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Medo de gangues altera rotina escolar na cidade

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A violência entre gangues na Zona Norte levou diretores de escolas a antecipar o horário de entrada e saída de seus alunos. A medida entrou em vigor no mês passado, em algumas instituições, e tem o objetivo de evitar que estudantes saiam dos estabelecimentos em horários em que normalmente há conflitos entre jovens de grupos rivais. A iniciativa foi solicitada por pais de alunos após os homicídios de dois adolescentes, ambos de 14 anos, ocorridos em menos de um mês, além de outros conflitos entre jovens no Jóquei, Barbosa Lage e Cidade do Sol. As principais ocorrências (ver quadro) têm ligações entre si e representam atos de revanchismo. As próprias vítimas já não frequentavam as aulas regularmente por problemas com gangues rivais.

Desde a primeira morte que resultou na onda de violência, uma escola municipal recebe patrulhamento diário da Guarda Municipal. "Os professores estão sendo ‘escoltados’ pelos guardas. Eles chegam antes de nós e só saem depois que vamos embora. Durante o dia, ficam na escola", diz uma docente.

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Em uma escola estadual no Barbosa Lage, a turma vespertina do sétimo ano do ensino fundamental teve seus horários de entrada e saída antecipados em meia hora. Segundo a direção, a medida foi adotada em comum acordo entre pais e escola. A mesma alternativa foi adotada por uma creche particular no mesmo bairro. Já a direção de uma escola municipal que recebe alunos de até 6 anos diminuiu o tempo de permanência das crianças no pátio externo, que dá acesso à rua. "No horário de saída, deixamos sempre um funcionário na porta para fechar o portão se houver alguma briga. Quando (os enfrentamentos) ficam mais latentes, os pais não trazem os alunos", revela a diretora.

Mesmo as escolas que não tiveram a rotina alterada convivem com o medo. "Chegam muitos boatos sobre brigas de gangues, e, quando acontece isso, os pais ligam perguntando se podem mandar os filhos para o colégio", relata o diretor de uma escola pública no Barbosa Lage. Segundo ele, a apreensão da comunidade aumentou após as mortes dos dois adolescentes. "Os próprios alunos estão com medo de voltarem sozinhos para casa. Estamos orientando-os a irem com um colega ou pedirem que algum responsável os encontre no meio do caminho", disse a diretora de outra escola, no Jóquei. "As crianças só falam em violência, sobre quem morreu ou foi esfaqueado", conta uma professora.

Moradores acuados

Viver próximo a uma boca de fumo nunca foi problema para uma moradora do Jóquei II. Mas conviver com os recentes enfrentamentos de gangues, virou um tormento para a mulher. "Já estava construindo uma casa em outro bairro, mas, mesmo se não estivesse, eu me mudaria daqui agora. Ninguém aguenta mais essa situação." Outra moradora do mesmo bairro não sai mais de casa à noite. "A vizinhança toda está com medo de sair na rua e levar um tiro."

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Reforço na prevenção

Para a Polícia Militar, a iniciativa das escolas se soma aos esforços de prevenir a criminalidade entre crianças e adolescentes. "Achamos que toda ação em prol de evitar qualquer tipo de crime é bem-vinda. O colégio é parte integrante nesse combate às brigas de jovens", diz o assessor de comunicação do 27º Batalhão, capitão Paulo Alex Moreira. Ele acrescenta que a corporação está atenta ao problema, inclusive tendo implementado patrulhas escolares. "Além disso, lançamos uma patrulha de prevenção a homicídio, há cerca de dois meses, que tem foco mais afinado com a questão de possíveis autores e vítimas de assassinatos, inclusive adolescentes."

