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Centros de inclusão digital são subutilizados

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Em uma cidade na qual 57% dos domicílios ainda não contam com internet, conforme dados do Censo 2010 do IBGE, torna-se essencial a disponibilização gratuita dessa ferramenta à população, seja para a oferta de cursos de informática, capacitação profissional ou simplesmente para comunicação interpessoal e acesso a sites de notícias, serviços e pesquisas. Em Juiz de Fora, dezenas de salas dispõem de computadores com banda larga, mas, ainda assim, alguns telecentros estão subutilizados. Entre os motivos possíveis estão a falta de conhecimento por parte da população sobre esse tipo de oportunidade e as restrições de tempo e conteúdo que alguns centros de inclusão digital impõem aos usuários. Este último, inclusive, é um tema polêmico.

A Tribuna visitou alguns desses espaços e percebeu que os computadores são utilizados, em boa parte dos casos, para acesso a redes sociais, como Facebook e Orkut, além de jogos on-line, principalmente entre os jovens. O professor do Departamento de Ciência da Computação do Instituto de Ciências Exatas (ICE) da UFJF, Eduardo Barrére, acredita que limitar o acesso não resolve o problema, mas defende um uso mais útil das lan houses públicas. "Não é só arrumar um espaço, colocar computador e falar: ‘acessa’. É preciso ações em diversas linhas para que aquilo valha à pena."

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Atualmente 12 telecentros comunitários implantados na cidade pelo Ministério das Comunicações funcionam em igrejas, postos policiais e sedes de organizações não governamentais (ONGs). Outros três estão sendo remanejados, e um dos motivos é justamente a baixa demanda em determinados locais. "Quando vemos que não está tendo movimento, fazemos o remanejamento. Não adianta o telecentro ficar em um lugar cuja população não usa se outras comunidades podem usufruir muito mais", explica a assessora da Secretaria de Governo da PJF e coordenadora dos telecentros comunitários do Ministério das Comunicações em Juiz de Fora, Luciana Moreira. Outros órgãos públicos, como a Câmara Municipal, a Biblioteca Municipal, a UFJF, os centros regionais da Prefeitura e o Governo estadual, também oferecem o serviço (ver quadro).

 

Família conectada

A casa da faxineira Fátima Aparecida Moreira, 51 anos, no Dom Bosco, Cidade Alta, é uma das quase 98 mil residências da cidade que não contam com acesso a internet. Mas não é por isso que a família deixa de se conectar à rede mundial de computadores. Os três filhos da diarista têm contato com a internet na escola, mas é no telecentro comunitário do bairro, na Associação Beneficente e Cultural Amigos do Noivo (Aban), que eles mais aproveitam a oferta gratuita da banda larga. Por enquanto, Fátima ainda não lida bem com o teclado e com o mouse. "Mas minha filha vai me ajudar. Assim, vou poder ler notícias e pegar receitas na internet."

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A filha, Bianca Aparecida Moreira Rabelo, 14, já está mais familiarizada com o universo digital. "Uso para fazer pesquisa, dever da escola e entrar no Orkut", diz, enquanto buscava um vídeo da cantora Beyoncé no YouTube. Assim como os outros telecentros da cidade, o trabalho dos colaboradores é voluntário, o que causa algumas dificuldades. Este ano, por exemplo, ainda não foram oferecidos cursos de informática, pois a coordenação não conseguiu encontrar um professor. "A procura por cursos é grande, principalmente entre as pessoas de 30 a 40 anos, que estão querendo aprender a mexer no computador", diz um dos responsáveis pelo telecentro do Dom Bosco, Joel Augusto.

 

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Violência é empecilho em algumas regiões

Em algumas regiões da cidade, é maior a dependência da população sobre a internet ofertada nas lan houses gratuitas. Os computadores disponíveis no Centro Regional Nordeste, no Bairro Grama, por exemplo, recebem uma grande demanda de comunidades do entorno, onde até o sinal de celular é precário. Dessa forma, a internet popular auxilia estudantes a fazerem seus trabalhos escolares, inclusive imprimindo as pesquisas na sala de informática pública.

Já o atendimento dos telecentros do Ministério das Comunicações varia de acordo com a comunidade na qual está instalado. "Para atender os trabalhadores, alguns funcionam somente à noite ou abrem nos finais de semana", explica a coordenadora Luciana Moreira. Ainda conforme ela, em comunidades violentas, as salas fecham mais cedo, e há informações de que alguns telecentros precisam respeitar uma espécie de toque de recolher dada por traficantes de drogas.

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Apesar das dificuldades, são visíveis os frutos colhidos pela implantação desses projetos. "Uma das histórias mais interessantes é a de um menino que costumava furtar produtos de uma padaria. Um dia, o próprio padeiro pegou o garoto e o colocou dentro do telecentro do bairro. O menino parou de roubar e hoje é uma fera na informática", orgulha-se Luciana, que pretende expandir as salas de informática para outros bairros nos próximos anos.

 

Uso consciente depende de incentivos

A baixa procura pelos telecentros ou o uso exclusivo da internet grátis para acessar redes sociais ou jogos podem revelar que esses espaços não estão prestando um serviço tão útil quanto poderiam ou deveriam. É em cima dessa reflexão que o professor do Departamento de Ciência da Computação do Instituto de Ciências Exatas (ICE) da UFJF, Eduardo Barrére, propõe que os projetos sociais estimulem novos usos da internet. "Mudar a forma de uso dos telecentros envolve outras ações sociais e educacionais. Se você simplesmente cortar o acesso a alguns sites, ninguém mais vai usar, porque as pessoas não descobrem outras utilidades. Procurar emprego pela internet, por exemplo, é uma boa. Mas quem disse que a população sabe disso?"

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O especialista não deixa de acreditar que as redes sociais e os jogos sejam importantes para o trabalho de socialização das crianças e adolescentes. Ele vê com naturalidade o aperfeiçoamento do uso da internet pela população, embora defenda que o processo dependa de incentivos.

 

Fiscalização

Nos telecentros comunitários do Ministério das Comunicações, por exemplo, a restrição ao conteúdo atinge apenas sites pornográficos e de pedofilia. "O próprio Governo faz o trabalho de bloquear esse tipo de site, mas, segundo dados do ministério, a cada um segundo é criado um novo site de pornografia. Então, sempre oriento os coordenadores a verificar o que as pessoas estão acessando, além de evitar que as crianças e adolescentes acessem jogos que envolvam violência", diz a coordenadora dos telecentros comunitários do Ministério das Comunicações em Juiz de Fora, Luciana Moreira.

A localização dos telecentros é outra preocupação. "Não adianta fazer um em São Mateus. Tem que colocar nas periferias e alguns no Centro, onde passa toda a população da cidade. Ou seja, é preciso estar perto de quem realmente precisa", opina Eduardo Barrére.

Sobre o fato de 57% dos domicílios em Juiz de Fora ainda não terem computador com acesso à internet, o professor da UFJF acredita que a cidade esteja numa situação abaixo da esperada. Ele atribui esse cenário desconfortável a dois problemas clássicos: a falta de concorrência no setor e a própria topografia do município, o que impede que determinados tipos de serviços, como a internet a rádio e a cabo, não cheguem. "Muitas vezes, a pessoa quer colocar a internet, mas enfrenta esses problemas."

 

 

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