
Após briga, refletor externo foi depredado na UPA Norte
O enfrentamento de gangues rivais tem levado temor aos pacientes e aos profissionais de saúde que atuam nas UPAs Norte e de Santa Luzia. Estas unidades construídas para serem portas de urgências hospitalares têm virado palco frequente de brigas quando algum jovem envolvido em enfrentamentos nas ruas chega ferido ou baleado para ser socorrido. Nestas ocasiões, integrantes de grupos rivais estariam entrando nas unidades com o intuito de continuar os tumultos iniciados fora dos espaços. Nos arredores e dentro da UPA Norte, inaugurada há cinco meses, pelo menos cinco episódios envolvendo galeras foram registrados. Nesta semana, dois jovens baleados precisaram ser atendidos no espaço, deixando todos em alerta. Um deles acabou morrendo na UPA, o que aumentou a tensão. Militares tiveram que comparecer ao velório no Cemitério Municipal, após informações que pessoas armadas estariam no local para se enfrentar. Depois de buscas pessoais, a PM encontrou munições e armas de fogo e brancas com adolescentes.
A sensação de insegurança chegou a tal ponto na UPA Norte que as páginas do livro usado para registrar as atividades dos médicos acabaram cheias de desabafos e pedidos por mais segurança. No final de janeiro, uma médica grávida foi agredida dentro do prédio. Mesmo quando os casos não chegam às vias de fato, levam pânico aos funcionários. Na UPA de Santa Luzia, a situação também é recorrente. O gerente administrativo da unidade, Marco Antônio Guimarães de Almeida, relata que os fatos acontecem desde que a estrutura está em funcionamento, há cerca de três anos. "Infelizmente isto é o normal aqui. Não tem jeito, temos que colocar a cara até a chegada da PM, que geralmente demora muito, isso quando vem. É triste afirmar isto, mas já nos acostumamos a conviver com o medo."
De acordo com o Ministério da Saúde, não há legislação específica que trate da segurança nas UPAs, ficando a cargo dos gestores definir as estratégias de enfrentamento. Porém, sem amparo legal, com vigilância feita por conservadoras e sem aporte para a contratação de mais funcionários e apoio do município, trabalhadores destas unidades estão acuados. Médicos e administradores não sabem mais a quem recorrer para que a deficiência seja sanada.
Receio
O administrador da UPA Norte, Agenor Teixeira, considera a segurança do local "falha". "Fazemos o possível para prestar um atendimento de qualidade e ser modelo em saúde, mas não podemos realizar muito pela segurança." O caso da médica agredida aconteceu durante um plantão noturno de um sábado. Ela teria sido atingida ao tentar impedir que um grupo invadisse a ala dos consultórios para continuar uma briga com um jovem machucado que recebia os primeiros socorros. Os médicos da unidade se mostram receosos com a realidade vivida. Um deles, que preferiu não se identificar, relata: "Só não fui agredido por um grupo, de cerca de seis pessoas, que tentava bater em um paciente internado porque não demonstrei medo. É preciso segurança urgente, antes que o mal cresça." Uma enfermeira, que também não quer ter seu nome divulgado, contou que casos de violência são comuns: "Já ouvi relatos de que, na Policlínica de Benfica, eles estavam acostumados a entrar e colocar o terror, sem fazerem ficha. Eram atendidos pelo medo que causavam. Mas aqui é diferente, é obrigatória a passagem pela triagem e tem a espera, então, eles se revoltam."
O Sindicato dos Médicos está ciente da situação. Depois de ouvir relatos dos funcionários, o presidente Gilson Salomão considera que o local está um "inferno". "A situação está grave. Quando as gangues não vão para continuar a briga, vão para proteger quem está ferido." Segundo ele, na próxima terça-feira, representantes do sindicato farão uma visita ao espaço.
A questão também preocupa o Sindicato dos Enfermeiros. De acordo com a entidade, um enfermeiro foi ameaçado de morte dentro de uma das unidades e precisou ser transferido. "Infelizmente os enfrentamentos entre gangues são uma realidade na cidade, que agora começou a colocar em risco profissionais da saúde. É uma vergonha. As autoridades precisam se mobilizar, senão teremos que pedir medidas para garantir a vida de quem trabalha nestes espaços", disse o presidente da entidade Anderson Stehling
Apesar de a direção da UPA de São Pedro, na Cidade Alta, afirmar que não há registros de episódios violentos no local, a assessoria confirma que a segurança é "uma preocupação constante".
