“Eu sou apenas um dos mais de sete milhões de venezuelanos que já deixaram o país.” A declaração do professor de geografia e história e doutor em educação, Rafael Gonzalez, 42 anos, dimensiona bem a crise na Venezuela, que ganhou repercussão mundial, após a captura do presidente Nicolás Maduro pelos Estados Unidos (EUA) na madrugada de 3 de janeiro. Refugiado, Gonzalez é um dos 1.837 venezuelanos que vivem em Juiz de Fora, segundo dados do Sistema de Registro Nacional Migratório da Polícia Federal (Sismigra). A nacionalidade lidera a lista dos 5.606 imigrantes na cidade, à frente de alemães (510), americanos (502), colombianos (344) e portugueses (312), entre outros. Considerando a área atendida pela Delegacia da PF em Juiz de Fora, que inclui a própria cidade e outros 125 municípios, os registros somam 2.779 venezuelanos. Desse total, 942 estão em cidades da região. A circunscrição contabiliza 10.670 imigrantes, dos quais 2.779 são venezuelanos, seguidos por colombianos (1.148), americanos (802), alemães (614) e portugueses (594). “Além de Juiz de Fora; as cidades de Viçosa (2.100) e São João Del Rei (465) são os principais destinos dos imigrantes, muito em razão dos ‘Programas de Estudos’ disponibilizados pela UFV e UFSJ aos cidadãos estrangeiros”, explica a PF.
Gonzalez integra a Cátedra Sérgio Vieira de Mello (CSVM), implementada desde 2003 pela Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados) em cooperação com centros universitários nacionais, para promover a educação, pesquisa e extensão acadêmica para a população em condição de refúgio. Na Venezuela, ele era professor da Universidade de Carabobo (UC) e da Universidade Pedagógica Experimental Libertador (Upel). Desde 2023, atua nas faculdades de educação e história da Universidade Federal de Juiz de Fora (CSVM-UFJF). Em meio à insegurança que envolve seu país, onde deixou afetos, experiências e lutas, o venezuelano concedeu entrevista à Tribuna (confira na íntegra abaixo). “Assim como no Brasil e no resto do mundo, a migração venezuelana, nos últimos 10 anos, é a expressão da profunda crise que se vive na Venezuela”, reflete.
Apesar da alegria que tomou conta de muitos venezuelanos pós captura de Maduro, diante da perspectiva do retorno da democracia, o sentimento de Gonzalez é de preocupação: “Não apenas pela incerteza do que vai acontecer, mas também porque sei que não vai ser fácil sair de uma crise como a venezuelana, na qual estão em jogo tantos interesses. Nós vivemos tempos de mudanças geopolíticas. Não é de graça que os EUA mobilizaram tamanho poderio militar para o Caribe. É a hegemonia ocidental que estão procurando garantir. Nada além disso.”
Como venezuelano, o professor universitário defende um país soberano. “O povo está lutando, há anos, porque não suporta o preço da deriva militar-autoritária. Nem Maduro/Delcy, nem Trump podem decidir o destino da Venezuela. É urgente desescalar as tensões e, com o apoio da comunidade internacional, direcionar os esforços para um objetivo: a restituição da ordem constitucional-democrática na Venezuela. É isso o que precisa meu país. Nada, absolutamente nada, diferente disso.” Ele vai além de sua nação ao citar a violação sistemática do direito internacional e dos direitos humanos, mencionando o enfraquecimento das capacidades de instituições, como a ONU e a OEA (Organização dos Estados Americanos): “Os valores humanistas, do respeito às regras democráticas e do Estado de Direito, estão constantemente sob ataque. Essa forma de entender a política como performance autoritária, violenta, radical – da qual Maduro é uma expressão clara – está espalhada pelo mundo. Infelizmente.” Em seguida, ele conclui: “São tempos difíceis.”
O petróleo venezuelano e a ordem mundial
Com o alerta de que qualquer análise pode ser alterada pelos fatos, que estão sendo sucedidos rapidamente, o cientista político e professor da UFJF Fernando Perlatto observa que houve um primeiro movimento por parte dos EUA que, a princípio, parecia ser em nome da democracia, contra a ditadura de Maduro. “Porém, o próprio Trump foi se manifestando, ficando cada vez mais evidente que houve interesses basicamente econômicos, em torno da questão do petróleo e da possibilidade das empresas norte-americanas voltarem a dominar o mercado de petróleo na Venezuela.” Desta forma, ele aponta que as questões econômicas foram se sobrepondo sobre as razões políticas. “Não houve qualquer movimento do Governo Trump de chancelar ou apoiar a candidatura que supostamente teria vencido as últimas eleições, da vencedora do Nobel da Paz (María Corina Machado)”, ressalta, lembrando as denúncias de que Maduro teria fraudado o último pleito. “Até o momento, Trump vem bancando a vice-presidente (Delcy Gómez). Ou seja, tudo pode permanecer como está. Desde que os interesses econômicos dos EUA sejam garantidos, não tem uma mudança política estrutural substantiva.”
