
A existência de Área Azul nos dois lados de ruas estreitas da área Central de Juiz de Fora acaba dificultando o escoamento do trânsito. O resultado são retenções que se formam ao longo do dia, especialmente nos horários de rush. O problema pode ser notado, principalmente, em vias transversais à Avenida Getúlio Vargas, como as partes baixas das ruas Floriano Peixoto, Marechal Deodoro e Santa Rita (ver quadro). Na Floriano, o rotativo chegou a ser eliminado de um dos lados, mas, em pouco tempo, com o grande número de veículos em circulação e a escassez de lugar para os carros, as vagas acabaram sendo reabertas. Hoje, somente na região Central, são 767 espaços de rotativo. A situação é polêmica. De um lado, os que defendem o estacionamento nas ruas e, de outro, aqueles que ressaltam a importância de maior área para circulação dos veículos públicos e também para pedestres.
Com o quadro atual, a simples manobra de um carro para estacionar é suficiente para emperrar o fluxo em algumas vias, afetando ruas e avenidas do entorno. Além disso, conforme especialistas, a disponibilidade desses espaços pode atrair mais veículos para a região, causando maior saturação no trânsito.
O engenheiro Vitor Emanuel Guércio procurou a Tribuna e fez uma série de apontamentos sobre a situação. De acordo com ele, o problema pode ser notado mais intensamente na esquina da Avenida Getúlio Vargas com a parte baixa da Rua Floriano Peixoto. Com estacionamento dos dois lados, resta apenas uma faixa para o fluxo vindo da Getúlio e da parte alta da rua, onde são duas pistas livres. Se dois carros buscam acessar o trecho juntos, acabam fechando a entrada da via, causando retenções. Como aponta Guércio, o problema é reconhecido até mesmo pela Prefeitura, visto que, "na época do Natal, chegou a eliminar uma das faixas de estacionamento para o trânsito escoar melhor".
O mesmo acontece na parte baixa da Rua Santa Rita, onde também há faixas de estacionamento dos dois lados. Por conta dessa situação, enquanto um veículo manobra para entrar ou sair da vaga, o tráfego fica retido e, dependendo da movimentação, o impacto chega até a Getúlio. Nem mesmo comerciantes, que seriam beneficiados pela presença desses espaços, concordam com a disposição. Proprietário de uma distribuidora de alimentos Henrique Garcia diz que as retenções são diárias, sobretudo nos horários de maior movimento. "Muitas pessoas demoram para fazer a vaga e acabam causando uma confusão tremenda", relata, pedindo a liberação de pelo menos um dos lados para que o tráfego flua melhor. O dono de uma loja de materiais eletrônicos Waldyr Doro reclama da poluição provocada pelos veículos que ficam parados na rua por conta dos congestionamentos. "Já tive uma funcionária que precisou tirar licença depois de ter problemas de saúde causados pelo excesso de fumaça."
Já para o tráfego da Avenida Francisco Bernardino, o maior complicador é a Rua Fonseca Hermes. Apesar de ser estreita, a rua tem uma faixa de Área Azul e acaba não comportando o fluxo que vem da avenida. "Lá é um exemplo de via que não podia ter estacionamento", opina Guércio, citando a presença de um supermercado na rua, que atrai caminhões, deixando o cenário mais confuso. Outro problema associado ao trecho é a falta de um sinal no cruzamento com a Batista de Oliveira. "Como o fluxo que vem da Batista é muito intenso, quem vem da Fonseca Hermes não consegue fazer a conversão." Na Marechal Deodoro, o quadro se repete. Também com Área Azul dos dois lados, há sobrecarga na via com o fluxo vindo da Getúlio, engrossado por veículos vindos da Batista.
Settra admite impasse
Apesar de não ignorar a existência do problema, o subsecretário de Mobilidade Urbana, Carlos Eduardo Meurer, pondera ser algo de difícil solução no modelo atual do trânsito no Centro. "Temos que buscar fluidez e segurança nos deslocamentos. Mas, no caso da área Central, não adianta ter isso se as pessoas não conseguem estacionar." Como ele pontua, nas vias em questão não há como atender os dois lados. Entretanto, ainda é possível ter estacionamento, mesmo com algumas retenções em níveis suportáveis. "Se tomarmos uma decisão de retirada das vagas, será motivada por uma demanda sobre a qual a fluidez esteja muito prejudicada." Para ilustrar, ele cita o projeto futuro de instalação de trincheiras na Rua Benjamin Constant e na Praça dos Três Poderes, ligando a Avenida Francisco Bernardino à Rua Leopoldo Schmidt. "Quando isso acontecer, a Floriano vai sofrer uma sobrecarga de demanda. Com isso, a via certamente terá que operar com estacionamento apenas de um dos lados."
Prioridade deve ser do pedestre
Para o consultor e especialista em mobilidade urbana José Ricardo Daibert, "veículo parado em via pública é a pior forma de utilização desse espaço". Segundo ele, o estacionamento deve ser feito em locais como garagens subterrâneas ou edifícios-garagem. Como explica, quanto mais oferta de vagas em vias da região Central, mais fluxo de tráfego é atraído, correndo-se o risco, inclusive, de trazer uma demanda maior do que a capacidade. "Conceitualmente, acho válido liberar cada vez mais essas vias, abrindo espaço para pedestres, ciclistas e transportes públicos." Por conta disso, ele considera interessante não incentivar o tráfego nas áreas centrais. Entretanto, não se trata de uma modificação a ser tomada "da noite para o dia", mas algo a ser discutido como política pública, que deve ser materializada por meio de projetos de melhorias no transporte público.
Na opinião do presidente da Comissão Municipal de Segurança e Educação para o Trânsito (Comset), José Luiz Britto, a prioridade deve ser dada ao pedestre. Por conta disso, alterações no modelo de trafegabilidade devem levar em conta o aumento dos espaços destinados para quem está a pé. Sendo assim, ele faz coro com Daibert ao defender políticas que desestimulem o uso dos veículos particulares no Centro. Britto sugere, por exemplo, a criação de pedágios urbanos, como forma de restringir o tráfego no Centro. Apesar das críticas, ele não descarta a importância da Área Azul para o modelo atual, uma vez que permite rotatividade nas vagas, dando mais oportunidade em estacionamento.

