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Angústia à procura de parentes

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 A manhã de 17 de junho de 2010 era para ser apenas mais um começo de um dia normal na vida da família Lima, moradora do Bairro Grama, na região Nordeste. A jovem Andréia Conceição de Lima, com então 13 anos, preparava-se para ir à aula na Escola Estadual Hermenegildo Vilaça, no mesmo bairro, onde cursava a quinta série. Por volta das 6h50, após o café, pediu a bênção da mãe – como de costume -, vestiu um casaco, pegou a mochila rosa, desceu as escadas da casa bem cuidada e saiu pelo portão. Foi a última vez que a aposentada Edna Maria de Lima, 50, viu a filha.

 Andréia é um dos 30 nomes de juiz-foranos que integram o cadastro da Divisão de Referência da Pessoa Desaparecida da Polícia Civil, com sede em Belo Horizonte, nos últimos meses. Deste total, quase a metade foi incluída este ano. Alguns estão de volta a suas casas, tendo sido encontrados em outros municípios, principalmente São Paulo. Nestes casos, a alegação da fuga da maioria, segundo familiares ouvidos pela Tribuna, seria a dependência de drogas. Com relação aos demais, há pessoas mais velhas, afetadas por doenças que acometem o cérebro, casos de fuga motivada por desentendimento familiar ou pela simples vontade de ter uma vida em outra cidade e ainda desaparecimentos que continuam sendo um mistério e que podem estar relacionados a crimes. No mês de junho, parte do corpo de uma mulher ainda não identificada foi encontrado boiando nas águas do Rio Paraibuna, na altura do Bairro Granjas Santo Antônio, na Zona Sudeste. O corpo teria sido cortado em postas. A mulher era branca, teria de 20 a 40 anos e usaria manequim entre 44 e 48. A única parte localizada foi entre a cintura e os joelhos. A vítima também possuía uma tatuagem no final das costas, cujo desenho não pôde ser identificado.

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Em outro caso com final infeliz, a família de um servente de pedreiro, de 48 anos, encontrou o corpo no IML quase dois meses após o desaparecimento, em março deste ano. Ele havia saído de casa, sendo localizado na BR-040. O homem chegou a ser levado para o Hospital de Pronto Socorro, mas acabou morrendo. 

Outra família da região também vive meses de angústia em busca de notícias da doméstica Tatiana Aparecida de Almeida, que tinha 24 anos quando foi vista pela última vez, quando saía de casa, no município de Piau, na manhã de 8 de março de 2010. "O desespero e o medo continuam. Se a gente tivesse a certeza do que realmente aconteceu com a minha filha, talvez ficássemos um pouco mais aliviados." O depoimento angustiado é de Ondina Amélia de Almeida, mãe da doméstica. 

 

Justiça já trata caso como homicídio 

No caso do desaparecimento da jovem de Piau, Tatiana Aparecida de Almeida, a peculiaridade é que a vítima teria sido agarrada e colocada à força em um carro antes de sumir, o que fez com que o desaparecimento tivesse sido tratado como sequestro no primeiro momento – pela Resolução nº 7.010 da Polícia Civil de Minas, pessoa desaparecida é "aquela cujo paradeiro se desconhece e que não esteja na condição de sujeito passivo de infração penal". Como não houve pedido de resgate, mais de um ano após o sumiço, a Justiça já trata o caso como homicídio, embora não haja materialidade do crime – ou seja, o corpo não foi encontrado. 

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Quatro suspeitos foram presos pela Polícia Civil de Juiz de Fora. Conforme a advogada da família, Cláudia Tavares, recentemente foi realizada a primeira parte da audiência preliminar que vai decidir se os quatro vão a júri popular. A conclusão da audiência não tem previsão para ocorrer.

 

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Suspeitos 

A filha de Tatiana era preparada pela mãe para ir à escola, em 8 de março, quando dois homens teriam chamado pela mulher. Quando ela chegou ao portão, teria sido agarrada e colocada em um carro. Para a polícia, o crime pode ter sido acerto de contas, pois há suspeita da ligação do sumiço da doméstica com o homicídio de um jovem de 19 anos, em agosto de 2009, em Piau. Depois da morte do rapaz, que seria namorado de Tatiana, ela teria recebido ameaças e registrado boletins de ocorrência. Quase 20 pessoas foram ouvidas no inquérito policial, período no qual os quatro suspeitos foram presos. Eles negaram envolvimento na suposta morte e aguardam julgamento.

