A população com mais de 60 anos de idade – mais de 70 mil pessoas em Juiz de Fora – não tem muito o que comemorar no Dia Municipal do Idoso, celebrado amanhã. A maior vulnerabilidade das pessoas nesta faixa etária tem atraído a atenção de criminosos. Casos nos quais esse público foi vítima de assaltos violentos e até assassinato chocaram a sociedade nas últimas semanas, pela crueldade das ações. Além da própria fragilidade física, o fato de muitos idosos morarem sozinhos ou terem situação econômica estável os tornam mais visados.
Na madrugada da última quinta-feira, uma aposentada de 71 anos foi amarrada e amordaçada enquanto dois homens roubavam uma TV de 50 polegadas e R$ 3 mil do apartamento dela, na Rua Halfeld, Centro. Um dos suspeitos é parente da vítima, que estava sozinha no imóvel. Menos de uma semana antes, uma mulher de 69 anos foi agredida durante um roubo em sua residência, no Manoel Honório, região Leste. Dois homens pularam a janela e tentaram sufocar a vítima com um travesseiro. Após gritos de socorro, os suspeitos fugiram com uma TV. A idosa precisou de atendimento médico no HPS.
O caso mais grave este ano, até agora, foi registrado no dia 18 de abril, quando Ana Esther Scheffer, 79, foi morta por dois jovens, de 18 e 22 anos. Ela foi asfixiada após sua casa ter sido invadida pelos homens, que eram vizinhos da idosa. Eles fugiram levando cerca de R$ 100 e bijuterias, sendo presos depois. A vítima já estava sem vida quando os jovens jogaram um televisor em seu rosto e retiraram os anéis de suas mãos. Revoltados, parentes de Ana fizeram um protesto dez dias após o crime.
A Polícia Militar não divulgou a estatística de criminalidade envolvendo idosos este ano na cidade. Os comandos das polícias Militar e Civil foram procurados para comentar este tipo de violência, mas ninguém se pronunciou até a noite de ontem. Já o número de denúncias de maus-tratos a idosos no Centro de Referência Especializado em Assistência Social (Creas) Idoso/Mulher aumentou 80% entre 2010 e 2012. De janeiro a abril deste ano, 27 queixas foram registradas mensalmente, contra média de 21 no ano passado e 15 no período anterior. Na maioria, os próprios familiares são apontados como suspeitos.
No ano passado, três idosos foram assassinados em Juiz de Fora, sendo duas mulheres mortas por membros da própria família. Um terceiro homem maior de 60 anos foi vítima de latrocínio. Em 2010, foram dois idosos que morreram vítimas de agressão, um tendo como autora a própria esposa.
Golpes
Os idosos também estão entre os alvos preferidos dos estelionatários. Golpes, como o do falso sequestro, ainda são aplicados em Juiz de Fora, e, em alguns casos, as vítimas acabam depositando a quantia pedida pelo falso sequestrador. No dia 7 de abril, um homem de 87 anos, morador do Bairro Nossa Senhora Aparecida, região Leste, negociou o valor de resgate, por telefone, com um homem que alegava ter sequestrado o filho dele. O criminoso exigiu R$ 50 mil pela libertação, mas, ao final da conversa, concordou com valor bem menor: R$ 1 mil. Conforme o boletim de ocorrência registrado pela Polícia Militar, o homem conseguiu localizar o filho e não teria efetuado o depósito.
Álcool e drogas
Conforme a coordenadora do Creas Idoso/Mulher, Maria Cláudia Dutra, a principal reclamação é a negligência e a violência psicológica, seguidas de abuso financeiro e econômico. Na sequência, aparecem os casos de agressão física. "Percebemos o aumento no número de denúncias, mas não posso dizer se isso ocorre pelo fato de o serviço ter ficado mais conhecido, se as pessoas estão denunciando mais ou se realmente está havendo mais violência." Outra percepção da coordenadora é que, cada vez mais, a violência contra idosos envolve familiares que fazem uso frequente de álcool e outras drogas.
Despreparopara esta realidade
Para a gerontóloga Zulmira Elisa Vono, que atua como consultora na área de envelhecimento humano, a vulnerabilidade natural do idoso é potencializada pelo crescimento dessa faixa populacional, aliado à busca crescente por mais liberdade e autonomia. "Outro fator importante é o desconhecimento. Culturalmente, somos despreparados para conviver com a pessoa idosa, e o idoso é despreparado para envelhecer e conviver com ele mesmo, pois, muitas vezes, não aceita que tem limites e acaba se colocando em situação de vulnerabilidade."
A especialista critica o termo "melhor idade" para designar a velhice e defende que os familiares deixem os idosos cientes sobre riscos e formas de proteção, como não compartilhar senhas bancárias, evitar lugares e horários mais arriscados ou evitar reagir diante de uma abordagem criminosa. "Estamos em uma fase de transição, saindo daquele idoso sentado na cadeira de balanço e fazendo crochê, e entrando numa fase em que contaram para o idoso que envelhecer é a melhor coisa do mundo."
A gerontóloga defende ainda que sejam capacitados mais profissionais de diferentes áreas de conhecimento para lidar com esse público. "Tudo é muito específico. O enfoque é diferente."
Compromissos
Embora contemplada com diversos benefícios – como meia-entrada em eventos, gratuidade no transporte coletivo e vagas exclusivas para estacionamento -, a população idosa em Juiz de Fora ainda carece de maior proteção do Poder Público. Prova disso é o desafio de implementar uma série de ações propostas na carta compromisso (ver quadro) criada pela Comissão Especial do Idoso da Câmara Municipal.
Uma das mais de 30 propostas é a criação do "Selo do idoso", destinado a empresas de destaque pela responsabilidade e atendimento prioritário e de qualidade a pessoas com mais de 60 anos. O lançamento do selo acontece amanhã, em solenidade na Câmara Municipal. Também será lançado um catálogo com informações sobre leis relativas aos direitos dos idosos. A Comissão Especial do Idoso da Câmara pretende, ainda, posteriormente, realizar blitze, para verificar se a legislação está sendo cumprida em diversos segmentos sociais. O vereador Isauro Calais (PMN), presidente da comissão, também cobra a implantação de uma delegacia especializada em Juiz de Fora. "Seria um local referência, com um delegado. Com isso, vamos inibir as ações de violência contra os idosos. Muitas vezes, a violência acontece dentro de casa, e vizinhos e familiares não denunciam."
Já a UFJF será responsável por elaborar um estudo para traçar o diagnóstico do idoso na cidade. O objetivo é subsidiar ações públicas voltadas para essa faixa etária.
