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Rivalidade de jovens ameaça projeto social

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A ausência de limites e de noções de civilidade de adolescentes e jovens envolvidos com as brigas de gangue afeta até mesmo os poucos projetos sociais, de cunho preventivo, que vêm sendo desenvolvidos na tentativa de minimizar o ódio entre moradores de bairros vizinhos. Por conta das desavenças entre os garotos da Zona Norte, o professor de artes marciais Davidson Sorrentino idealizou o projeto Campeões do futuro, com objetivo de trabalhar com crianças e adolescentes, mas viu o plano ameaçado pela rivalidade de grupos. Nesta reportagem da série Sem limites, a violência aparece como barreira para o avanço de práticas positivas. Entre a população, a cobrança é por mais investimentos e iniciativas do Poder Público para tentar conter os conflitos.

Tentei abrir a academia no Barbosa Lage, mas garotos do Jóquei II foram até lá afrontar meus alunos. Naquele mesmo mês, decidi mudar. A ideia era atender os meninos de toda a Zona Norte, mas não dá. Voltei para o Jóquei I e atendo somente os daqui. O restante fica com receio de vir, relata o professor, que, mesmo convivendo de perto com a realidade dos conflitos, não consegue entender o que vem acontecendo e reconhece que, se nada for feito, mais mortes acontecerão.

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Quando perguntamos para eles qual a motivação, eles mesmos não sabem direito. Falam só que, se não fizerem nada, são eles que vão morrer. Quem sofre com esse ódio é a comunidade. Os moradores correm risco de serem atingidos por balas perdidas ou até de serem confundidos. É uma praga que está matando igual ao crack. Não tem o programa da dengue? Com ação conjunta, conseguiram reduzir os casos na cidade. Por que não fazer algo maior para frear essas mortes?, questiona. Estou tentando, mas sei que ainda é um passo pequeno. E não adianta mudar os meninos de 15, 16 anos. É preciso trabalhar com crianças de 6 a 13 anos, unindo-as por meio do esporte, para que esqueçam as rixas. Esse é o primeiro passo para tentar minimizar esse ódio daqui a três, quatro anos, conclui Davidson.

Falhas evidentes

Para o coordenador do Núcleo de Estudos sobre Violência e Políticas de Controle Social da UFJF, André Moysés Gaio, a violência extremada evidencia as falhas provenientes da ausência de políticas de prevenção. Para o estudioso, é preciso que os recursos cheguem aos municípios, mas, sobretudo, que os mesmos apresentem projetos. Hoje quase todo o recurso com a (in)segurança pública se concentra em torno da capital. O que é uma lástima. A política de segurança deve ser feita nos municípios.

Em relação aos projetos sociais, Gaio é ainda mais específico. Estou convicto de que tais políticas devem ser desenvolvidas nas escolas, com equipes de mediação de conflitos, preparadas e com representante de alunos e mediadores experientes. As escolas devem obrigatoriamente criar grêmios para promover debates sobre as falhas nelas próprias, nos bairros em que se encontram, promoverem lazer e cultura. Onde existe grêmio estudantil atuante não há violência. Cheguei a enviar um pré-projeto para a Vara da Infância, no ano passado, não obtive retorno.

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‘Ainda podemos ter paz’,defende magistrada

Na contramão da onda de violência, uma declaração da juíza da Vara da Infância e Juventude, Maria Cecília Gollner Stephan, representa um fio de esperança para dar um fim aos desentendimentos entre gangues de bairros rivais e consequentemente às mortes: Ainda podemos ter paz, defende.

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Com exclusividade à Tribuna, a magistrada anunciou a implantação de um projeto de mediação entre adolescentes, na Escola Municipal Gabriel Gonçalves, no Ipiranga, Zona Sul. É um projeto-piloto, com a intenção de apaziguamento entre os envolvidos. Em alguns casos, eles estudam na mesma escola. A intenção é iniciar um trabalho com esses meninos para que não levem esses conflitos adiante. Pela nossa experiência, percebemos que é preciso contar com o ambiente escolar. Pois é a família, em alguns casos, que também incentiva. É comum ouvir de algumas mães: ‘Não traz desaforo para casa’, relatou a magistrada.

Mediação de conflitos

O projeto Além da culpa, pioneiro em Minas, integra o conceito de Justiça restaurativa e foi proposto pela Defensoria Pública em parceria com a Vara da Infância e Juventude, Ministério Público e Prefeitura, por meio da Secretaria de Educação. De acordo com uma das coordenadoras, a defensora pública Margarida Maria Barreto Almeida, a proposta é resolver as desavenças por meio dos métodos restaurativos. Todo um corpo está passando por capacitação, desde nós, defensores, até psicólogos, professores, assistentes sociais e policiais militares. Iremos reunir agressor e ofendido, família e comunidade em um único espaço, e o facilitador, devidamente capacitado, tentará ajudar na restauração dos laços que foram rompidos. Na Justiça comum, a vítima é deixada de lado, não é ouvida. Agora, terá a oportunidade de expor sua dor, e o agressor também. É uma espécie de arena para que as emoções sejam trabalhadas. O objetivo não é encontrar o culpado, vai além da culpa, por isso o nome do projeto. A intenção é buscar a responsabilização, mas sem culpa, destaca Margarida, que conclui: O que estamos buscando são caminhos que sinalizem mudança, já que a Justiça punitiva não está atendendo aos anseios da população. Sabemos que vamos encontrar resistência, principalmente por serem adolescentes, mas essa é só a primeira semente.

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A previsão é de que o projeto comece a funcionar a partir de 20 de setembro, quando está prevista a entrega do relatório final. Nesse primeiro momento, conforme a defensora, o projeto será intraescolar, mas, a médio prazo, será criada uma central extrajudicial para atender toda a demanda.

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