
Fernando Valério, que foi atendido no Curumim da Olavo Costa, hoje trabalha no local
Muitos jovens de bairros onde há menos chances para viver na cidade encontram no trabalho e na educação o caminho para um futuro melhor. A série "Até quando", que termina hoje, buscou e identificou histórias de superação. O objetivo é mostrar que, embora as condições sejam adversas, a força de vontade na procura de um futuro digno é a melhor escolha.
A Vila Olavo Costa, na região Sudeste, é mais conhecida pelas ocorrências policiais que pelas histórias de superação. No entanto, foi nesta comunidade que os relatos mais impressionantes foram encontrados. O administrador de empresas Felipe Bonsanto, 26 anos, é hoje gerente de vendas de uma editora universitária em Campinas (SP), onde se formou e vive. Nasceu na Olavo Costa e estudou na escola pública do bairro até a oitava série e lá morou até os 22. Atualmente se impressiona ao afirmar que, dos 36 colegas de classe, somente seis não se envolveram com ilícitos. "O restante, infelizmente, trabalha para o crime, está preso ou morto. Recentemente encontrei um amigo de infância que virou aviãozinho de traficante."
A infância de Felipe, segundo ele, foi como de qualquer outro garoto do bairro. Brincava na rua e tinha muitos amigos. "A diferença era percebida ainda na sala de aula. Um exemplo clássico são as reuniões entre pais e mestres. Minha mãe nunca deixou de ir. Já os pais desses amigos que escolheram o lado errado jamais compareceram. As famílias deles eram desestabilizadas. Acho que a criação conta muito. O fator financeiro é o que menos importa neste caso."
A socióloga Anete Negreiros, mestre em serviço social e pesquisadora na área de juventude, trabalho e educação, ressalta que a maioria dos jovens não está no mundo do crime, "apesar de serem estes que aparecem na mídia. Grande parte trabalha e estuda. Minha linha de pesquisa tenta exatamente destacar jovens que superam condição de pobreza em busca de uma estratégia de vida voltada ao trabalho e à educação."
Retribuição
O estudante de pedagogia Fernando Valério, 22, trabalha atualmente no Curumim da Olavo Costa, local que frequentou como aluno dos 7 aos 14 anos. "Minha infância foi toda no Curumim. Infelizmente, muitos dos amigos que estão presos ou mortos participaram do mesmo projeto social. Eles tiveram a mesma chance, mas apenas alguns a abraçaram." Conforme Fernando, o problema é que as oportunidades surgem a longo prazo, enquanto as necessidades destes jovens são imediatas. "Não souberam esperar e foram para o mundo do crime." O rapaz afirma que a opção em trabalhar no projeto que lhe deu oportunidades na infância e adolescência é uma forma de retribuir e mostrar, aos seus educadores, que o programa funciona. "Mostro que a semente pode gerar uma árvore que dá frutos. Agradeço o que fizeram por mim."
Jovens valorizam o apoio familiar
No Jóquei Clube, Zona Norte, palco da violência que resultou na morte de dois ex-alunos da Escola Estadual Teodoro Coelho, vive a estudante de enfermagem da UFJF Érica Andrade, que também estudou no colégio do bairro. Assim como Felipe, ela credita à família o seu diferencial. "Meus pais sempre foram muito presentes, inclusive na escola. Ao longo dos anos, vi muitos colegas escolhendo o lado errado. Grande parte parou de estudar ainda na oitava série. O acesso às drogas é facilitado, e eles acabam atraídos a ganhar dinheiro rápido." Érica diz que não vê o Jóquei como uma comunidade carente, mas sim com pontos de violência. "São muitas as bocas de fumo." Ela ainda ressalta que, desde criança, evitou a rua e ficava mais dentro da própria casa. "Saía mais para ir à escola. Na minha época, já existiam atividades extraclasse, como aulas de dança. Sempre participei."
Monte Castelo
Welton Henriques da Silva, 29 anos, morador do Monte Castelo, região Norte, trabalha hoje em uma empresa de embalagens. Com o ensino médio completo, ainda não teve a chance de ingressar em um curso superior, mas planeja isto para breve. Porém, afirma que sua vida sempre foi direcionada ao trabalho e ao estudo. "Frequentei a escola pública do bairro e fiz capoeira dos 9 aos 26 anos. Acho que a participação na luta me tirou do crime. Todos os amigos que estavam na capoeira não estão nesse meio. Mais que disciplina, tive uma ocupação."
Conforme o jovem, outro diferencial está na participação da família. "Meus pais sempre me acompanharam. Acho que isso favoreceu e muito." Welton afirma que, no Monte Castelo, faltam programas sociais para crianças e jovens, além de equipamentos públicos de qualidade.

