"Padre, pede a minha avó para vir me visitar este final de semana, preciso conversar com ela." "Minha ex-esposa não está mais trazendo meus filhos. Só o senhor pode fazê-la mudar de ideia." "Preciso de cirurgia para tirar este caroço do pescoço. Me ajude." Os pedidos, que poderiam ficar presos entre os muros do Ceresp, viram rabiscos em pedaços de papel que chegam às mãos do padre José Maria de Freitas nas manhãs de sexta-feira. No complexo, cercado por grades, guaritas e vigilantes, estão traficantes, homicidas, ladrões e estelionatários, o público alvo da Pastoral Carcerária da Igreja Católica, comandada pelo religioso. Ele celebra missa no cadeião e ouve os presos. À tarde, já na Igreja, é hora de transmitir as mensagens aos que estão do outro lado do muro.
Após aguardar dois meses por autorização especial e passar por procedimentos de rotina, como revista pessoal e retirada de objetos vetados (celular, cinto e relógio), a Tribuna acompanhou uma das visitas da Pastoral Carcerária. No pátio usado para o banho de sol, enquanto um grupo jogava futebol, 16 detentos formavam uma roda, semelhante às de capoeira. Mas no lugar das canções do jogo, palmas fortes e um coro entoando músicas religiosas. É o momento da oração.
Esta mesma rotina se repete há um ano e meio, desde que o padre José Maria e sua equipe iniciaram as visitas semanais ao Ceresp. Além de ser um direito do detento, a participação do religioso é bem vista pela direção do presídio. Conforme o diretor de Atendimento e Ressocialização, Rogério Rodrigues, ocorrências como brigas diminuíram após o início dos trabalhos do padre. O fato é confirmado pelos próprios presos.
"Ao sermos ouvidos, nos sentimos melhor," afirma J., 53 anos, há um ano e dois meses preso por tráfico de drogas. Outro detento, A., 35, suspeito de envolvimento com o comércio de entorpecentes, está há quatro meses no Ceresp, aguardando julgamento. Ele conta que é evangélico, mas gosta de ouvir as palavras do padre. "Se tornou nosso porta-voz. Quando precisamos de auxílio é a ele que recorremos. Aqui na cadeia ou você se apega às coisas boas, ou sai pior que entrou. Ao sair por aquela porta (apontando em direção à rua), serei um novo homem."
Vínculo de amizade
O papel do religioso no Ceresp vai além de celebrar missas e ouvir confissões dos presos. Enquanto o diácono Nivaldo Pereira coordena o momento de orações, com participação de 32 detentos, padre José Maria percorre todo o pátio do complexo e vai ao encontro dos grupos espalhados pelo espaço. Mesmo os que não oram, levantam-se para conversar com o religioso. Muitas vezes, quando o padre se dirige a outro grupo, um pedaço de papel é colocado em seu bolso. "A manhã de sexta-feira é no Ceresp, e a tarde, ao telefone. Tento atender algumas demandas que eles me passam, como pedidos de revisão de pena e recados para a família."
Ao caminhar em direção à saída, cerca de uma hora após o início da visita, padre José Maria exibe o respeito conquistado com os detentos. Em todas as celas, pelo menos um encarcerado vai até as grades cumprimentá-lo. Se para muitos o caminho da rua ainda é um sonho distante, e a sexta-feira da visita religiosa só mais um dia, para a Pastoral Carcerária é sinônimo de dever cumprido, pelo menos até o final da próxima semana.
Busca de nova chance após 12 anos de prisão
Um homem de 63 anos é o retrato do trabalho desenvolvido pelo padre José Maria de Freitas e a equipe da Pastoral Carcerária. Cumprindo pena em regime aberto há cerca dois meses, ele passou dois anos e seis meses de detenção acusado de homicídio. Ainda preso, começou a acompanhar as celebrações semanais no Ceresp. "Nunca fui de seguir uma religião, mas lá dentro, fragilizado, vi nas palavras de apoio do padre uma oportunidade para mudar a minha vida."
Segundo ele, o bom comportamento e a intervenção da Igreja o ajudaram a conquistar a liberdade. "Esta foi a terceira pena que cumpri na vida. Já fui viciado e tinha envolvimento com o tráfico. Hoje estou curado e não quero mais pensar em fazer algo errado," diz o ex-detento que, ao todo, passou cerca de 12 anos atrás das grades.
Para evitar novas situações ilícitas, ele é acompanhado pela própria Igreja. Atualmente, o egresso mora em uma casa alugada pela Paróquia Nossa Senhora Aparecida, no Linhares. Retribui a oportunidade com trabalhos para a comunidade. "Estou pintando o muro da igreja e, quando terminar, vou fazer reparos nas capelas da paróquia. O padre tem me ajudado muito, e hoje sei que sou um novo homem. Conforme o ex-detento, alguns familiares o visitam com frequência, mas ele evita ir até a casa dos parentes para não encontrar com antigos amigos, que ainda andam na contramão da lei.
Outras religiões têm projetos no cadeião
Além da Pastoral Carcerária da Igreja Católica, outros grupos religiosos desenvolvem trabalhos dentro da cadeia. Segundo o diretor de Atendimento e Ressocialização do Ceresp, Rogério Rodrigues, todas as visitas espirituais são importantes para quem cumpre pena. A presidente do Centro Espírita Ivon Costa, Marilda Bellini, conta que iniciou as visitas a pedido da direção do presídio. Toda quinta-feira, uma equipe de cinco pessoas passa cerca de 50 minutos no complexo. "Vamos para levar conforto. Eles gostam e ficam entusiasmados em conversar sobre religião."
Segundo ela, aproximadamente de 20 detentos participam dos encontros, e a maioria é evangélica. Marilda avalia que o grupo procura o auxílio dos espíritas por curiosidade. "Desenvolvemos um tema, sugerido por eles, e abrimos discussão, baseada no evangelho."
A Comunidade Missionária Mundial desenvolve o projeto "Bíblia na cela". Em outubro passado, doou um exemplar do Livro Sagrado para cada cela do cadeião. Conforme a evangelista Elídia Arruda, o resultado é positivo. "Encarcerados, eles têm tempo para pensar na vida. Acabam lendo a Bíblia. Acreditamos que possam encontrar um caminho para a transformação nas palavras do evangelho."
Já a Assembleia de Deus realiza visitas ao Ceresp, há um ano e sete meses, sempre às terças-feiras. Segundo o pastor José Carlos Pinto Moreira, além de levar a palavra de Cristo aos presos, há um trabalho de reintegração com a sociedade. "Visitamos os parentes deles toda quinta-feira. Esta atividade nos ajuda a conhecer a realidade daquelas pessoas e a mostrar para seus familiares que eles estão participando dos cultos, tentando melhorar." Ainda de acordo com o pastor, muitos ex-detentos se tornam membros da igreja.
Conforme Rogério de Souza, outras igrejas, como a Deus é Amor, Adventista, Quadrangular e Preparatória, exercem alguma atividade em prol dos detentos, embora não mantenham visitas regulares.