Do ponto de vista internacional, Perlatto observa uma implosão da ordem mundial construída desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em torno da ONU e das instituições multilaterais, fortalecidas no período pós-guerra fria. “A ação de Trump – como a do Putin em relação à Ucrânia – demonstra justamente a implosão dessa ordem mundial. A própria condenação tímida por parte de Rússia e China em relação à ação dos Estados Unidos, em certo sentido, pode ser lida como uma espécie de aceitação da nova ordem: A América Latina é zona de influência dos EUA, enquanto a Rússia faz isso com a Ucrânia e com outros países do Leste Europeu que pertenceram à União Soviética, e a China, com Taiwan e outros países da Ásia. É como se a ação dos EUA permitisse uma certa legitimidade para que essas outras duas grandes potências ampliassem suas zonas de influência. Voltamos a um período no qual rege a lógica do mais forte, e o mundo passa, em certo sentido, a ser dividido por zonas de influências. É um cenário muito instável e perigoso para a própria sustentação da ordem mundial.”
O cientista político complementa que Trump já sinalizou que esse processo de expansão deve se dirigir a outros países da América Latina, pois já citou Cuba, Colômbia e México, “numa lógica de dominação que lembra o período da Guerra Fria”, com o agravante de haver governos democraticamente eleitos. “Retoma a ideia da Doutrina Monroe, da América para os americanos, essa ideia imperialista e extrativista, com a complacência de governos democraticamente eleitos, como, por exemplo, do Milei na Argentina.”
Diante desse cenário “preocupante”, Perlatto considera que o Governo brasileiro vem tendo uma postura comedida do ponto de vista das relações internacionais, defendendo a paz e o multilateralismo. “O Governo vem tentando se equilibrar, até porque existe essa tensão ainda com os EUA em relação às tarifas (comerciais).” Ele acredita que a pauta vai ter protagonismo nas eleições presidenciais, pois nos últimos pleitos para o Executivo cresceu a presença da política externa no debate eleitoral.
Mesmo com todas as ponderações e temores, o venezuelano Rafael Gonzalez acredita que a comunidade internacional, ainda, pode pressionar para que a crise venezuelana seja resolvida e/ou, pelo menos, institucionalizada. “É necessário que o povo venezuelano possa decidir seu destino. Talvez, poderíamos voltar para o caminho proposto pelos Acordos de Barbados (2023). Se for assim, com ampla presença e apoio da comunidade internacional, poderia ser possível avançar. Não podemos esquecer: a luta sempre foi pelos direitos humanos, pela soberania nacional e uma sociedade democrática. É isso o que queremos para a Venezuela.”
Confira a entrevista com o venezuelano refugiado Rafael Gonzelez
Tribuna de Minas – Pode me contar um pouco da sua história? Quando veio para Juiz de Fora? Por quais motivos?
Rafael Gonzalez – Eu cheguei no Brasil em 2019 e, a Juiz de Fora, em novembro de 2023. Os motivos imediatos para vir para a cidade estão vinculados ao trabalho na UFJF. Mas acho que sua pergunta vai além disso e você quer saber por que eu, um venezuelano, estou no Brasil. A resposta é bem conhecida: a crise no meu país. Infelizmente, a Venezuela, há muitos anos, vem sofrendo uma profunda crise, que é multidimensional (política, econômica, social, etc.). Eu sou apenas um dos mais de sete milhões de venezuelanos que já deixaram o país. Assim como no Brasil e no resto do mundo, a migração venezuelana, nos últimos 10 anos, é a expressão da profunda crise que se vive na Venezuela.
Como recebeu a notícia sobre a captura de Maduro pelos EUA? Como classifica essa ação?
