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Cem anos de história e dedicação aos idosos

psicologa monaliza torres conversa com os idosos e ressalta atendimento humanizado no abrigo barbara riolino

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Psicóloga Monaliza Torres conversa com os idosos e ressalta atendimento humanizado no abrigo (Bárbara Riolino)

Psicóloga Monaliza Torres conversa com os idosos e ressalta atendimento humanizado no abrigo (Bárbara Riolino)

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Além dos nossos idosos, há outras duas coisas que mais encantam por aqui: a nossa equipe de trabalho e o apoio que recebemos da comunidade. É isso que nos anima a trabalhar, pois encontramos muitos problemas. Todos aqui trabalham com amor e dedicação. É carinho por todos os lados. O abrigo é isso: uma casa de amor e de paz.” Este depoimento emocionado dado por Antônio Carlos da Silva Estevão, presidente do Abrigo Santa Helena, explica a realidade de quem vive e tem seu ganha-pão no local, o mais antigo lar para idosos de Juiz de Fora que completa, neste 10 de outubro, cem anos de atividade na cidade. As festividades estão marcadas para este domingo, como uma missa em ação de graças às 10h na Catedral Metropolitana e eventos internos realizados na sede do abrigo, no Bairro Vila Ideal.

Chegar ao primeiro centenário, porém, não é motivo para descanso. Pelo contrário, é mais um combustível para arregaçar as mangas e buscar meios para melhorar ainda mais os serviços prestados. Antônio Carlos explica que, depois das comemorações de aniversário, o foco do abrigo estará voltado para a obtenção de recursos para custear a reforma total dos dois pavilhões, deixando-os mais modernos, mais equipados e de fácil manutenção. “Através de um convênio firmado com o Estado, conseguimos todo o material, mas faltou dinheiro para o material humano. Vamos trabalhar para tirar esta obra do papel. Queremos um pouco de muitos e espero que, no ano que vem, nesta mesma época, possamos inaugurar a reforma dos quartos.”

O abrigo reúne hoje 83 funcionários e abriga 140 internos, entre homens e mulheres. Destes, 80% são considerados idosos dependentes, ou seja, aqueles que necessitam de acompanhamento e cuidados mais frequentes. Entre as principais patologias que acometem os assistidos estão as demências vasculares e o Alzheimer, além de outras doenças crônicas, como o diabetes. Embora faltem registros, estima-se que o local já tenha recebido milhares de idosos. A idade mínima para internação é de 60 anos.

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Como toda entidade filantrópica, não há folga entre os recursos que chegam e os gastos internos. “Embora o orçamento do abrigo seja redondinho, lutamos com muita dificuldade. Neste ano, por exemplo, enfrentamos atrasos nos repasses federais. Só fomos receber os recursos deste ano em setembro, pois antes nada havia chegado. Temos um convênio com a Secretaria de Desenvolvimento Social, da Prefeitura de Juiz de Fora, que também repassa um montante, mas chega a cada 60 dias. Precisamos ter um capital para segurar, por isso, contamos com a comunidade, que é a maior financiadora.”

O presidente explica que o abrigo se sustenta por um tripé formado pela contribuição dos idosos residentes, que não são todos, os repasses feitos pelos governos e doações da comunidade. Ele estima que 40% dos recursos venham da população, enquanto 30% ficam por conta dos governos e outros 30% das contribuições. Antônio destaca que, em relação aos medicamentos e atendimentos médicos, há uma relação de partilha com outras entidades filantrópicas, como a Associação dos Cegos e a Ascomcer. “Uma apoia a outra naquilo que podem.”

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Equipe multidisciplinar para cuidar dos internos

A mudança na rotina das famílias não permite mais a figura da dona de casa, aquela mulher que fazia de tudo e cuidava de todos, sobretudo quando o idoso adoecia. Por conta disso, muitos buscam em lares de idosos a estrutura e a assistência que precisam. “O idoso é sadio, ele não atrapalha a família, a ajuda. Em casos de doença, a história muda, e poucas pessoas hoje abdicam de seu projeto de vida para cuidar de um idoso doente”, ressalta Antônio Carlos. Nestes cem anos, o local passou por inúmeras transformações, mas, desde a criação do Estatuto do Idoso e as fiscalizações feitas por órgãos públicos, a qualidade de vida por lá mudou muito.

