À medida em que as temperaturas caem em Juiz de Fora, o frio se torna um problema para quem não tem condições de comprar casacos ou cobertores para se proteger, principalmente para pessoas em situação de rua. A partir dessa situação, o empresário Marcelio Guilherme resolveu ajudar, por meio de uma iniciativa simples: doações. Ele estendeu um varal solidário na Avenida Deusdedit Salgado, na altura do número 1295, no Bairro Teixeiras, na Zona Sul, com os dizeres “Quem tem, põe; quem não tem, tira”. Assim, ele traçou uma colaboração voluntária entre a comunidade e pessoas em situação de vulnerabilidade. A ação começou na última quarta-feira (5) e viralizou na internet, alcançando proporções que nem mesmo o idealizador esperava quando iniciou a corrente de doações.
A ideia surgiu após o empresário sentir na pele o frio trazido pela madrugada mais fria dos últimos dez meses em Juiz de Fora, registrada de terça para quarta-feira. Por volta de 1h, fazia 6 graus, mas a sensação térmica era de 1 grau negativo na cidade, por conta do vento. O fato despertou a empatia de Guilherme e aumentou o interesse dele em ajudar pessoas expostas às baixas temperaturas. “Eu vi notícias de que mais frio está por vir e pensei em como poderia ajudar alguém mesmo tendo que trabalhar. Aí eu peguei umas roupas minhas e passei a ideia do varal para a minha mãe, que é uma atitude que eu já tinha visto na internet”, lembra. Foi o ponto inicial para que a ideia fosse colocada em prática na Avenida Deusdedit Salgado, uma das mais movimentadas da cidade, onde está localizado o seu empreendimento, o restaurante Botecário.
A primeira colaboração para o ciclo de solidariedade partiu do próprio idealizador, que disponibilizou artigos próprios no varal recém-colocado na via pública. Logo chegou o primeiro beneficiado pela iniciativa. “Em coisa de segundos, passou um rapaz descalço e com camiseta regata, que passou olhando e parecia não entender direito. Então ele perguntou o que era, e eu expliquei que ele poderia escolher uma daquelas peças. O cara só faltou chorar”, conta Marcelio.
Em pouco mais de 24 horas, cerca de 50 peças já tinham sido colocadas no varal. O empresário também começou a receber diversas mensagens e ligações de pessoas interessadas em colaborar com doações. O post em um grupo de Facebook, partindo de uma pessoa que se surpreendeu com a iniciativa, acabou viralizando, aumentando a colaboração. Marcelio conta que recebeu pedidos para buscar doações em outros pontos da cidade, ação impossibilitada pelas limitações de horários do empresário, que tem seu dia dedicado a uma jornada tripla de trabalho. No entanto, os interessados em doar podem fazer a entrega pessoalmente no restaurante, na Avenida Deusdedit Salgado.
Livre colaboração
A ação toca em uma situação delicada no Brasil, onde dados de 2016 apontavam para cerca de cem mil pessoas em situação de rua. O último levantamento realizado em Juiz de Fora, em 2015, apontava para 879 pessoas em situação de rua na cidade, mas o número pode ser muito maior.
Por conta disso, os agasalhos doados no Teixeiras são deixados no varal para quem se sentir necessitado, não necessariamente para pessoas que vivem nas ruas. Segundo o empresário que criou a iniciativa, o varal, inclusive, já gerou situações inusitadas. “Uma moça passou, pegou uma blusa, foi buscar o filho na escola e depois devolveu a blusa. Também há pessoas que tiram um casaco e colocam outro, pessoas que necessitam mesmo. E tem pessoas que têm necessidade, mesmo não morando na rua. Então a gente faz a nossa parte e conta com a consciência de cada um”.
Corrente de boas ações
Contando com o auxílio voluntário de funcionários do restaurante, que se disponibilizaram a ficar até depois do horário de trabalho para receber as doações, o varal solidário vai permanecer disponível no local até enquanto o frio permanecer. “As pessoas me perguntam até quando vai ficar, e eu digo que até quando estiver frio e até quando tiver doação. Eu não tenho motivo para tirar o varal, mas, se por qualquer motivo, o varal tiver que sair dali, a gente vai pensar isso de uma outra forma, mas vamos continuar recebendo arrecadações”, afirma Marcelio.
Além da colaboração de funcionários e da vizinhança, a oportunidade de estar fazendo a diferença na vida de diversas pessoas também serve de combustível para seguir com a iniciativa, mesmo com a disponibilidade de tempo reduzida. A motivação, agora, é que o varal sirva de inspiração para uma corrente de boas ações. “Eu espero que esse prazer se transforme em motivação para outras pessoas fazerem. Se em cada bairro e em cada estabelecimento tiver um varalzinho desses, muito menos gente vai sentir frio”, sugere o empresário.

