A expansão dos centros urbanos continua interferindo na rotina de animais silvestres e aumentando o risco de morte de diversas espécies. Em menos de um mês, três felinos perderam a vida após se envolverem em acidentes na BR-040, na região de Juiz de Fora. O caso mais emblemático envolveu uma onça-parda, ou suçuarana, que não é muito comum na região de Juiz de Fora.
Na avaliação do inspetor da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Armstrong de Carvalho, as três mortes – a onça-parda, uma jaguatirica e um gato mourisco – coincidiram com o corte feito na vegetação entre os kms 773 e 774, para a construção de uma estrada. A hipótese levantada por nós é de que esta interferência tem feito com estes animais se desloquem até a pista. Estamos registrando todas as ocorrências para encaminhar ao Ministério Público de Meio Ambiente, a fim de que sejam tomadas as devidas providências.
A preocupação com os riscos levaram à criação de nova linha de pesquisa – a ecologia de estradas -, cujo objetivo é buscar alternativas para impedir que a extinção destes animais seja acelerada por conta de atropelamentos. Atualmente temos perdido mais espécies por atropelamentos do que por caça, ressalta o professor e pesquisador da vertente, Wesley Vieira. Segundo ele, os estudiosos da área defendem a criação de meios como passarelas e túneis de fauna, além de contenções, para que estes animais possam seguir seu caminho sem riscos.
Nosso grande desafio é identificar a sazonalidade e o padrão destes acidentes, não apenas no âmbito das estradas, mas também no perímetro urbano. Na Estrada Engenheiro Gentil Forn, um dos principais acessos à Cidade Alta, e onde há concentração de mata, é comum o atropelamento de quatis, que são facilmente confundidos com cães ou gatos, comenta o pesquisador.
A preocupação também paira sobre a equipe do Instituto Estadual de Florestas (IEF), que, recentemente, passa a responder também pelos animais presentes nas matas em sua área de atuação. A coordenadora de fauna do IEF em Juiz de Fora, Cláudia Maria Lourenço de Oliveira, destaca que o órgão dará início a um levantamento nas estradas para descobrir de onde estes animais estão vindo e identificar possíveis interferências.
Será um trabalho de campo, em conjunto com todos as entidades que atuam nas rodovias, principalmente por estarmos em uma região de Mata Atlântica, que propicia o surgimento de animais de grande porte, como a onça-parda, que têm como principal característica percorrer grandes distâncias.
Busca por alimentos
Mestre em comportamento animal, o biólogo e professor do curso de Ciências Biológicas do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES-JF), Rogério de Oliveira, ressalta que, além da facilidade no acesso às rodovias ocasionada por estas intervenções, há outro fator que leva um animal silvestre para a beira das estradas: a procura por alimentos. Muitos são atraídos por restos de comida lançados em acostamentos por ocupantes de automóveis, ou, por animais mortos em decorrência de acidentes, o que os colocam em locais perigosos. A onça-parda morta na semana passada, por exemplo, foi atropelada enquanto comia uma capivara morta.
Além de contribuir para a morte precoce de espécies de animais silvestres, os atropelamentos também podem colocar em risco a vida de seres humanos. Usando como exemplo a onça-parda, que é um felino de porte grande, o choque entre ela e um veículo de passeio poderia ocasionar em um grave acidente. Por isso, a atenção nestas áreas deve ser redobrada, principalmente à noite e quando há cerração. Sob estas condições, deve-se evitar ultrapassar os limites de velocidade. A orientação vale não só para animais silvestres, mas para equinos e bovinos que fogem de propriedades particulares e acessam as estradas, afirma o inspetor da PRF, Armstrong de Carvalho.