Eu acordei e, quando revisei o telefone, tinha um monte de mensagens, de familiares, amigos e colegas venezuelanos espalhados pelo mundo. Todo mundo mexido entre a alegria, a incerteza e a preocupação. No meu caso, eu não senti alegria, confesso. Estou refletindo e escrevendo um texto sobre isso, sobre a alegria dos venezuelanos perante a captura de Maduro. O madurismo tem sido nefasto para a sociedade venezuelana. Dentro e fora da Venezuela, quem reagiu com alegria e celebração o fez porque o país tem pagado um preço muito elevado com a crise. Muita gente se sentiu feliz, porque realmente quer uma transição. Quer voltar para a Venezuela, e quer o retorno de uma Venezuela democrática. Quer iniciar o processo de reconstrução. Eu entendo essa reação, quando se considera Maduro como um impedimento para isso.
Mas eu fiquei preocupado. Não apenas pela incerteza do que vai acontecer agora, mas também porque sei que não vai ser fácil sair de uma crise como a venezuelana, na qual estão em jogo tantos interesses. Nós vivemos tempos de mudanças geopolíticas. Não é de graça que os Estados Unidos mobilizou tamanho poderio militar para o Caribe. Estou seguindo as declarações de Trump e do secretário de Estado, Marcos Rúbio. Eles são diretos: os Estados Unidos estão agindo para garantir os interesses dos Estados Unidos. Não pode ser diferente, é óbvio. É a hegemonia ocidental dos Estados Unidos que eles estão procurando garantir. Nada além disso.
Eu sou venezuelano, e meus interesses são os interesses da Venezuela. São os interesses de um país soberano. De um povo que está lutando, há anos, porque não suporta o preço da deriva militar-autoritária. Nem Maduro/Delcy nem Trump podem decidir o destino da Venezuela. É urgente desescalar as tensões e, com o apóio da comunidade internacional, direcionar os esforços para um objetivo: restituição da ordem constitucional-democrática na Venezuela. É isso o que precisa meu país. Nada, absolutamente nada, diferente disso.
Como venezuelano, quais observações faz sobre o Governo Maduro?
Maduro e o madurismo têm sido nefastos. Qualquer um pode revisar os relatórios sobre violação de direitos humanos na Venezuela, que têm sido apresentados no Conselho de Direitos Humanos da ONU. Ou consultar os resultados das investigações do Tribunal Penal Internacional (importante destacar que, há pouco, em dezembro, a Assembleia Nacional, controlada pelo madurismo, aprovou a revogação da lei que ratificava o Estatuto de Roma). O madurismo não quer que sejam conhecidas as dimensões da sistemática violação de direitos humanos na Venezuela.
Eu posso lhe dizer que a rejeição de Maduro e do madurismo é generalizada. Setores da educação, do movimento sindical, da saúde, do movimento ecológico, dos setores populares, etc. Maduro sabe. Eles sabem. E foi por isso que, infelizmente, eles negaram as possibilidades de institucionalização do conflito que ofereciam os Acordos de Barbados (2023).
Quais são suas expectativas agora, diante do cenário atual?
Eu não sou otimista. Há muita incerteza sobre o que possa vir acontecer. Eu tento sempre pensar numa perspectiva multiescalar. A Venezuela é um nó numa rede de relações globais. E na Venezuela, para mim, é claro que se estabeleceu uma sorte de ordem criminal. Não falo da delinquência comum. Falo de uma forma de fazer e entender a política num sentido criminal: sem respeitar as regras, sem observação das leis, sem o fortalecimento das instituições e do Estado de direito, etc. E isso, infelizmente, vai muito além da Venezuela. Me parece que é um signo do nosso tempo. Percebo isso na violação sistemática do direito internacional e dos direitos humanos, no enfraquecimento das capacidades de instâncias, como a ONU, OEA, etc. para agir na solução de conflitos. Os valores humanistas, do respeito às regras democráticas e do Estado de Direito, estão constantemente sob ataque. Essa forma de entender a política como performance autoritária, violenta, radical – da qual Maduro é uma expressão clara – está espalhada pelo mundo. Infelizmente. São tempos difíceis.
Já falei que eu não sou otimista, mas acho que nem tudo está perdido. Acho que a comunidade internacional, ainda, pode pressionar para que a crise venezuelana seja resolvida e/ou, pelo menos, institucionalizada. É necessário que o povo venezuelano possa decidir seu destino. Talvez, poderíamos voltar para o caminho proposto pelos Acordos de Barbados (2023). Se for assim, com ampla presença e apoio da comunidade internacional, poderia ser possível avançar. Não podemos esquecer: a luta sempre foi pelos direitos humanos, pela soberania nacional e uma sociedade democrática. É isso o que queremos para a Venezuela.