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Sofrimento entre as famílias

As mortes violentas registradas recentemente na Zona Norte e que motivaram as alterações nas escolas chamaram a atenção pela pouca idade das vítimas. Integrantes de grupos de bairros rivais, os garotos de 14 anos são os exemplos de como a questão das gangues ganhou ares preocupantes em Juiz de Fora. Enquanto amigos dos jovens prometem vingança, os familiares sentem o vazio de não terem mais a presença deles em casa. Luan Felipe Antero estava matriculado em uma escola estadual no Bairro Industrial, mas não frequentava as aulas com regularidade, pois não podia atravessar o bairro "inimigo". "Ele só ia de vez em quando", diz a prima do garoto. Com o tempo ocioso, passava a maior parte do dia na companhia de amigos. O adolescente dividia uma modesta casa, de apenas um quarto, com a mãe, de 38 anos, e uma irmã, 5. Luan conhecia o pai, mas não tinha relação com ele. A mãe recebia cerca de R$ 650 por mês, fruto do Bolsa Família e de uma pensão devido a uma doença do menino. "Ela usava esse dinheiro para cuidar dos filhos; nunca deixou faltar nada para eles", diz a tia do garoto, de 50 anos.

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Após a morte do filho, a mãe do adolescente se mudou para outro imóvel, ainda no Jóquei I, e vive dias de apreensão. "Durante algum tempo após o assassinato, ela passou o dia todo na rua, no local onde o Luan morreu. Ela chegou até a dormir por lá", conta a tia do menino.

‘Ele escolheu o lado errado’

Há poucos quilômetros dali, no Jóquei II, a família de Gláucio Matheus Ferreira Santana, 14, vive um drama parecido. O pai, um vigilante, de 39 anos, ainda tenta entender as circunstâncias do assassinato do filho. "Foi uma morte muito bruta." Gláucio também já havia deixado de frequentar a escola. O pai o retirou, no início do ano, devido às ameaças que o filho vinha recebendo. "No ano que vem, iria matriculá-lo de novo. Ele era inteligente. Em outubro, já passava de ano."

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Transitando entre a casa da mãe, no Bairro Progresso, e a do pai, no Jóquei II, o garoto começou a se envolver com problemas ainda na fase final da infância. "Até os 10 anos, ele foi criado na Igreja Universal. Depois foi para a Igreja Católica, mas não ficou três meses lá. Começou a andar com uns garotos e foi para esse caminho errado", diz o pai.

Durante os sete dias de internação no HPS, o pai acompanhou Gláucio no hospital. "Ele foi para lá praticamente morto. Não aguentava mais a tortura de ver meu filho na maca, sem se mexer." O pai garante ter alertado o jovem sobre os perigos de se envolver com o crime, mas não obteve sucesso. "Ele esquematizava tudo através do computador, na lan house. Conversava com as meninas, fazia as afrontas… Ele encarava 200 homens na mão, mas tinha muito medo do Jóquei I."

 

 

Crimes fomentam onda de violência

No último dia 16, por muito pouco, mais um adolescente de 14 anos não foi morto devido às rixas de gangues na Zona Norte. Ele e a mãe, moradores do Jóquei II, ficaram sob a mira de um revólver calibre 32, na praça do bairro, por volta do meio-dia. Os suspeitos da ameaça são dois jovens, 18 e 19 anos, moradores do Cidade do Sol. Ao avistarem as vítimas, os rapazes teriam corrido até um beco, onde pegaram a arma e ameaçaram mãe e filho de morte. A PM foi chamada, realizou buscas nas residências dos rapazes, mas não localizou a arma. Após os envolvidos serem levados para a delegacia, a mãe da vítima desistiu de seguir com a ocorrência, temendo represálias ao filho, e os suspeitos acabaram liberados. Enquanto aguardavam, os suspeitos mantiveram-se cabisbaixos e quietos. Após serem soltos, saíram da delegacia sem esboçar arrependimento.

Um dos suspeitos afirmou à Tribuna ter acionado o gatilho, mas o tiro teria falhado. "Tem rixa entre praticamente todos os bairros. Os Jóqueis I, II e III brigam entre si. O Cidade do Sol briga com o Jóquei II. O Milho Branco briga com o Jardim Natal", explicou. O rapaz, de 18 anos, afirmou ter sido detido cinco vezes , a maioria por suposto envolvimento em conflitos de gangues.

