
Ao lado da filha grávida, mãe teme pela vida do filho de 18 anos que está internado
"Era para estar morta." A declaração da mãe de uma adolescente da Zona Norte, baleada por conta da rivalidade entre galeras, no início de julho, no Centro, resume o temor de outras mulheres que estão perdendo os filhos para a violência em Juiz de Fora. Dando continuidade à série "Sem Limites", a Tribuna procurou respostas para a pergunta: quais os sentimentos dessas mães? Medo, culpa, raiva, impotência? Para tentar entender esse universo, donas de casa, diaristas, empregadas domésticas ganham voz e evidenciam o outro lado dessa guerra urbana, que vem vitimando meninos e meninas a partir dos 13 anos.
"Não consigo dormir à noite se ela não estiver em casa. Tenho medo do que possa acontecer. Já pedi proteção para ela, mas, até agora, não fui atendida. Cheguei a mandá-la para São Paulo, mas estava difícil mantê-la lá, pois tenho outros três filhos pequenos, e é ela quem me ajuda a olhá-los. Não sei mais o que fazer. A família toda fica ameaçada", desabafa a diarista, L., 42 anos, ao falar da filha atingida por tiro.
Também na região Norte, uma dona de casa, 50, sofre pelo filho de 18 anos internado em hospital após uma briga entre Santa Cruz e São Damião. "O médico disse que uma das balas está entre o coração e o pulmão, que é preciso aguardar a estabilização dele para que passe por uma cirurgia de risco. O problema é que se ele se salvar dessa vez, pode acabar sendo vítima de novo porque já há ameaças de que vão vir aqui (no HPS) para acabar o serviço. Isso não para." Grávida, a irmã do jovem, 23, diz ter medo que os confrontos resultem em outras vítimas na família. "O próprio policial me disse que isso não vai acabar. Falou: ‘Ou seu irmão vai matar quem atirou nele ou vão tentar de novo. Como fica isso? O atirador está impune e mora a uma rua de distância praticamente. A família toda corre risco." As declarações não só mostram o drama das famílias, mas confirmam que a necessidade de vingança mantém o ciclo de violência.
Vazio
Do outro lado da cidade, na Zona Sul, a doméstica C., 38, convive não apenas com a insegurança e com o medo de perder o filho. Há um mês e meio, ela precisa aprender, dia após dia, a lidar com a cama vazia, que era ocupada pelo filho de 14 anos, executado a tiros na cabeça quase em frente ao portão de casa, no Santa Efigênia. "É difícil. Ele era o que mais me ajudava em casa. Quando fecho tudo, a casa toda, e ele não está, dói. No dia, estávamos em casa quando ouvi o barulho de tiros. Ele estava conversando com uma amiga aqui em frente, e na hora, pressenti. Caiu aqui", mostrando um monte de areia perto da casa. C. tem outros três filhos e diz não saber como agir, já que outros dois também foram agredidos por grupos de bairros rivais.
"Esses meninos são atrevidos e vêm na nossa porta, mesmo após a morte do meu filho. Tenho um outro que já foi agredido voltando da igreja e outro que levou uma facada no braço e no rosto. Não respeitam nem mesmo as meninas e as famílias. Não ficamos tranquilas um minuto. Para ir ao Centro, temos que dar a volta pelo Jardim Gaúcho, passar pela Alegria do Boi e ir de Teixeiras com medo de sermos alvos também. Acho que está tudo errado. O Governo não age, e diz que esses meninos não podem trabalhar, mas, em contrapartida, dá dinheiro para irem ao colégio. Isso é obrigação. Dessa forma, estão incentivando a vida fácil e a violência."