“Tudo era muito precário no passado, não havia registros e informações. Dada a cultura de nosso país, os idosos eram ‘depositados’ aqui pelas famílias”, destaca a psicóloga Monaliza Torres, que trabalha há 15 anos na instituição. Segundo ela, essa prática não acontece mais, pois foram adotados outros procedimentos e avaliações, inclusive, para verificar se a internação é a melhor opção. “O abrigo foi pioneiro quando instalou a equipe multidisciplinar, pois tornou todo o serviço mais humanizado. Temos o cuidado de estudar cada caso e pensar sempre na melhor adaptação.”

Monaliza explica que é preciso desmistificar a visão que se tem sobre os abrigos, mesmo sabendo que melhor lugar é sempre com a família. “Os abrigos hoje se fazem necessários por conta da mudança de vida das famílias. Além disso, recebemos casos de pessoas que perderam o laço afetivo com seus familiares e outras não possuem mais nenhum ente. A convivência faz com que os idosos criem uma outra família. O abrigo faz bem e já ajudou muita gente que estava em estado de vulnerabilidade. Todos são cercados de carinho.”

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Muitos dos que residem hoje no Santa Helena são gratos pela assistência recebida. Boa parte carrega histórias de vida complicadas, mas ao chegar no local, tiveram mudanças significativas. “Se não fosse o abrigo, já estaria com São Pedro há muito tempo”, comenta Arnout Esteves Santos, 66 anos, residente há 12. Natural de Mar de Espanha, Arnout veio para Juiz de Fora no começo dos anos 1990. Sem esposa e filhos, assumiu uma vida boêmia. Um dia, entre um copo e outro, passou mal e precisou ser hospitalizado. Ele foi diagnosticado com AVC e passou a viver no abrigo. “O AVC afetou uma das pernas, mas com a fisioterapia, os movimentos voltaram.”

Quem também se sentiu salva foi Maria de Lourdes Martins, 77. Diagnosticada com problemas de circulação, quase precisou amputar as duas pernas. Hoje, no abrigo, ela necessita de cadeiras de rodas para se locomover, mas os membros ainda estão no lugar. “Meu sonho um dia é ficar em pé novamente. Mas isso não me entristece, pois aqui fiz muitos amigos e adoro ajudar os outros.” Ruth Maria de Lima Mourão, 84, está perto de completar um ano no abrigo. Viúva e praticamente sozinha, sente-se segura e em paz, além de conseguir controlar de forma correta o diabetes. “Aqui me distraio muito e não pretendo sair nunca!”

Compromisso também deve ser da família

A história do Abrigo Santa Helena começa em 1894, com o início das obras para a construção do local, o mesmo até hoje. A intenção era erguer o Hospital Santa Helena, mas, quando foi fundado, em 1915, por José Procópio Teixeira e Edgar Quinet de Andrade Santos, recebeu a denominação de Asilo de Mendigos de Juiz de Fora. Mais tarde, foi direcionado para idosos carentes. “Como uma história cíclica, o abrigo volta ao seu princípio, sendo muito mais do que uma casa de lar e quase uma clínica”, diz Antônio Carlos da Silva Estevão, presidente da instituição, acrescentando que o local possui psicólogo, nutricionista, farmacêutico, odontólogo, médico, enfermeiro, assistente social, educador físico e fisioterapeuta.

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Antes de o idoso ficar no abrigo, a família fica ciente de muitas obrigações, pois assina um termo de compromisso que exige visitas periódicas, envio de fraldas e medicamentos quando necessário, além de uma contribuição mensal de até 70% do salário do idoso acolhido. Cerca de 90% dos idosos atendidos possuem renda abaixo de dois salários mínimos.

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