
Deslizamento destrói prédio e duas casas em JF
Um grave deslizamento de terra, na manhã desta segunda-feira (9), destruiu três edificações que abrigavam sete moradias no Bairro Jardim de Alá, Zona Sul de Juiz de Fora. Por volta das 8h20, moradores da Rua Jacinto Ignácio de Moraes perceberam rachaduras na calçada, em frente a uma casa de dois andares, e desconfiaram que a encosta pudesse ceder. Quase simultaneamente, os habitantes da Rua Manoel Moreira de Morais, que fica embaixo, escutaram estalos e perceberam que a terra começava a descer. Com o instinto de sobrevivência e a solidariedade de vizinhos, todos conseguiram deixar os imóveis antes das 9h.
Em seguida, o barranco desmoronou, carregando a residência de dois pavimentos, cujos escombros caíram em cima de um pequeno prédio de dois andares e de uma casa, os quais foram totalmente devastados. Um carro que estava na garagem do edifício também foi danificado depois de ser prensado pelos destroços.
Durante a tarde, a Defesa Civil interditou preventivamente outras 12 casas e um estabelecimento comercial, também na Rua Jacinto Ignácio de Moraes. Dois deles, que ficam de frente para o barranco, devem ser liberados após a retirada dos escombros, prevista para hoje. As outras edificações deverão permanecer fechadas até o fim do período chuvoso.
"Eu vi as rachaduras no passeio e falei com a moradora. Depois disso, não demorou nem uma hora para cair tudo. Fez muito barulho, foi desesperador", contou Ailton Pinto Alvim, 54 anos. O cenário residencial logo deu lugar às marcas de destruição na Rua Manoel Moreira de Morais, onde os entulhos fecharam a via de acesso.
Ainda assustada, a comunidade precisou ter força, com o apoio do Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e Defesa Civil, para confirmar a ausência de mortos ou feridos. "Recebemos o chamado de que três residências haviam sido soterradas. Confirmamos a situação envolvendo três construções, sendo duas de dois pavimentos. Nossa preocupação inicial foi averiguar se todos os moradores estavam em segurança.
A Cemig e a Cesama fizeram os cortes de energia elétrica e de água para evitar perigo às residências vizinhas", explicou o comandante do 4º Batalhão de Bombeiros Militar, tenente-coronel Anderson Luiz Esteves Gomes. Em meio aos escombros, o cheiro de gás chamava a atenção, e os militares conseguiram recolher alguns botijões. "Estamos na prevenção com uma viatura de combate a incêndio", disse o subtenente Elcimar Pezarini, que coordenou a equipe de 15 bombeiros.
Também presente no endereço, o subsecretário de Defesa Civil, major José Mendes, lamentou o ocorrido. "Apesar da grande proporção do deslizamento, não houve vítimas, só danos materiais." Embora não tenha classificado a área atingida como de risco, ele não desconsiderou o perigo na região. "Essa encosta é vulnerável. Todo ano tem ocorrência nesse trecho", pontuou.
Um dos casos mais graves aconteceu em janeiro do ano passado a poucos metros do local, onde ainda é possível ver a clareira aberta no talude. Em segundos, uma casa foi destruída pela terra que desceu entre as ruas Jacinto Ignácio de Moraes e Manoel Moreira de Morais. Também por sorte, uma dona de casa, 32, e suas quatro crianças conseguiram escapar. Na ocasião, cerca de 450 metros cúbicos de terra, o equivalente a 75 caminhões, soterraram a residência.
Conforme a Secretaria de Obras, deverá ser retirado da encosta um volume de terra suficiente para encher cerca de 300 caminhões. O chefe do Departamento de Operações Técnicas da Defesa Civil, Adair Elpes, que estava no local na tarde de ontem, disse que será necessário diminuir o volume de chuvas para realizar os trabalhos, o que pode acontecer ainda hoje. "Depois de retirar estes escombros poderemos liberar as duas casas e o bar, que interditamos preventivamente hoje."
Moradores escapam com a roupa do corpo
Apesar de não ter deixado vítimas, a tragédia no Jardim de Alá, mudou radicalmente a vida de cerca de 20 pessoas de seis famílias, já que a maioria conseguiu sair apenas com a roupa do corpo. Com lágrimas nos olhos a maior parte do tempo, a dona de casa Zenisa Gregório, 34 anos, olhava para a montanha de destroços com esperança de encontrar algum pertence. Ela morava junto com o marido e os filhos de 1 e 3 anos em um dos quatro apartamentos do prédio, que tinha uma unidade desocupada. "Estava na cozinha quando escutei um estalo. Cheguei no quarto das crianças e vi um pouco de terra em cima da cama delas, que tinha entrado pela janela (dos fundos). Logo peguei eles e falei: ‘o barranco vai cair’. Chamei os vizinhos e fomos para a rua. De repente, caiu tudo. Foi uma coisa assustadora."
Drama semelhante é vivido pela camareira Heloísa Helena Moura, 47. Ela é proprietária da cobertura do prédio que veio abaixo e dona do Corsa que ficou soterrado. "Este automóvel foi a única herança deixada pelo meu pai, que morreu há oito meses. As prestações ainda estão sendo pagas." A camareira informou que o carro não tinha seguro.
A inquilina Juliana Chiaini, 21, o marido e a filha, 4, ocupavam a terceira moradia habitada do prédio. "Eu já estava apreensiva com a chuva à noite e nem dormi direito. De manhã, o barranco começou a estalar. A vizinha de baixo chamou e saí rápido com minha filha. Só consegui pegar um pouco de roupa e o meu dinheiro."
Na residência ao lado do edifício, morava a estudante Taís da Silva, 18, e mais quatro pessoas da família. "Vi que estava caindo terra atrás da casa. Fomos para a rua e, quando caiu tudo, todo mundo começou a gritar em desespero. Ficou tudo para trás. Se fosse de madrugada, ia ser muito pior. Estou desnorteada."
A casa que despencou da Rua Jacinto Ignácio de Moraes pertencia à acompanhante Margarida de Fátima dos Reis, 58. "Dormi na casa nova da minha filha esta noite. Foi Deus que não deixou eu voltar." A auxiliar administrativa Elaine de Fátima, 32, contou que ainda estava se mudando, e havia muita coisa na casa da mãe. "Não tinha rachadura e nunca ouvimos estalos."
Para o comandante do 4º Batalhão de Bombeiros Militar, tenente-coronel Anderson Esteves, a atitude tomada pelos moradores de deixarem suas casas foi fundamental para evitar uma tragédia maior. "Quem mora perto de encostas precisa estar sempre atento. É importante verificar o surgimento de fendas e observar o caminho feito pela água da chuva."