‘Já não damos mais conta’
Na tentativa de evitar o pior, a mãe do jovem de 18 anos baleado na última semana, na Zona Norte, chegou a procurar a mãe do suposto atirador antes da tragédia. "Fui lá para tentar apaziguar a situação, mas não consegui. Na verdade, já não damos mais conta desses meninos. Se misturam com quem não vale nada e não dá outra coisa. Quando são detidos, vão e voltam. É muito descaso, porque a polícia sabe de tudo e faz muito pouco. Eles sabem que esses meninos têm acesso a armas pesadas. Não são revólver 32, 38 não, são ‘quadradas’ (pistolas). No Santa Cruz, mesmo com a base nova da Polícia Militar, não tem como transitar tranquilamente, os adolescentes todos estão armados, e a PM sabe quem fornece essas armas."
M., 36, da Região Nordeste, também vive drama semelhante desde que o filho, 16, foi esfaqueado em briga entre Granjas Bethânia e Grama. "Sei que ele pode morrer. Mas o que fazer? As crianças estão crescendo cada vez pior. Eles não nos ouvem. Se batemos nos filhos, eles mesmos chamam a polícia. Ou seja, não podemos educar. Ele não pode trabalhar porque é adolescente. O Estatuto da Criança defende muito e cobra pouco. A única solução para ver meu filho vivo vai ser mudar para uma cidade menor."
Juíza da Vara da Infância e Juventude, Maria Cecília Gollner Stephan rebate as críticas ao Estatuto da Criança e Adolescente (ECA). "Isso não é verdade. O ECA não proíbe o trabalho de adolescentes, por exemplo. Se o menino ou a menina tem 14 anos ou mais e tem vontade de trabalhar, pode. Basta que o pai ou a mãe venham à Vara da Infância e peçam a autorização, trazendo o nome do empregador e da escola em que o garoto está matriculado. Os comissários vão até a empresa verificar se há algum risco e, não existindo, ele pode sim trabalhar. Mas se diminuir a frequência escolar, o trabalho é cortado."
Família precisa impor regras
Psicólogo social, que atuou frente à Vara da Infância nos últimos anos, Michael Moura, é enfático ao afirmar que a presença dos pais na educação é fundamental para evitar o envolvimento das crianças e adolescentes com a violência, e, consequentemente, as perdas.
"Um pai que não é envolvido na educação do filho e uma mãe não presente são tão danosos quanto o crack, já que uma criança ou adolescente sem pai, sem mãe, sem apoio dos órgãos institucionais tende a reproduzir a violência nas relações afetivas. De um lado, há adolescentes mais radicais, voltados ao enfrentamento, que vivem soltos, sem ideais, sem ídolos, mas que desejam ser alguém. Porém, como o valor para eles é deturpado, sempre almejam as coisas mais banais, materiais. O tênis, o boné, que muitas vezes é o causador dos conflitos, para eles, é um totem, um símbolo de poder. De outro lado, há os meninos que chamamos de ‘folha’, que são influenciados. Um acha força no outro. E é essa falha na estrutura familiar, associada a um Poder Público obtuso, omisso e atrasado, que legaliza esse universo material e, consequentemente, a violência. Para mudanças, é preciso o envolvimento de todos."
A juíza da Vara da Infância e Juventude, Maria Cecília Gollner Stephan, defende a necessidade de educação e envolvimento. "Pais e mães não têm autoridade sobre eles, e muitos nem querem ter. Mas a família precisa impor regras e limites e dar amor e carinho. Até pela estrutura física desses meninos. Como são grandes de tamanho, as mães acham que já cresceram, que são adultos. Mas não é assim, é científico. Um jovem só tem seu cérebro completamente formado e em funcionamento pleno entre 17 anos e meio e 18 anos e meio. Na maioria das vezes, as mães soltam as rédeas e, quando o filho comete o primeiro ato infracional, elas tentam de novo puxá-las."
Segundo a magistrada, não há segredos. "A educação começa desde bebê. Os filhos estão o tempo todo testando os pais. Se proibir uma coisa, vá até o final com a proibição. E o mais importante, o filho tende a repetir o que os pais fazem, então, não basta falar, aconselhar, dê o exemplo."

