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Morador do Democrata diz que Defesa Civil liberou imóvel antes de deslizamento: ‘Claro que não vai cobrar IPTU, não tem mais casa’

Morador do Democrata diz que Defesa Civil liberou imóvel antes de deslizamento: 'Claro que não vai cobrar IPTU, não tem mais casa'
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A casa de Lindorval Reguini de Melo, de 62 anos, ficava, por 30 anos, na Rua Carangola, nº 708, Bairro Democrata, Zona Leste de Juiz de Fora. Ela já não existe mais, assim como as outras quatro residências no mesmo imóvel, em que ele tinha inquilinos. Este é mais um caso de vítimas de deslizamentos que ocorreram na noite da segunda-feira, dia 23 de fevereiro.

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“Eu chamei a Defesa Civil umas 14h de segunda-feira (9), aí eles vieram e falaram que não tinha risco. Quando foi 21h30, eu escutei um barulho nos fundos, lá em cima. Aí fui lá e estava minando uma água, com barro. Aí eu desci e tirei todo mundo. Quarenta minutos depois, mais ou menos, caiu tudo”, ele afirma. Segundo ele, no sábado anterior houve o mesmo procedimento da Defesa Civil.

“Eu questionei o mesmo funcionário e ele falou que não tinha vindo aqui, e que, para eu provar, tinha que ter o papel. Só que o papel está enterrado ali”, aponta para a montanha de terra com destroços, que tratores trabalham para retirar. Segundo Lindorval, o chefe do funcionário também teria ido ao local e, para “provar”, consultou o boletim, que constava como “em aberto”. “Aí põe o que quer, né”, lamenta. 

Ele está até agora precisando de um laudo da Defesa Civil para, ao menos, dar entrada nos auxílios a que tem direito, mas afirma que já chamou o órgão, mas os profissionais não compareceram. 

Em meio a tudo isso, quando questionado sobre qual é a pior dor, ele responde: “O descaso”, ao que a voz embarga e os olhos se enchem de água tão pesada quanto a que levou ao chão tudo o que tinha, “o abandono”. “Não é por mim só, não. Tem cinco famílias que perderam tudo, está ali”.

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Como relatado à Tribuna por moradores de diversas regiões da cidade na última semana, Lindorval diz que aguarda alguém da Prefeitura aparecer para dar uma resposta, e ironiza a medida anunciada pelo Executivo, em conjunto com o Legislativo: “Claro que não vai cobrar IPTU, não tem mais casa”.

A Tribuna entrou em contato com a Prefeitura de Juiz de Fora que, por meio de nota, informou que “no caso mencionado, a Defesa Civil ressalta que não atua corriqueiramente na ‘liberação’ de imóveis, mas na avaliação de possíveis riscos. Como não havia interdição prévia do endereço citado, a vistoria realizada antes do temporal não identificou risco iminente naquele momento. O colapso da residência, portanto, está inserido em um cenário de instabilidade agravado pelo alto volume de chuva registrado na cidade”.

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No posicionamento, a PJF volta a ressaltar que Juiz de Fora “enfrentou um evento climático extremo, com 844,06 mm de chuva em fevereiro, o fevereiro mais chuvoso da história do município, além de um volume excepcionalmente concentrado no período crítico. Nesse contexto, o risco geológico é dinâmico e pode se alterar rapidamente em função das chuvas.”

Já sobre o acesso a benefícios, outra demanda de Lindorval, a Prefeitura garantiu, na nota, que “não é necessário apresentar laudo da Defesa Civil para o cadastramento. As famílias desalojadas devem procurar o CRAS mais próximo, e as desabrigadas são cadastradas nos abrigos, para o pré-cadastro e encaminhamento aos benefícios emergenciais.”

