adolescente de 17 anos em uma calourada, com bebida liberada, realizada no Instituto de Artes e Design(IAD), em abril. No último dia 29, alunos dos cursos de engenharia realizaram uma dessas festas nas imediações do Diretório Acadêmico (DA). As cenas mostram o resultado do consumo livre de bebida: garrafas e latas espalhadas pelo chão, nas janelas, dentro do banheiro, além do odor de urina relatado por quem chegava no dia seguinte ao campus. A denúncia vem a tona no momento em que a Polícia Civil concluiu o inquérito sobre o estupro e não conseguiu identificar os suspeitos mesmo após ouvir várias testemunhas.
"Pela manhã, ao chegar à plataforma da engenharia, deparei-me com uma enorme quantidade de latas de cerveja e garrafas de bebidas alcoólicas espalhadas pelo chão. Paralelamente, havia um forte cheiro de urina, misturado aos restos dos conteúdos de todos aqueles recipientes. Ainda, para minha surpresa, ao entrar no banheiro, encontrei cacos de vidro e mais latas de cerveja que formavam uma mistura de sujeira lastimável", relata um pós-graduando, que cobra ações efetivas. "Suspeitas e denúncias referentes ao estupro de uma jovem em abril foram amplamente divulgadas. O fato alertou e preocupou grande parte dos pais, alunos e demais pessoas que direta ou indiretamente fazem parte do corpo da universidade. Mesmo com toda repercussão e gravidade do caso, as festas e a falta de limites continuam a ocorrer. Enfim, como aluno, como cidadão e como pessoa, cansei de assistir às (in)consequências dessas festas. Espero a tomada firme de decisão por parte dos órgãos competentes, que consolidem, dessa forma, a universidade como uma instituição séria, um lugar de trabalho, de estudo e sobretudo de aprimoramento das capacidades humanas."
Eventos
Alunos de outros cursos confirmam que as comemorações continuam a acontecer clandestinamente por todo o campus, mas dizem que os organizadores, geralmente, mudam o nome da festa para não chamar atenção e evitam cartazes. "Não falam que é festa, nem tem divulgação. Chegam, pessoalmente, só avisando. ‘Amanhã vai ter um evento, e tal banda foi convidada, aparece lá", contou uma estudante do curso de música, 27 anos. "As festas continuam sim, mas aqui, desde o episódio em abril, não teve mais. Até na nossa página interna da internet há informações sobre a proibição das festas", conta outra estudante do IAD, de 21 anos.
Os relatos apontam para a ausência de fiscalização. A UFJF, por meio da Secretaria de Comunicação, confirmou que a festa do dia 29 de junho, na Faculdade de Engenharia, ocorreu, mas ressaltou que o evento não estava autorizado. A vigilância do campus e a diretoria da faculdade juntaram documentação, que foi encaminhada ao procurador federal que atua junto ao campus, Dênis Franco Silva, que irá instruir processo administrativo com intuito de adotar medida jurídica legal para averiguar a responsabilidade de estudantes e servidores da universidade, já que atividades festivas com música e bebidas alcoólicas estão proibidas pela instituição.
Representante do DA da Engenharia, Nathan de Lima Silva, disse que a segurança do campus e a direção da faculdade foram comunicadas do evento, tanto que liberaram a utilização dos banheiros. Além disso, o acadêmico ressaltou que "o DA é uma agremiação autônoma de estudantes que se reuniu em espaço público. Pelo que tínhamos informação, a suspensão das festas no campus seria por 40 dias. Depois disso, não fomos informados. A própria vigilância estava por aqui no dia. Se fosse proibido, porque não impediram a festa?", questionou.
