A intensa proliferação das queimadas nos últimos meses levou à perda de pelo menos 50 hectares de Mata Atlântica em Juiz de Fora, o equivalente a 50 campos de futebol. A destruição atingiu áreas consideradas de extrema importância para o município, incluindo Parque da Lajinha, Reserva do Poço D’Anta e Morro do Cristo. O total exato de área queimada, entretanto, pode ser bem maior, mas não há registros oficiais que apontem o quanto de fauna e flora foi afetado. Para se ter uma ideia da gravidade, segundo o Corpo de Bombeiros, do início do ano até a última terça-feira, foram 983 ocorrências de incêndio na cidade. O número representa mais que o dobro do registrado em todo o ano passado, quando foram contabilizadas 426 ocorrências.
E a chegada do período chuvoso leva a uma contradição: enquanto especialistas alertam que a mata destruída só irá se recuperar com as precipitações, a falta de vegetação pode transformar a chuva em uma grande vilã. É exatamente a escassez de área verde no período que preocupa. O chefe do Departamento de Recursos Naturais da Secretaria de Meio Ambiente, Wesley Cardoso, explica que a ocorrência de enchentes e de deslizamentos pode ser maior este ano. “A vegetação absorve a água das chuvas de forma lenta e auxilia na recarga dos lençóis freáticos. Quando se perde essa área verde, a chuva provoca grandes voçorocas, aberturas que aparecem em morros pela falta da área de recarga. Além disso, há um carregamento de materiais sólidos para o curso d’água, que causa assoreamento dos leitos.”
Tais contribuições negativas culminam, segundo ele, na maior possibilidade de alagamentos, escorregamentos de taludes, entupimentos de bueiros, entre outros problemas típicos do período. “Essas áreas verdes exercem papel ecológico indispensável, principalmente em topos de morro. Quando a água cai no solo e não encontra a cobertura vegetal, ela pega maior velocidade e sai carregando o que vê pela frente. Com as queimadas, ocorreu toda uma alteração deste ciclo natural do meio ambiente.”
O espaço de Mata Atlântica perdido exercia papel ecológico relevante para a cidade. “Com certeza, esse número é muito mais alarmante porque só diagnosticamos áreas de conhecimento ou gestão da secretaria. Conheço um fazendeiro que perdeu 240 hectares em suas terras”, comenta Wesley.
Fogo acima da média
Conforme o capitão do Corpo de Bombeiros, Fransérgio Gomes Delgado, o número de queimadas caiu cerca de 20% nos últimos dias. “O pouco de chuva já colaborou para amenizar a umidade relativa do ar e diminuir os incêndios. A cobertura vegetal começou a reagir, mas ainda notamos uma disposição da população em queimar resíduos. Apesar do número de chamados ter diminuído, eles estão acima da média. Existe muita vegetação seca que não foi queimada, e as pessoas precisam se conscientizar sobre o perigo dos incêndios criminosos, para preservar estas áreas.”
Recuperação será lenta e dependerá de chuvas
A recuperação de toda a área devastada depende agora da quantidade de chuva e dos processos de replantios, realizados manualmente. O professor do Departamento de Botânica da UFJF, Paulo Henrique Peixoto, explica que, após a ocorrência de incêndio, a tendência é a perda da mata nativa, já que o que brota no lugar é capim, além das plantas invasoras. “Dependendo do grau das queimadas, pode não haver recuperação, e o local se tornar estéril.” A preocupação, segundo o professor, especialista em fisiologia vegetal, não está somente na chegada do período chuvoso, mas sim no tempo de permanência das precipitações. “Um período intenso de chuvas pode não ser o suficiente para a recuperação da vegetação, caso haja um intervalo de estiagem de dez a 15 dias. Precisamos de chuvas contínuas.”
Já o chefe do Departamento de Recursos Naturais da Secretaria de Meio Ambiente, Wesley Cardoso, explica que, por mais tímida que seja, a chuva auxilia em um início do processo de recuperação de alguns vegetais que resistiram às queimadas, ainda que de forma parcial. Segundo ele, ainda não é possível diagnosticar uma melhora significativa, já que não choveu o suficiente. “Diminuiu aquele aspecto cinza causado pelas queimadas. Qualquer chuva auxilia na regeneração da vegetação rasteira, mas as árvores nativas só vão ser recuperadas mediante a criação de novos corredores ecológicos.”
Parques devastados
O Parque da Lajinha, um dos mais importantes espaços verdes da cidade, perdeu mais de 30 hectares de mata, e as chamas consumiram mais de dez mil mudas da zona de recuperação do espaço. “Todo o trabalho que vinha sendo realizado no último ano e meio foi perdido, as árvores já estavam com um metro de altura. A recuperação será difícil e longa agora.” Atualmente, técnicos estão abrindo os espaços que receberão as futuras mudas. “Estamos aguardando a chuva para umedecer a terra para o replantio.”
Já no Morro do Cristo, por ser uma área de preservação permanente, a recuperação é mais natural. “Existe um interesse da Secretaria de Meio Ambiente em auxiliar no plantio e reflorestamento, para aumentar a velocidade de regeneração no local.”