‘Eles são audaciosos e, geralmente, estão armados’
Um dos porteiros que trabalha na UPA Norte, controlando o acesso às alas onde são realizadas as consultas e procedimentos, afirma que já presenciou a invasão de grupos na área pelo menos duas vezes. "É só chegar algum deles para ser atendido que tentam entrar à força, seja para brigar mais ou para defender quem está lá dentro. Nem polícia eles respeitam, quem dirá a nós", desabafa. Já o vigia que trabalha do lado de fora da unidade, contou que, no sábado de carnaval, dois grupos, com pelo menos 30 garotos, enfrentaram-se na Avenida JK, e a confusão acabou se arrastando até a porta da UPA. "Eles são audaciosos e, geralmente, estão armados. Não posso fazer nada, infelizmente." Como resultado, um dos refletores que fica na área externa foi depredado.
Atualmente quatro pessoas trabalham na guarda. Com média de 300 atendimentos diários, o número de designados para a função é considerado pequeno pelo administrador da UPA Norte, Agenor Teixeira. "É impossível controlar confusões generalizadas, que acabam afetando a todos." Além destes profissionais, a unidade de saúde conta com 25 câmeras de monitoramento. Porém, os equipamentos ainda passam por adequações. "Nenhum dos casos foi registrado com filmagem. Na época, as câmeras não estavam funcionando", esclarece Agenor. Segundo ele, algumas mudanças foram feitas para tentar garantir a integridade física de profissionais e pacientes, como, por exemplo, não deixar que, em alguns setores, mulheres realizem o atendimento sem a companhia de um homem, principalmente no período noturno. "Isso não garante nada, mas intimida", esclarece Teixeira.
Situação de insegurança é considerada crítica
Na UPA de Santa Luzia, episódios semelhantes têm sido registrados. O gerente administrativo da unidade, Marco Antônio Guimarães de Almeida, conta que já presenciou cenas de violência, como a invasão de grupos rivais, e pacientes que acabam se exaltando e partindo para a agressão.
Uma médica que trabalha no local conta que todos os plantões noturnos são tensos. "A gente nunca sabe quem vai chegar aqui, e não podemos deixar de atender ninguém. Quando sei que vou atender um paciente ferido em algum desentendimento entre gangues, fico receosa. A situação de nossa segurança é realmente crítica", desabafa.
HPS
Em junho passado, os corredores do HPS também foram espaço de confronto entre grupos rivais. Antes de entrar na unidade, rapazes se confrontaram na porta, onde um jovem de 18 anos foi esfaqueado nas costas. O golpe teria perfurado o pulmão direito dele, que precisou passar por cirurgia. De acordo com a Polícia Militar, os envolvidos são moradores do Ipiranga e Jardim Gaúcho, ambos bairros da Zona Sul. Dias antes, os mesmos grupos haviam se envolvido em uma briga no Centro. Na ocasião, um garoto de 17 anos, morador do Jardim Gaúcho, foi esfaqueado, sendo encaminhado ao HPS. Conforme o pai do jovem internado, o bando teria ido ao hospital para matá-lo. Porém, o grupo do adolescente internado teria se dirigido ao local para impedir uma nova agressão.
Gestão terceirizada
Todas as UPAs têm o modelo de gestão baseado na organização social em saúde, em que a Prefeitura regula e acompanha as atividades, mas a gerência é realizada por outra instituição sem fins lucrativos. Apesar da terceirização, os prédios são patrimônio do município. Segundo a Prefeitura, como os contratos preveem que os serviços de segurança são de responsabilidade de cada gestor, a Guarda Municipal realiza rondas no entornos das UPAs, mas só vai aos locais quando acionada e caso haja dano ao patrimônio.
O assessor organizacional do 27º Batalhão de Polícia Militar, capitão Jean Michel do Amaral, a corporação ainda não tinha conhecimento da situação, mas vai voltar suas atenções para a questão. "Quando somos acionados para atender ocorrências relacionada ao enfrentamento entre grupos rivais, muitas vezes, ao chegarmos as brigas já terminaram, e os feridos já foram buscar atendimento por meios próprios. Sabendo desta situação, vamos empenhar a viatura para estas unidades, tanto para localizar o participante da briga, quanto para prestar a segurança a quem está nos espaços."

