
Passageiros reclamam do descumprimento de horário
O transporte coletivo em Juiz de Fora é alvo de críticas crescentes dos usuários, que precisam sair de casa cada vez mais cedo para conseguir embarcar. Sem poder confiar nas tabelas de horários da linhas, devido aos atrasos constantes, os passageiros enfrentam pontos de ônibus cheios e veículos da mesma linha chegando e saindo juntos dos terminais, o que irrita quem espera os coletivos e compromete a eficiência do sistema. A situação, segundo a própria população, tem acirrado os ânimos entre motoristas e passageiros, devido às reclamações. As queixas recaem ainda sobre as paradas fora dos pontos finais para que os profissionais lanchem, enquanto passageiros aguardam dentro do veículo. Se esses acontecimentos já incomodavam a população antes das obras viárias na Avenida Rio Branco, o problema é maior hoje com as intervenções na via e deve permanecer com as futuras obras na Avenida Getúlio Vargas.
Nos dois primeiros meses do ano, a Settra recebeu 160 reclamações sobre o serviço, a maior parte ligada à irregularidade de horário, seguida de críticas à conduta do motorista, como não esperar o embarque e trafegar em direção ofensiva. A Prefeitura garante que realiza fiscalização dos horários e consequentes ajustes para tentar evitar atrasos. Já a Astransp alega que a frota de mais de 200 mil automóveis provoca "concorrência desleal entre transporte coletivo e veículos particulares", situação agravada pelas obras viárias.
No Bairro Amazônia, Zona Norte, moradores relatam ficar horas esperando os coletivos, que chegam em comboio nos pontos. Conforme o site da Astransp, a linha 610 (Amazônia) tem 42 horários diários, com saída do bairro, entre 4h40 e 23h54. Se a programação fosse cumprida, a população teria ônibus, em média, a cada 27 minutos. Mas não é isso o que a comunidade relata. No último dia 23, a doméstica Aline do Nascimento Santos alegou ter ficado quase uma hora e meia no ponto da Rua Jatobá. "Para chegar ao Centro, tenho que sair duas horas antes de casa. Estou esperando o 16h e o 17h05, mas só agora, 17h30, o ônibus está vindo. E, olha só, estão chegando dois ao mesmo tempo. Preciso ir. Se perder estes, só daqui a duas horas."
Sem poder confiar na tabela de horários, alguns usuários preferem andar cerca de 20 minutos a pé para pegar o ônibus no Milho Branco. "Minha filha sai do serviço, no Mariano Procópio, às 15h, mas chega em casa quase 18h, porque não tem ônibus. Quem é pobre e não tem dinheiro para pagar táxi, sofre", resume a servidora pública Maria Aparecida Pereira.
Já no Esplanada, usuários denunciam que, no ponto final das linhas 611 e 612, na Rua Coronel Afrígio Ribeiro, é comum ver até quatro ônibus estacionados e veículos partindo praticamente juntos. "Já ligamos para a empresa e para a Settra. Eles dizem que estão tentando conversar com os motoristas, mas, até agora, a situação permanece a mesma. Quando os próprios passageiros perguntam o que está acontecendo, os motoristas debocham na frente dos outros usuários", diz uma moradora, que preferiu não se identificar.
Depois de longa espera, ônibus passam juntos
Em algumas regiões, a reclamação é de que o descumprimento se daria pela antecipação dos horários, como nas linhas 443 e 444 (Bairro de Lourdes). "Algumas vezes, perco a condução, porque o ônibus de 8h15 passa 7h55", diz uma moradora. Na mesma linha, alguns motoristas param para lanchar em um bar em frente ao ponto da Rua Emergina Ernesto Guilherme, quatro ruas antes da parada final. Enquanto isso, usuários são obrigados a esperar dentro do coletivo. "Tem dia que eu prefiro descer nesse ponto e ir para a casa a pé."
No Centro, a confusão dos horários também acontece. Na tarde do último dia 24, dois coletivos da linha 311 (Santa Tereza) saíram juntos do ponto da Avenida Getúlio Vargas, na esquina com a Rua Afonso Pinto da Mota. "Isso acontece com bastante frequência. Nesses casos, eu tenho que pegar outras linhas, que não me atendem tão bem quanto a 311", diz a enfermeira Eunice Valéria da Costa, que decidiu embarcar em outro ônibus ao saber que dois veículos da linha acabavam de sair juntos.
Os atrasos dos ônibus que atendem o Bairro Estrela Sul, na Zona Sul, fizeram com que a parada em frente ao Centro de Ensino Superior (CES) fosse apelidada de "ponto de espera infinita", pelos próprios usuários. Morador da região, o gerente operacional Rafael Gouvea Barra depende do transporte público diariamente. "Os ônibus passam em horários completamente diferentes dos divulgados. Normalmente, as pessoas preferem descer a pé e embarcar na Avenida Independência, que tem fluxo maior de coletivos." Ele já protocolou diversas reclamações à empresa e à Settra. "Ninguém fica no ponto menos de 40 minutos."