‘Os moleques vão vingar isso’

Através do programa de mensagem MSN Messenger, a Tribuna conversou com outros jovens que conhecem a realidade das disputas entre gangues. "É um bairro contra o outro. Mataram um no JC1 (Jóquei Clube I), foram lá e mataram no JC2 (Jóquei Clube 2)", disse um jovem, ao resumir as últimas mortes na Zona Norte. Questionada se, após os homicídios, as consequências da rixa poderiam ir mais longe, uma adolescente de 17 anos teme: "Não parou, não. Os moleques vão vingar isso."

Pedidos de paz na internet

Na rede social Orkut, várias comunidades foram criadas em homenagem a Luan e Gláucio. Entre as mensagens de pesar, destacam-se algumas de moradores cansados da onda de violência. "Espero, de verdade, que essas coisas parem, porque, de boa, não dá mais para perder ninguém", diz uma mensagem. "Bom, meus amigos e amigas, espero mesmo que a morte do Glaucin sirva para que todos nós possamos analisar nossos conceitos de certo e errado", escreve uma amiga da vítima. "Espero, de todo meu coração, que a morte dele não tenha sido totalmente em vão, e que todos vocês, que são amigos dele, tomem como exemplo e estudem, e percebam que certas coisas não valem mesmo a pena, pois eu, como mãe, quando vi um menino jogado no chão, sofri muito", comenta uma mulher que parece ter presenciado o momento em que Gláucio foi atingido pelos tiros.

 

 

Questão territorial motiva confrontos

Para a Polícia Civil, os homicídios de Luan e Gláucio não têm relação direta, mas fazem parte da onda de crimes motivados pelo revanchismo que tomou conta dos integrantes dos bairros da Zona Norte. No caso da morte de Luan Felipe Antero, a informação da Polícia Civil e da Vara da Infância e da Juventude é de que o suspeito, de 17 anos, foi identificado, e o caso aguarda decretação de sentença. Já os três suspeitos da morte de Gláucio Matheus Ferreira Santana estão identificados, mas estariam desaparecidos. Um deles tem apenas 16 anos. "Todos os homicídios que aconteceram na Zona Norte estão apurados, com a autoria definida e com a maioria dos suspeitos detida", esclarece a titular da 3ª Delegacia de Polícia Civil, Sheila Pedrosa de Melo Oliveira.

Apesar de se inspirarem nas facções criminosas do Rio de Janeiro, cuja rivalidade se dá pelo controle do ponto de tráfico de drogas, a questão das gangues de Juiz de Fora tem se limitado ao contexto territorial. "Esses jovens não são ladrões, não são assaltantes e raramente se envolvem com o tráfico. Eles se enfrentam pelo simples fato de serem de bairros diferentes", constata o inspetor da Polícia Civil Anderson Salvador.

O agravante é que, cada vez mais, os adolescentes estão se armando, principalmente com revólveres calibres 22 e 32. "A tendência é que as armas que chegam às mãos desses jovens saiam da própria população de bem", diz a delegada. Conforme informações da 3ª Delegacia, cerca de 20 armas foram apreendidas este ano na Zona Norte.

Já o assessor do 27º Batalhão, capitão Paulo Alex Moreira, afirma que estão sendo feitas abordagens sistemáticas a esses jovens, muitos deles identificados pela corporação, a fim de evitar a onda de revanchismo. "É importante prevenir, pois uma vítima de homicídio tentado hoje pode ser, no futuro, um autor de um homicídio consumado."

Envolvimento de meninas

Os titulares da 3ª Delegacia de Polícia Civil, Sheila Pedrosa e Francisco Corrêa Rezende, a titular da Vara da Infância e da Juventude, juíza Maria Cecília Gollner Stephan, e o diretor do Centro Socioeducativo, Alexandre Correia Rocha, iniciaram uma série de reuniões mensais para discutir a violência entre jovens da Zona Norte.

O que chama a atenção da juíza é a participação cada vez maior das meninas nesse universo. "Só esse ano, já encaminhamos seis adolescentes para o Centro Socioeducativo São Jerônimo, em Belo Horizonte (que recebe meninas menores de 18 anos envolvidas em atos infracionais)." Ainda conforme a magistrada, os jovens envolvidos em ocorrências com emprego de armas e/ou drogas estão recebendo punições mais severas.

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