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(Foto: Leonardo Costa)

Sonhos perdidos

Enquanto algumas respostas faltam, outras impressionam pela força e resiliência. Pedro Henrique Coelho, 18 anos, é filho de Lindorval. Ele conta que a família perdeu todos os pertences, com exceção de algumas roupas. A mãe tinha acabado de terminar a cozinha planejada, que estava reformando. “Ela ficou bem triste de ter perdido o forno, essas coisas. Eu perdi o meu computador, que eu lutei tanto para conquistar e era um sonho meu de criança. Mas o importante é que a gente está vivo”, comove.

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E agora? “Agora é seguir a vida”. Ele reconhece que é difícil. O pai passou décadas construindo tudo aquilo, “aos pouquinhos, do jeito dele”. “Mas acho que as coisas a gente consegue recuperar com o tempo, tudo vai se ajeitando. O mais difícil seria se alguém tivesse morrido, aí não tem mais volta. O importante é que a gente está bem”, reforça.

‘A gente estava desacreditado’

Pedro Henrique relembra como foi o dia em que tudo virou. Ele e o pai foram para a casa de cima, dos sobrinhos do padrasto. Foi assim que conseguiram ver que o muro da vizinha havia se quebrado e estava descendo muita lama, levando-os a buscarem um local seguro. “O curioso é que era para eles nem estarem em casa na hora. Se eles não estivessem, ia morrer todo mundo, porque a gente não ia ver que o muro caiu”.

A gente saiu, mas nem esperava que a casa fosse cair, só saiu por precaução mesmo”. Da casa de uma amiga da mãe, no mesmo bairro, escutaram um barulho e a energia caiu. De longe, pensaram que algum transformador tinha estourado, e viram uma poeira muito grande subindo. “A gente não esperava que fosse a nossa casa, estava meio desacreditado”.

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Um colega de trabalho da mãe foi até o local, mas não conseguiu dar a notícia. “Ele falou que tinha muito barro, não dava para ver ainda”. Uma outra amiga, que morava em frente, ligou preocupada, pois não sabia se estava debaixo dos destroços. “Minha mãe atendeu e ela falou: ‘Caiu tudo’. Naquela noite, a gente não conseguiu dormir mais”.

Noite em claro

Naquela noite, o sono não passou mesmo pela Rua Carangola. Andréia Belon, 50 anos, era vizinha da família há 21, e estava em casa no momento da tragédia. “Fez um barulho semelhante a uma batida”, conta, “a gente estava sem luz desde às 19h, e aí eu fiquei apreensiva, olhei pela janela e não vi nada. Nisso, eu já fiquei amedrontada, aí fez um barulho muito maior. Saí de casa com meus filhos e aí no terceiro estrondo já foi tudo”.

Ela se lembra dos moradores todos apavorados, na rua, com seus filhos, debaixo de chuva. Ninguém conseguia ter dimensão do que tinha acontecido, pela escuridão. Um motoqueiro iluminou e aí ficou todo mundo “apavorado”. Começaram a ligar para a Polícia, Defesa Civil, Bombeiros, mas a própria vizinhança precisou ficar até 3h procurando pela possível vítima, porque ninguém sabia se ela estava em casa.

Os momentos até a confirmação de que não havia pessoas na construção na hora do deslizamento foram de pânico e um choro generalizado. Pelo que os vizinhos conversaram no dia seguinte, alguns passaram a noite sentados, outros queriam dormir no carro, por medo. Ela ficou “cochilando” no sofá. “Meus vizinhos estavam arrasados, todo mundo com cara de choro, de quem não tinha dormido, e pensando o que fazer.”

Por conta própria, grande parte dos moradores da rua decidiu evacuar suas casas. “A conversa da Defesa Civil foi assim: ‘Tem barranco? Sai. Não olhou, não fez uma vistoria minuciosa (…) Eu já liguei, expliquei a nossa situação e eles falaram que quando tiver tudo desobstruído vem uma equipe. Aí esse ‘depois’, a gente não sabe quando será, né?”.

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