Ainda na Zona Sul, as mesmas reclamações recaem sobre as linhas que atendem ao Bairro São Mateus. "Já houve vez em que um motorista parou em plena Rua São Mateus, de tráfego intenso, na porta de uma padaria para comprar lanche. Um dirigiu com os pulsos, acredite, enquanto comia na marmita", relata Jorge Pires, usuário da linha 524.
Mesmo podendo embarcar em três linhas diferentes para chegar em casa, no Bela Aurora, uma auxiliar de serviços gerais tem ficado quase uma hora e meia nos pontos do Centro, à espera dos coletivos das linhas 141, 142 e 143.
Planejamento
Para o representante da Associação Juiz-forana de Usuários de Transporte de Passageiros, Francisco Anísio Pereira, os atrasos dos horários serão resolvidos apenas com planejamento. "Temos uma topografia acidentada, ruas estreitas no Centro, um rio e uma linha de trem que cortam a cidade. Além disso, estamos há 30 anos sem planejamento de mobilidade. A tendência é que a demanda cresça nos bairros novos e antigos, pois o usuário quer mais ônibus", analisa. "Enquanto o cidadão continuar vendo os ônibus lotados e o sistema pouco eficiente, ele vai preferir usar o carro."
Soluções a médio e longo prazo parecem distantes. A concorrência pública que prevê a contratação de um estudo técnico do sistema de transporte público voltou a ser suspensa em setembro pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE). Como possível saída, o projeto de reformulação do sistema atual está a cargo da Settra.
A Settra espera que o corredor central de ônibus na Avenida Rio Branco seja liberado entre terça e quinta-feira, até o trecho do Mergulhão. Com isso, a expectativa é de que os problemas no trânsito do Centro sejam minimizados.
‘É impossível cumprir os horários’
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Coletivo (Sinttro), José Pedro Ribeiro, considera "impossível" cumprir os horários devido ao trânsito no Centro. "Depois das obras, o tráfego deve melhorar, mas a situação não deve mudar muito, pois o número de carros e ônibus vem aumentando. Hoje cerca de 95% das linhas passam por algum trecho da Avenida Rio Branco." Apesar de usuários alegarem que condutores estariam ‘matando’ horários ou mudando itinerários para evitar atrasos, José Pedro não acredita nestas hipóteses. "Se uma viagem é suprimida, a fiscalização da Settra vai acionar a empresa, e ela vai cobrar do motorista uma explicação." Sobre a impaciência de alguns profissionais, ele explica que, apesar de não ser regra, a situação é reflexo dos transtornos provocados pelo trânsito ruim, pressão das empresas, fiscalização da Settra e pela própria reclamação dos usuários. "O maior índice de afastamento ao trabalho é devido ao estresse."
Em nota, a assessoria da Astransp considerou o número de reclamações restrito frente às 30 mil viagens diárias realizadas pelos 572 ônibus das 260 linhas que circulam em Juiz de Fora, empregando 1.280 motoristas nas oito empresas. Conforme a associação, uma pesquisa recente feita com usuários revelou que apenas 3% apontam o comportamento dos condutores como razão de insatisfação, sendo que 65% dos entrevistados avaliam os serviços como ótimo e bom. As empresas garantem ainda que realizam treinamentos com seus funcionários, a fim de capacitá-los a manter bom relacionamento com os usuários.
O Sinttro e a Astransp explicam que os motoristas são autorizados a fazer uma parada para lanches e uso do sanitário, mesmo que fora do ponto final, mas em horários que não sejam de pico e locais que não atrapalhem o trânsito. "Muitas vezes, os pontos finais não oferecem condições para os profissionais fazerem um lanche e irem ao banheiro", diz José Pedro.
Fiscalização
A Settra orienta que passageiros insatisfeitos formalizem reclamação ao Serviço de Orientação ao Usuário, pelo telefone 3690-8218. A pasta informou que agentes de fiscalização acompanham as linhas e verificam os problemas, buscando soluções. O controle do cumprimento de itinerários e horários é feito por meio das cabines instaladas na Praça Antônio Carlos e no Largo do Riachuelo; dentro dos ônibus, quando os agentes, sem uniforme, fazem viagens completas para acompanhar a prestação do serviço; pela observação das imagens das câmeras instaladas nos veículos; da análise do tacógrafo, que informa quilometragem, velocidade e tempo parado; além de fiscalização móvel nos itinerários e pontos finais.
"Se for constatada infração do motorista, o profissional é convocado a prestar esclarecimentos, e a empresa é autuada. A multa depende da situação, variando entre 0,7 UFM e 2 UFM (a UFM hoje vale R$ 71,08). Se for verificado problema no quadro de horários, por exemplo, este pode ser revisto. Se for verificado atrasos em função das obras, os problemas são discutidos de forma a serem minimizados", informou a assessoria da Settra.