 

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Passeata e buscas na madrugada 

Independente da motivação para o sumiço, as famílias dos desaparecidos compartilham a dor pela falta de um parente. "Fico sem saber se ela está comendo, bebendo, se está viva ou em cárcere privado", diz a mãe de Andréia Conceição de Lima, Edna Maria de Lima, que recebeu a Tribuna em casa no dia em que o sumiço da filha completava um ano. Nesse período, já foram dezenas de informações desencontradas, noites sem dormir, buscas na madrugada e até passeata. Sem sucesso, a aposentada aguarda o retorno da adolescente. "Se ao menos ela ligasse e falasse que não quer voltar, isso já estaria bom."

 

Como a jovem e outras duas irmãs mais velhas foram adotadas por Edna quando pequenas, e a garota sempre demonstrou vontade de conhecer a mãe biológica, a aposentada, que garante nunca ter escondido a história das filhas, desconfia que Andréia possa ter ido para Angra dos Reis (RJ), onde a genitora estaria morando. Diante dessa conjectura, o caso vem sendo acompanhado pelo SOS Crianças Desaparecidas, vinculado à Fundação para a Infância e Adolescência do Governo do Rio. A entidade já realiza buscas pela menina na cidade do litoral fluminense. 

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Edna, porém, torce para que a filha esteja em Juiz de Fora. Essa hipótese ganhou força em dezembro, quando uma vizinha teria visto Andréia na Avenida Rio Branco, na companhia de outras meninas. Ao ser abordada pela mulher, que tem problemas de fala e audição, Andréia teria negado contato e sumido. "Ou ela está presa ou bem orientada, vivendo com alguém que pode mantê-la, pois ela saiu de casa com a roupa do corpo", especula a mãe. 

Quebra-cabeça

Após o sumiço da filha, Edna vive tentando montar as peças de um quebra-cabeça que pode explicar o que se passou na mente da adolescente no momento da possível fuga. Apesar de levar uma vida confortável na casa onde morava no Bairro Grama, a menina, que deseja ser veterinária, sempre sonhou alto. "Ela queria ser dona dela mesma, queria o mundo para ela". Numa terça-feira, dois dias antes do desaparecimento, Andréia faltou a aula, mas, quando questionada pela mãe, negou o fato. "Eu pedi para ela se abrir comigo, mas ela disse que não tinha acontecido nada." No dia seguinte, a mãe achou melhor que a filha não fosse ao colégio. Na quinta-feira, Andréia retomaria a rotina, mas não voltou mais para casa. A adolescente levou consigo o celular da mãe, mas não atendia as ligações nos dias que se sucederam. 

"Naquela semana, a Andréia estava mais agitada, mas só chegamos a essa conclusão depois que ela desapareceu", conta a mãe. "Ela sempre foi mais corajosa, mas a gente não imaginava que ela poderia fugir", completa a irmã mais velha, Adriana Fátima de Lima, 21. A família vasculhou o computador usado pela adolescente, mas não encontrou indício que aponte onde ela possa estar. 

De acordo com a titular do Grupo Tático Operacional (GTO) Família, Dolores Tambasco, o desaparecimento de Andréia foi comunicado, oficialmente, à Polícia Civil, em 14 de abril deste ano, depois que a família foi intimada a comparecer ao GTO, após a unidade ter sido informada sobre o sumiço pelo SOS Crianças Desaparecidas. Deste então, o grupo adotou os procedimentos para a localização da jovem. 

Sumido há quase três anos 

A família do aposentado Waldiney Pereira Valente, que hoje teria 56 anos, também vive um drama desde o desaparecimento dele, em 27 de outubro de 2008. Ele já havia sido internado várias vezes e apresentava histórico de convivência familiar difícil. Pouco mais de um ano antes, no entanto, vivia em uma pensão e apresentava vida social aparentemente normal, segundo a cunhada, Filomena Rocha Valente. "Ele fazia visitas diárias à mãe. No segundo dia em que não foi, começamos as buscas." 

Waldiney desapareceu levando duas malas e o documento de identidade. Segundo familiares, ele sempre demonstrou vontade de ir para o Rio. "Não sabemos o que aconteceu, pois não sabíamos o que fazia na rua e com quem lidava." 

A família já esteve diversas vezes no IML, espalhou cartazes pelas ruas e coleciona anúncios em jornais. "Em novembro de 2008, recebemos ligação anônima dizendo que ele havia sido sequestrado e que estava em um endereço em Juiz de Fora. A polícia foi lá, mas só encontrou uma senhora com uma criança na casa", conta Filomena. 

