
Principal corredor de acesso entre a Zona Norte e a área central de Juiz de Fora, a Rua Henrique Burnier já não comporta mais o fluxo diário de veículos, principalmente às sextas-feiras e em horários de pico. O resultado são retenções na via, que recebe o tráfego advindo dos 86 bairros da região Norte, área com mais de 130 mil habitantes. Em caso de acidentes, a situação se agrava. Somente entre 17h e 20h, 4.567 automóveis passam pela via, segundo contagem volumétrica da Settra feita em 2010. No entanto, paralela à Henrique Burnier existe um caminho de pista dupla, em linha reta, asfaltado e bem iluminado, que seria perfeito para desafogar o trânsito se não estivesse praticamente inoperante: a Rua Coronel Vidal. A mesma contagem da Settra mostrou que o fluxo nesta última via, no horário de pico, é de pouco mais de cem veículos. A subutilização deste traçado, no trecho entre o Terminal Rodoviário Miguel Mansur, no Bairro São Dimas, e a Rua Tereza Cristina, no Mariano Procópio, traz prejuízos visíveis para o entorno. O segmento hoje serve apenas aos comerciantes locais como estacionamento, sendo usado, ainda, para rachas durante as madrugadas.
Se a situação atual já deixa motoristas, moradores e trabalhadores da região reféns, o quadro pode piorar com a previsão da chegada de dois grandes empreendimentos na região, o Hospital Regional, localizado na via, e o Shopping Jardim Norte, previsto para ser concluído no segundo semestre de 2015. "São duas realidades muito opostas. Enquanto aqui na Rua Henrique Burnier o trânsito vive agarrado, a outra fica às moscas. Com o fluxo do jeito que está, já passou da hora de a Prefeitura pensar em usá-la como alternativa para desafogar a região, melhoraria muito", enfatiza o motorista de ônibus urbano Luiz Fernando Santos, 45 anos. "A via reta e vazia de noite atrai jovens disputando pega. Só ouvimos os barulhos", conta um morador da área. "É uma situação horrível, estressante. Quando olho na janela e vejo tudo parado, não dá vontade nem de ir embora para casa. Na sexta-feira, ainda é pior, às vezes, demoro quase 20 minutos para conseguir chegar na Tereza Cristina", comenta a assistente administrativa Sarita Vaz de Mello, 36, que trabalha em uma empresa na via.
Com mudanças recentes na circulação da região, não só quem deixa a Zona Norte, mas aqueles que saem da Ponte Domingos Alves Pereira, localizada na Rua José Eutrópio, no Santa Terezinha, com destino aos bairros Mariano Procópio, Democrata e Borboleta, por exemplo, também precisam acessar a Henrique Burnier. O resultado é um imenso gargalo formado pelo excesso de carros. Sem ter outra opção, o condutor é obrigado a enfrentar o nó. Mas diante da situação, muitos que seguem sentido região Norte-Centro optam por usar a Coronel Vidal, mas como o trecho entre as ruas Geralda Mendes Barros e Tereza Cristina é contramão, acabam retornando ao funil da Henrique Burnier.
"A Coronel Vidal é plana, em linha reta, e prefiro passar por ela. Mas temos que retornar para Henrique Burnier por causa de menos de cem metros de via, onde é contramão. Moro na Zona Norte e faço faculdade na Universo, à noite, e, se este trecho fosse liberado, não usaria a Henrique Burnier nunca mais", relata a funcionária pública Aparecida Garcia, 45.
No dia em que a Tribuna esteve no local, flagrou cenas de desrespeito à sinalização. "O que mais acontece é isso. No fim do dia, então, é um carro atrás do outro invadindo a contramão neste trecho da Coronel Vidal. Teriam que repensar o trânsito aqui", declara o mecânico Almir Ribeiro Rocha, 53. Empresário da região, José Luiz Piorra, 55, também confirma. "O que está faltando aqui é planejamento. A via já está pronta, teria apenas que ter implantação de semáforos para disciplinar o trânsito, mas aliviaria, com certeza, o fluxo da Henrique Burnier. Hoje, do jeito que está, incentiva os motoristas a cometerem infrações."
O segmento da Coronel Vida próximo à Tereza Cristina já foi cenário de inúmeros acidentes, até mesmo fatais. Há cinco anos, a comunidade do entorno chegou a realizar manifestações e parar o trânsito após a morte de um balconista de 24 anos, que estava de moto e acabou atingido por um carro. Na época, a população registrou as infrações no ponto. Em uma hora de filmagens, foram 80 infrações.
Binário
A sugestão de que convive com o saturamento da Henrique Burnier é tornar a Coronel Vidal outro corredor de fluxo, formando um binário com mesmo sentido. "Poderia haver placas na interseção da Coronel Vidal com Henrique Burnier. Quem estivesse trafegando com destino à região Nordeste ou Leste seguiria pela Henrique Burnier para acessar a Avenida Brasil. Já quem desejasse seguir para o Centro, Morro da Glória e Democrata usaria a Coronel Vidal. Seria excelente para o trânsito, o ruim seria apenas para nós, trabalhadores da região. Como a Coronel Vidal não é utilizada, acostumamos a estacionar os carros aqui", conta o supervisor André Massari, 32.
O prolongamento e a implantação da Rua Coronel Vidal estavam previstos no projeto da BR-440, rodovia que ligaria a BR-267 à BR-040, mas também nunca saiu do papel. A via foi aberta, asfaltada e ganhou nova iluminação, mas, segundo a Settra, não há previsão para as intervenções. De acordo com a assessoria de comunicação da pasta, o projeto para a região existe, mas ainda está sendo formatado.
Apesar de remodelação da área, pedestre não é contemplado
Na região do Mariano Procópio, outra falha fica evidente. A recente remodelação do trânsito próximo à Ponte Domingos Alves Pereira não privilegia a segurança do pedestre. O canteiro erguido na interseção da Brasil, Henrique Burnier e Tereza Cristina não conta com passagem para os pedestres, que são obrigados a se arriscar entre os carros.
"Não deixaram espaço para passarmos. É falta de sensibilidade para com o pedestre. À noite, o pessoal costuma vir para o forró e é obrigado a andar pela rua. O risco de atropelamento é grande", conta o pedreiro João Batista Rodrigues, 50.
"Essa mudança não resolveu nada, até piorou o trânsito na região", afirma o empresário Marcos Ribeiro, 55. "Fecharam totalmente a ilha e quem vem da Brasil para a Tereza Cristina não tem onde atravessar. Temos que contornar o canteiro e contar com a ajuda e boa vontade dos motoristas para atravessar. Esqueceram a faixa de pedestres e um semáforo", cobra o morador Anselmo Luiz Damasceno, 53.
De acordo com a Settra, as intervenções na região ainda estão em andamento. Conforme a assessoria, estão previstos três rebaixamentos no entorno do canteiro e três faixas de travessia de pedestres.

