Foram 65 vítimas fatais deixadas pelas fortes chuvas e pelos deslizamentos que ocorreram em Juiz de Fora na última semana de fevereiro. Do primeiro corpo encontrado no Bairro Santa Rita, zona Leste ao último localizado no Paineiras, região central, foram várias histórias interrompidas de maneira abrupta, sonhos deixados para trás e famílias devastadas pela tragédia. Entre os mortos, o mais novo tinha apenas 2 anos, enquanto o mais velho, 79. Nenhuma dessas pessoas imaginava que estaria no centro de um dos episódios mais devastadores da história da cidade. Seus nomes estão registrados nesta matéria, assim como uma pequena parte de suas histórias, porque é preciso conhecer essas vidas e lembrar de cada uma. Mas muito do que viveram e de como são lembrados permanece em silêncio, seja pelo luto vivido, seja pela impossibilidade de narrar a ausência que deixarão.
A primeira vítima encontrada foi Willian Cordeiro da Silveira, de 68 anos, que estava em casa com a filha e a mulher. O imóvel foi soterrado com os três dentro, depois da queda de um barranco na Rua Geraldo Paleta. As últimas lembranças que ficaram para Gislene, que foi resgatada com vida por vizinhos, foram do pai fazendo questão de que ela e a mãe fossem retiradas do local antes dele — e ainda tentando ajudar, na medida que era possível. “Foi uma forma muito brusca que ele morreu, ninguém esperava. Quando tem uma pessoa doente, a gente espera que Deus leve, para dar um descanso. Mas ele gostava de viver”, diz. O trauma de ter presenciado os últimos momentos do pai e de ter enfrentado essa situação tão difícil, com a mãe ainda no hospital, foram indescritíveis. Ela diz que o pai era seu grande exemplo de vida e melhor amigo. “Todo mundo amava ele. Sempre foi uma pessoa muito boa e que ajudava todo mundo”, conta, acrescentando que Willian era funcionário da Cesama e deixou três filhas e quatro netos. Quase todo fim de semana eles se reuniam nesse mesmo imóvel que foi destruído para aproveitarem a companhia um do outro e tomarem uma cervejinha juntos.
Já no Bairro Bom Jardim, foram dias de tormento até que a família pudesse se despedir de Cristiano José da Costa, de 48 anos. Ele era pedreiro e morava com a filha, Tayane, de 20 anos, e com a esposa. “É muito difícil para a família perder uma pessoa tão trabalhadora, sem vício nenhum, dedicado e um pai exemplar”, conta Bianca Silva, prima do homem e moradora do Linhares, também na zona Leste. Com o deslizamento e os escombros em cima da casa em que moravam, a filha foi encontrada no terceiro dia de buscas — mas Cristiano só foi encontrado no sexto dia. Já a esposa se tornou a única sobrevivente da casa e foi encaminhada para o hospital depois de ter sido jogada para fora do imóvel pela força da lama. De acordo com a familiar, ela teve diversos machucados pelo corpo e passou por uma cirurgia. Enquanto isso, foram dias de tormento até que localizassem o primo Cristiano e a família, enfim, pudesse se despedir da perda tão precoce. O que fica, para ela, é a memória de uma pessoa “muito proativa e simples”.
Três gerações levadas pela tragédia gerada pela chuva
Mãe, irmã e os dois sobrinhos de Juliana Vicente, 42 anos, foram soterrados por um deslizamento de terra que atingiu, na noite de segunda-feira (23), a casa onde a família morava, no alto do escadão da Rua do Carmelo, no Bairro Paineiras. Somente após seis dias de buscas todos foram encontrados, e ela pôde, finalmente, sepultar todos os seus mortos. Na casa também estava o namorado da irmã, David Pedro de Souza, que também morreu.
