
Ariane, entre o tio e a mãe: horas de espera no Parque Halfeld
Cenas de embarque ainda são flagradas no Parque Halfeld (Fotos Fernando Priamo/23-07-15)
Um microônibus parado em fila dupla diversas vezes ao dia, na Rua Santo Antônio, no Centro, cujo condutor não consegue vaga para estacionar. A cena, que se tornou comum, desagrada motoristas e moradores, por causa do tumulto no trânsito. Se para alguns é sinônimo de congestionamento, para quem está no microônibus é mais uma etapa da busca por atendimento médico. A situação é decorrência da falta de um ponto específico para embarque e desembarque de cerca de mil pacientes de outros municípios atendidos diariamente nas unidades de saúde de Juiz de Fora, conforme dados da Secretaria de Saúde.
Para conseguir parar, os motoristas desses veículos, na maioria das vezes, precisam dar diversas voltas ou cometer infração de trânsito até a vaga ser desocupada nos quatro pontos regularizados pela Settra na Rua Santo Antônio.
Segundo dados da Agência de Cooperação Intermunicipal em Saúde Pé da Serra (Acispes), a cidade recebe de 40 a 45 microônibus por dia. Vinte são da própria Acispes. Os demais são oriundos de outros quatro consórcios da região, das cidades de Bicas, Leopoldina, Muriaé e Ubá.
A porta de chegada e partida dessas pessoas era o Parque Halfeld, mas depois da proibição de embarque e desembarque no local, foi transferida para um ponto mais à frente na Santo Antônio. O parque se transformava em uma rodoviária, com filas de pessoas e bagagens espalhadas e tumulto no tráfego, exigindo uma solução. Apesar da transferência da parada de embarque e desembarque para outro espaço, para evitar congestionamentos, esta situação ainda pode ser flagrada no Parque Halfeld, como foi constatado pela Tribuna.
Pessoas doentes, idosos, crianças e mães com bebês no colo, que esperam até mais de cinco horas para embarcar de volta para casa, reclamam da necessidade de uma central onde possam esperar, contando com banheiros, assentos, bebedouros e local de alimentação. O diretor executivo da Acispes, Sidnei Scalioni, que também é presidente do colegiado de secretários executivos de consórcios, diz que é preciso olhar o problema com mais humanidade. “A sensação é de que falta vontade política. Já tentamos todos os meios para resolver isso. Neste caso, são pacientes que vêm em busca de atendimento de saúde sendo, em maioria, pessoas menos favorecidas”, indigna-se. A situação foi tema de audiência pública na Câmara Municipal, quando vereadores também cobraram uma solução.
‘Temos que enfrentar uma maratona’
Motorista da rota de Simão Pereira, Emerson Assis, traz pacientes para a cidade de segunda a sexta-feira e relata que encontra dificuldades para desembarcar e embarcar as pessoas diariamente. “Faço uma viagem com cerca de 20 pacientes. Às vezes, ao chegar no ponto, tem veículos particulares estacionados nas vagas disponibilizadas para a gente. A Rua Santo Antônio tem pouco espaço e tem colega que prefere parar em fila dupla até conseguir estacionar, o que gera o congestionamento.” A carência de um ponto central para o embarque e desembarque também apresenta outro aspecto negativo. “Percebo que muitos pacientes desconhecem Juiz de Fora e não sabem se deslocar pela cidade. Já aconteceu de pessoas se perderem, o que atrasa ainda mais a viagem”, afirma Emerson.
Ariane Dias Rosa, do município de Rio Novo, trouxe a mãe, de 71 anos, e o tio, 64, para realizar exames. Eles saíram da cidade de origem às 5h15, fizeram os procedimentos e foram liberados por volta das 13h30, mas ficaram esperando o veículo da volta para casa, em um banco do Parque Halfeld, até as 17h. “Esse horário é apenas uma referência. Tem paciente que demora mais para ser atendido, e só vamos embora depois que todos chegam. Às vezes, ficamos aqui até 19h. É muito sacrificante. Já teve vez de ficarmos aqui debaixo de chuva. Eu venho com idosos, e não há assento confortável. Minha mãe tem problema de coluna. Além disso, temos que pagar o banheiro. Nem sempre a consulta é marcada perto da data do nosso pagamento e, então, temos que contar com o ônibus, porque não dá para pagar outra condução.”
Em outro banco do parque, Cirlene Maria da Silva, 40, e o filho adolescente, 13, aguardavam o ônibus para Olaria. Ambos saíram de casa às 6h para uma consulta ao otorrino e esperavam a condução marcada para 15h30. “Temos que enfrentar uma maratona. Se tivesse uma central onde pudéssemos aguardar, a espera não seria tão danosa.”
Projeto aguarda recursos
Como pontua o diretor da Acispes, Sidnei Scalioni, os atendimentos de saúde realizados por meio dos consórcios são pactuados, e todos os municípios integrantes fazem repasses de recursos para a Prefeitura de Juiz de Fora executar esses serviços. Ele ainda argumenta que essas pessoas vêm para a cidade com objetivo de ir a médicos e dentistas, cuidar da aposentadoria e aproveitam a ocasião para diversas outras atividades, inclusive consumir no comércio juiz-forano.
“Colocaram placa de parada de embarque e desembarque, mas não há fiscalização, e as vagas são utilizadas por outros carros. Uma solução seria usar uma estrutura já montada para receber estes pacientes, como já foi proposto no Largo do Riachuelo, mas esta ideia foi rechaçada”, afirma Scalioni, acrescentando que já foi pensando em estacionamentos nas próprias unidades. “Mas é inviável, porque o ideal seria um local de referência para evitar o deslocamento desses veículos a cada uma das unidades.”
Settra
De acordo com a Settra, a parada para embarque e desembarque no Parque Halfeld foi proibida devido aos transtornos causados na circulação da Rua Santo Antônio. Para organizar melhor a parada destes veículos, a pasta definiu e regulamentou quatro pontos de embarque e desembarque na mesma via, contudo, depois do cruzamento com a Rua Floriano Peixoto. A secretaria destaca que, nestas vagas, só é permitido embarque e desembarque e não o estacionamento, e que as mesmas são fiscalizadas frequentemente. Se for verificada alguma irregularidade, os condutores são penalizados. A multa para quem é flagrado desrespeitando a regulamentação é de R$ 127,69 e perda de cinco pontos na CNH. A infração é considerada grave. Quanto ao projeto para criar áreas de embarque e desembarque, o mesmo está aprovado no PAC e aguardando liberação dos recursos para ser executado. A Settra ressalta que não é uma central, serão áreas com vagas para o embarque e desembarque, a princípio, na Avenida Francisco Bernardino, no Centro.