Alunos relatam insegurança
Entre os estudantes, as opiniões se dividem em relação ao consumo de álcool e realização de festas no campus. Porém, muitos pensamentos convergem para a necessidade de mais investimentos em segurança. "O problema é a falta segurança, sobretudo à noite, e não a bebida em si", opina a estudante de arquitetura Taís Junqueira, 20. Para o representante do DA de Engenharia, Nathan de Lima Silva, a proibição não irá impedir a violência. "No meio acadêmico, proibir os alunos de se reunirem é impedir que ideias surjam e que as pessoas se entendam como pessoas. Não é a proibição do uso de álcool que vai evitar atos violentos dentro do campus."
Já outros defendem a suspensão dos eventos festivos. "Acho que as festas deveriam sim ser proibidas aqui dentro por conta da condição física da universidade, que propicia a insegurança. O campus é muito grande e cercado por áreas de mata, e a segurança é escassa e atuante apenas em rotas predeterminadas. Nos sentimos inseguros aqui dentro até mesmo de dia, quanto mais à noite. Não há como a segurança dar conta. Boa parte das pessoas que frequenta essas festas na UFJF não pertence à comunidade acadêmica", comenta o monitor Humberto Schubert Coelho, 30.
Outros universitários cobram mais rigor na vigilância. "Não há fiscalização. Quando acontece, ficam tentando achar os culpados. Acho que o órgão máximo deveria chamar a responsabilidade para si. Todos sabem que as festas continuam a acontecer, pois, após os eventos, as faculdades aparecem tomadas por garrafas", cobra uma estudante de música, 21.
Instituição ainda não tem relatório conclusivo
Depois de quase 90 dias do estupro da caloura de 17 anos, em uma festa no Instituto de Artes e Design (IAD), o inquérito, que investigava o caso, por parte da Polícia Civil, será remetido à Justiça, ainda nesta semana. De acordo com a assessoria de comunicação da corporação, o delegado Leonardo Procópio Bueno, à frente da Delegacia de Orientação e Proteção à Família, concluiu o inquérito sem que fosse identificada a autoria do crime. Segundo ele, foram ouvidas diversas testemunhas entre organizadores da festa, vítima e familiares. Contudo, ninguém fez o reconhecimento ou apontou o nome de um suspeito. Uma das dificuldades encontradas pela polícia para se chegar a quem teria cometido o estupro seria a realização de três festas, no campus, no mesmo horário, havendo uma grande circulação de pessoas na área, impedindo constatar em qual dos eventos o suspeito poderia estar ou até mesmo definir se era alguns dos participantes. Todos estes obstáculos, conforme divulgou a assessoria, foram agravados pela impossibilidade de a própria vítima reconhecer o suspeito, no momento do crime.
Na UFJF, não há ainda um relatório conclusivo sobre o processo administrativo instaurado para levantar os aspectos administrativos do episódio. No mês passado, foi instaurado um processo disciplinar para continuar a apuração, iniciada pela comissão de sindicância interna. Segundo a UFJF, os 60 dias iniciais, que terminaram no mês passado, não foram suficientes para colher informações, ouvir depoimentos e requerer documentos, sendo necessária a conversão do processo de sindicância em disciplinar. Os trabalhos estão sendo realizados pela mesma equipe, formada por três servidores, que têm 60 dias para entregar o relatório final, mas o prazo ainda pode ser prorrogado por igual período.
Respostas tardias
Para a pedagoga, pesquisadora e feminista, Daniela Auad, as respostas são tardias. "Esse não é o primeiro ato de violência para o qual não temos respostas. No início do ano, estudantes de jornalismo foram identificadas com placas com dizeres preconceituosos, como "cara de sapatão" e "cara de puta" e até hoje não sabemos quem colocou essas placas, assim como não sabemos quem praticou a violência sexual contra a adolescente. Quando a Reitoria e as diretorias das faculdades darão respostas a essas questões? E se fossem suas filhas?", indaga a professora, que é líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação, Comunicação e Feminismo da UFJF, que completa: "Tanto o estupro quanto a lesbofobia são crimes. Acontecem e ninguém apura. Não podemos mais esperar. É preciso uma mudança de mentalidade para por fim a essa violência dentro do ambiente acadêmico."