O celular da mãe, Neide Aparecida Teodoro Vicente, 58, foi recuperado em meio à lama e entregue a Juliana. No aparelho, ela viu as fotos que a irmã, Jaqueline de Fátima Teodoro Vicente, 33, havia registrado dos filhos na véspera da tragédia: nas imagens, as crianças tomavam picolé e sorriam após terem ido cortar o cabelo. Piettro Cesar Teodoro Freitas, 9, aparece com o rosto lambuzado de picolé de uva, enquanto Sophia Teodoro Reis de Oliveira, 6, sorri com os lábios e com os olhinhos ao segurar um picolé de chocolate. Foi a última foto das crianças.
Mãe solo, Neide foi descrita pela filha como divertida, alegre, debochada, bondosa e empática. Por 26 anos ela atuou como auxiliar de serviços gerais no Hospital Monte Sinai e, enquanto trabalhava, criou Juliana e Jaqueline sempre batalhando muito. Nos momentos de maior aperto, coube à irmã mais velha ajudar na criação da mais nova. “Ela ia trabalhar e ficava para mim a responsabilidade de levar a minha irmã ao colégio e fazer comida”, conta ao lembrar da proximidade que, em meio aos desafios, foi se fortalecendo entre as duas. Depois que cresceu, Jaqueline seguiu o exemplo da mãe: trabalhava e se desdobrava para criar e sustentar os dois filhos — que se tornaram o “xodó” da avó.
Jaqueline tinha os cabelos tingidos de loiro, amava maquiagem e gostava de caprichar dos cílios às unhas. Além de mãe dedicada e apaixonada pelos filhos, era amiga de muitos. Trabalhava na casa de shows Privilege, era técnica de enfermagem e pretendia cursar faculdade no futuro. Cheia de vida e intensa, a irmã conta que ela estava em busca de realizar seus sonhos.
Ela era mãe de Piettro, o menino dono do abraço mais apertado que a tia — e madrinha — já sentiu. A criança, diagnosticada com transtorno do espectro autista (TEA), era extremamente carinhosa, inteligente e temente a Deus. O corpo de Piettro foi o último a ser encontrado, dentre as 65 vítimas fatais dos deslizamentos em Juiz de Fora. A companhia inseparável do menino, inclusive na hora de brincar e fazer bagunça, era Sophia, sua irmã. A menina, de olhar doce, foi descrita pela tia como comunicativa, “marmoteira” e cheia de vida. Ela adorava se arrumar, desde passar batom a pintar as unhas.
Lembrar do jeito dos sobrinhos torna inconcebível lidar, agora, com a ausência deles. “Não consigo nem imaginar essas crianças não estarem aqui. Eu não consigo entender por que aconteceu isso com todos e com as crianças”, desabafa Juliana. Ao todo, 15 menores de 18 anos estão entre as vítimas fatais dos deslizamentos da cidade.
A única sobrevivente da família, Juliana mora em outro bairro, na região Nordeste da cidade, junto ao marido. Ela conta que colocou uma foto dos sobrinhos em um porta-retrato na estante e que, agora, todos os dias, ao acordar, olha para o rosto das crianças.
Lembranças daquela noite
Ela lembra que, quando a chuva começou, naquela noite, viu por meio de notícias os estragos da chuva pela cidade. Foi quando soube do barranco deslizando no Paineiras. “Eu mandei mensagem para minha mãe na mesma hora, isso era por volta de 23h50, e perguntei se estava tudo bem por lá.”
Juliana lembra, em detalhes, como foi essa conversa. Eu falei: “Mãe, está tudo bem por aí? Eu vi que caiu um barranco aí, eu estou preocupada com vocês”, disse. Neide então respondeu por áudio. “Minha filha, Deus te abençoe, está tudo bem, sim, eu estou bem, as crianças estão bem, pode ficar tranquila, pode ficar despreocupada, eu vi, mas não foi aqui não. Foi longe de mim.” Neide acrescentou que, naquela noite, estava acompanhando a situação pela cidade e citou os impactos no Bairro Manoel Honório. Em seguida, finalizou o áudio.
