Em 63% dos assaltos à mão armada praticados em Juiz de Fora nos dois últimos meses foram utilizadas armas de fogo, principalmente revólveres. Essa modalidade de crime ainda está intensificada no período noturno e pulverizada entre as regiões periféricas da cidade, não mais se concentrando no Centro, área que já chegou a encabeçar estatísticas de roubo à mão armada. A Zona Sul lidera os casos, registrados principalmente no Bairro São Mateus. Em toda a cidade, os estabelecimentos comerciais são os principais alvos, enquanto que os homens adultos são as vítimas mais visadas. O relato das pessoas assaltadas aponta que os bandidos preferem agir em dupla, sendo que os comparsas, muitas vezes, atuam apenas para dar fuga ao autor do delito. Chama atenção ainda o fato de que, em 90% dos casos ocorridos em maio e junho, a Polícia Militar não tenha conseguido deter os criminosos logo após o roubo. Nos registros em que os policiais efetuaram a detenção, todos os suspeitos eram jovens entre 15 e 25 anos. O perfil dos assaltos à mão armada ocorridos no período foi traçado pela Tribuna (ver quadro) a partir da análise de 73 boletins de ocorrência elaborados pela corporação, sem levar em consideração os assaltos, que, mesmo com violência, não tiveram uso de arma.
Apesar de, na maioria dos casos, não haver violência física, há registros mais graves de vítimas baleadas e esfaqueadas. Um assalto a uma pizzaria, ocorrido à noite, em junho, deixou um comerciante de 40 anos baleado no abdômen. Conforme o boletim de ocorrência, ele teria perseguido três suspeitos que assaltaram o estabelecimento, na Avenida Olegário Maciel, quando foi alvejado por um dos homens. A vítima foi medicada e liberada. Em maio, um taxista, 48, foi ferido à faca no pescoço após um homem anunciar o assalto ao trabalhador, que estava parado em um ponto de táxi no Centro, por volta de 4h30.
Os roubos à mão armada seguem chamando atenção nos últimos dias. A 7ª Delegacia Distrital de Polícia Civil vai investigar se há relação entre os dois assaltos a lojas de eletrodomésticos registrados em menos de uma semana na Rua Batista de Oliveira, no Centro. De acordo com a delegada Mariana Veiga, já foram solicitadas diligências para apurar o primeiro caso, ocorrido em 30 de junho. Na ocasião, um homem entrou no estabelecimento e acessou o segundo andar, onde ficam os caixas. Ele retirou da mochila um revólver calibre 38 e rendeu uma funcionária. O criminoso fugiu com R$ 2.142. Já no início da noite da última terça, duas funcionárias foram rendidas em outra loja de eletrodomésticos na mesma via. Três homens e uma mulher participaram da ação criminosa. O assalto foi anunciado, por um criminoso armado, também no segundo andar, no qual fica o setor de caixas. O bando roubou R$ 2 mil e conseguiu escapar.
Preocupação com alto índice de armas em circulação
Segundo o assessor de comunicação da 4ª Região da PM, major Sebastião Justino, a tríade de fatores que possibilita o crime – oportunidade, motivação do infrator e ausência de impedimentos – explica os dados levantados pela Tribuna. "A escuridão gera anonimato, dificulta a visualização das características físicas do bandido por parte da vítima e possibilita o delito", diz, referindo-se ao horário noturno, período de maior incidência dos assaltos.
Sobre o fato de os homens serem maioria entre as vítimas, o oficial opina: "Nós, homens, achamos que somos autosuficientes para resolver problemas e tomamos menos cuidados. Como a mulher sabe que, teoricamente, é mais vulnerável, acaba sendo mais cautelosa e procura não andar sozinha nem em locais ermos."
Já o alto índice de assaltos cometidos com arma de fogo preocupa a PM, mas a instituição acredita na campanha do desarmamento como forma de reduzir a quantidade desses objetos em circulação e, consequentemente, diminuir os índices de criminalidade.
Em relação à baixa média de idade dos suspeitos de assalto detidos pela PM, o major associa o fato à dependência química. "A maioria são menores de idade ou tem idade não superior a 25 anos, em virtude do consumo do crack entre os jovens. A droga faz com que, a cada hora, o dependente busque recursos para o consumo. Esses são conseguidos em pequenos furtos e roubos."
O major Sebastião Justino também explica o grande índice de casos nos quais os policiais militares não conseguem capturar os suspeitos após o assalto. "A função da Polícia Militar é a prevenção; e ela se dá quando o cidadão adota medidas de autoproteção, e a PM está presente nos lugares certos. Assim, conseguimos ter 95% de chance de não ocorrer o delito. Quando há a ruptura desse esquema, a resolução dos problemas é muito menor." Demora no acionamento do 190, repasse de informações equivocadas por parte das vítimas e suspeitos que utilizam pontos de apoio preexistentes para se refugiar após o assalto podem explicar o baixo índice de localização dos assaltantes, segundo o policial.
Migração
O Centro, que recebe cerca de 150 mil pessoas por dia, concentrou apenas 14% das ocorrências de assalto nos dois últimos meses. O fato pode ser reflexo de uma possível migração dos criminosos para outras áreas da cidade. "Os bandidos migram tanto de região quanto de modalidade criminosa. Isso depende da facilidade que ele vai encontrar em cada área. A PM está atenta a essa movimentação", garante o major Justino. "Lançamos, diuturnamente, viaturas preventivas e fazemos várias campanhas de autoproteção. Isso tem se refletido na redução significativa dos crimes violentos", completa o assessor de comunicação do 2º Batalhão, tenente Marcelo Alves da Silva.
PM diz estar atenta aos locais mais visados
Na Zona Sul, região que apresentou a maior parte dos assaltos à mão armada nos últimos dois meses, o Bairro São Mateus chama atenção por concentrar 40% das ocorrências daquela área. O presidente do Conselho de Segurança (Consep) local, José Luiz Britto Bastos, avalia de forma positiva o efetivo de 25 militares lotados no posto policial do bairro, que conta ainda com dois carros e duas motos da PM, mas destaca que o policiamento é reduzido sensivelmente no período noturno. "O comércio intenso em São Mateus naturalmente atrai a bandidagem. Durante o dia, o policiamento é feito, mas, à noite, deixa a desejar."
O assessor de comunicação do 27º Batalhão da PM, responsável pelas regiões Sul, Norte e Oeste, capitão Paulo Alex Moreira, diz que a corporação está atenta aos locais mais visados pelos criminosos, e, com base nisso, prioriza o patrulhamento em horários e locais nos quais as estatísticas oficiais apontam maiores índices de assaltos. "A Zona Sul tem uma particularidade muito grande de apresentar bairros com classes sociais elevadas em dicotomia com bairros sob influência de exclusão social. Essa ‘química’ faz com que o crime tenha mais êxito."
As estatísticas da PM em relação a São Mateus mostram queda de 19,8% nos crimes contra a pessoa (de 171 para 137) e de 19,3% nos registros contra o patrimônio (de 264 para 213), nos cinco primeiros meses deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado. Já as operações e ações da PM no bairro tiveram aumento de 80 para 95 no mesmo período.