Nos meses seguintes, a família esperou ansiosamente um contato, pois acreditava que Waldiney solicitaria o dinheiro que recebe pela aposentadoria. "Ele sempre foi vaidoso e gostava de comprar roupas, óculos e se mantinha bem com o dinheiro que a mãe recebia por ele, pois ela tinha a tutela do filho." No entanto, já se vão quase três anos sem notícias. "Quando vejo um mendigo ou alguém caído na rua, sempre penso na possibilidade de ser ele." 

Os familiares de Waldiney clamam por maior participação das autoridades policiais nas buscas, reclamação comum em outros casos de desaparecidos. Após registrar o boletim de ocorrência na PM e fazer a representação na Polícia Civil, a família alega que nada foi feito. "Nunca houve qualquer manifestação das autoridades. Qualquer tentativa de busca feita até hoje partiu da própria família. Nos sentimos muito limitados." 

De volta para casa

Apesar de alguns casos permanecerem sem solução, a maioria dos desaparecidos em Minas é localizada. Conforme a Divisão de Referência da Pessoa Desaparecida, 82% das 2.582 pessoas sumidas em 2010, no estado, foram encontradas. Até maio deste ano, 67% dos 1.020 desaparecidos tinham retornado. 

Orientações

De acordo com a titular do Grupo Tático Operacional (GTO) Família, Dolores Tambasco, em casos de extravio de pessoas, as famílias devem, primeiro, registrar o sumiço na PM, fornecendo o maior número de informações possíveis. Depois, devem procurar o GTO para fazer a representação formal, inclusive levar foto recente do desaparecido e assinar termo de autorização de publicação de dados e imagens para divulgação da imprensa. "Além da publicação local, os dados seguem para a Divisão de Referência da Pessoa Desaparecida, em Belo Horizonte, a fim de que haja divulgação com abrangência nacional." Ainda segundo Dolores, a maioria dos casos recebidos diz respeito a jovens, idosos e pessoas com problemas mentais. "No caso dos jovens, a motivação é o conflito familiar". Ela alerta que é preciso também notificar a Polícia Civil quando a pessoa retorna ao lar. Caso contrário, o desaparecimento fica constando no sistema, o que compromete os dados reais. 

*colaborou Marcos Araújo

 

Adolescentes de JF fogem para o Rio 

A psicóloga do SOS Crianças Desaparecidas, vinculado à Fundação para a Infância e Adolescência do Governo do Rio, Andréa Assunção Pena, alerta que não são raras as ocorrências de menores de idade de Juiz de Fora que tentam fugir para a capital fluminense. Nas viagens de ônibus, há mais chances de que autoridades de lá interceptem adolescentes na rodoviária. O problema, segundo Andréa, é quando o deslocamento é feito de carona. "São meninas muito novas, que não têm experiência na vida e se aventuram em busca de droga ou prostituição. No caso das drogas, elas buscam esquecer a vida dura que levam, e, nos de prostituição, procuram ganhar dinheiro."

Para ela, o diálogo em casa pode evitar que um adolescente entre para as tristes estatísticas de pessoas desaparecidas. "A maioria das mães e dos pais diz que o relacionamento dentro de casa era ótimo, mas, quando vamos averiguar, vemos que existiam complicações na estrutura familiar. Os jovens não estão encontrando estrutura para eles e acabam buscando aventuras maiores do que podem suportar."

 Já a assessora de gabinete da Divisão de Referência da Pessoa Desaparecida da Polícia Civil de Minas, Elenir Cunha, alerta para o perfil mais comum entre os desaparecidos do estado: homens adultos, entre 18 e 50 anos. Conflitos no lar, possíveis dívidas e pendências judiciais são algumas das motivações para as fugas. Porém, Elenir chama a atenção para o aumento do número de idosos desaparecidos, principalmente em decorrência de doenças que afetam o cérebro, como o Mal de Alzheimer. 

Conforme Elenir, embora a Divisão de Referência da Pessoa Desaparecida esteja em Belo Horizonte, cabe aos delegados de cada município dar andamento aos inquéritos que investigam os desaparecimentos. Autoridades policiais locais enviam as informações para o cadastro estadual de desaparecidos mantido pela Polícia Civil. Para ajudar na localização, a instituição compartilha informações com aeroportos, rodoviárias, delegacias, Interpol, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Federal, Centro Internacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas e Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi). As fotos dos desaparecidos são divulgadas nos boletos de cobrança da Cemig e da Copasa, além das revistas de ofertas de uma rede de lojas.

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