Naquela noite, o bairro teve muitos deslizamentos: o primeiro foi na Rua Engenheiro Murilo Miranda de Andrade. Ainda não era possível imaginar o que aconteceria em seguida, mas Juliana insistiu em mandar outra mensagem para a mãe. “Eu disse: ‘mãe, eu tô muito preocupada com vocês aí, a chuva tá fazendo muito estrago, aqui embaixo tá tudo alagado, a ponte transbordou. Nisso, ela já não me respondeu mais. As mensagens que eu enviei já não tinham mais um sinal de recebimento”, relembra a filha, que acha que foi naquele momento que aconteceu o deslizamento na Rua do Carmelo.
Era madrugada quando ela recebeu a mensagem da inquilina da mãe dela, que morava na casa de baixo. A mulher, também em choque, pediu para que ela fosse lá e contou que a casa da família havia desabado. A primeira reação da filha foi perguntar sobre a mãe. Quando soube que ela estava dentro da residência veio o desespero. O marido de Juliana foi para lá e pediu que ela aguardasse em casa. “Eu não sabia do total. Do estrago que tinha feito, da situação que era.”
Ela compartilha também como foi quando chegou ao local. “Eu fui para lá e, na hora que vi o estrago, fiquei descrente. Ao mesmo tempo, ainda havia esperança”, conta. Juliana lida agora com a perda da família. Assim como os familiares das demais vítimas, ela vive agora com um luto inominável.
Confira nome das 65 vítimas das chuvas:
- Willian Cordeiro da Silveira
- João Batista dos Santos
- Arminda de Fatima Soares Campos
- Ramon Rafael Araujo de Almeida
- Bruno Bonifacio Gomes
- Rosimere do Carmo De Oliveira Souza
- Neuza Mageste de Paula Santos
- Arthur Rafael Oliveira Machado
- Miguel Carlos Souza Machado
- Carla Da Silva Texeira
- Bernardo Lopes Dutra
- Janaina Oliveira do Amaral
- Marcos Jose dos Santos Almeida Junio
- Maite Cecilia Pereira Fernandes
- Elisabete Rosa de Oliveira Reis
- Kaleb Marques Reis Dos Santos
- Thayane Guedes da Costa
- Neide Aparecida Teodoro Vicente
- Melissa Emanuelly Gomes Garcia
- Deogracia Aurelia Fernandes
- Mario Francisco Neto
- Wallace da Silva
- Jhoyce Rayara Garcia
- Jorgiane Gomes Da Veiga
- Jaqueline de Fatima Teodoro Vicente
- Reinaldo Neiva Ferreira
- Monique Samantha Garcia dos Reis Oliveira
- Maria Concebida Ferreira da Silva
- Eva Dominga Segala
- Iara Martins de Paula
- Ivana Martins de Paula
- Flavia Beatriz Correia Alvarenga de Alme
- Mateo Alvarenga de Menezes
- Diego Fernandes de Menezes
- Liana Martins de Paula
- Wilma Fernandes de Menezes
- Eliane Rosa de Freitas
- Manoel Cardoso de Freitas
- Jose Geraldo dos Santos
- Maria Aparecida da Silva
- Poliana Cristian Lourentina
- Gabriel Arcanjo Soares Gerheim
- Ester De Castro Soares Gerheim
- Patricia De Castro Soares Gerheim
- Fabiana Cristina Gomes Marcato
- Francisco Candido da Silva
- David Pedro de Souza
- Jhonas Myckael Garcia Reis de Oliveira
- Josiene Garcia de Souza
- Luiz Gustavo Garcia de Souza
- Francisco Santos Pereira
- Guilherme do Nascimento Domingos
- Jorge Garcia
- Fabiana Garcia Damaceno
- Lukas Gabriel Garcia Mendes
- Rosana Garcia Silva
- Juan Fernades de Menezes
- Januaria Garcia
- Antonio Carlos da Silva
- Sophia Teodoro Reis de Oliveira
- Jose Carlos Honorio da Silva
- Thiago De Lima Bastos Campos
- Sophia Emanuelly Garcia de Miranda
- Cristiano Jose da Costa
- Piettro Cesar Teodoro Freitas

