
POV foi instalado em 2006 no Alto dos Passos
Os Postos de Observação e Vigilância (POVs) foram considerados, em 2005, tanto pela Polícia Militar quanto pela Administração Municipal, a principal proposta para garantir sensação de segurança à população e combate à criminalidade em pontos específicos do município, onde a medida havia sido considerada estratégica. Entretanto, hoje, o que se vê, é um projeto desestruturado. Episódios de uso e tráfico de drogas, abusos sexuais e depredação do patrimônio, entre outros crimes, no Parque Halfeld, no Centro, e no Bairro Alto dos Passos, Zona Sul, onde estão instalados dois postos, denunciam a inexistência de policiais nas bases nos momentos destas ocorrências. Por três vezes, em dias e horários distintos, a Tribuna tentou encontrar algum militar nos dois endereços, mas nenhuma das vezes teve sucesso. Já no POV do Manoel Honório, havia militar presente no momento em que a reportagem esteve no local, no início da tarde de ontem.
A desestruturação da estratégia de policiamento fixo deixa comerciantes e moradores indignados e sem saber a quem ou onde recorrer. No caso específico do Parque Halfeld, o fechamento do POV afeta também o trabalho da Guarda Municipal. "Há cerca de uma semana e meia, não aparece militar no POV. Para a gente, é muito ruim. Estamos enviando ofício ao nosso comando já que fica difícil agirmos sozinhos porque não temos armas", contou um agente que atua no parque.
Para quem frequenta o parque ou trabalha no local ou nas redondezas, a situação chegou ao limite. "É inconcebível pensar que o endereço que tem no entorno prédios públicos, como o da Câmara Municipal e do Fórum Benjamin Colucci, esteja abandonado, sem policiamento. Com certeza, tem mais de uma semana que não aparece nenhum militar no POV. Estão esperando acontecer uma tragédia para trazer a segurança de fato para um dos principais pontos turísticos da cidade", reclamou o comerciante Saulo Cândido, 30 anos. "Precisam colocar mais segurança e não tirar. O parque está muito violento, muita briga, gente usando e vendendo drogas. Está complicado trabalhar aqui", contou um ambulante, 40, que, com medo, preferiu não se identificar.
No Alto dos Passos, Zona Sul, comerciantes relatam a insegurança, principalmente após uma onda de arrombamentos, furtos e assaltos em estabelecimentos comerciais. No início de dezembro, às 7h, uma lanchonete em frente ao posto foi assaltada. Um homem armado com revólver rendeu a gerente, 20 anos, e exigiu todo o dinheiro do caixa. O ladrão roubou R$ 3.600, além dos celulares da vítima e de uma atendente, 26.
Morador antigo do bairro, um advogado aposentado, 78, cobra o retorno do funcionamento da unidade. "Na época, empresários e moradores ajudaram a montar o posto. Não é justo deixar de funcionar sem nos consultar. Precisamos de mais segurança, haja vista uma série de brigas e assaltos ocorridos na região. Além disso, não sabemos se a PM está aqui, se vai passar de carro ou a pé. Ficamos sem saber como agir."
Quem trabalha nas imediações relata a rotina de insegurança: "Semana passada toda ficou sem militar. O posto vazio traz muita insegurança, tendo um militar sempre presente, já inibe a ação dos bandidos", defende o vendedor Rodrigo Santos, 22. "Sem polícia, temos que fazer nossa própria segurança. Fico de olho o dia todo em atitudes suspeitas e tenho sistema de vigilância", disse um comerciante, 50.
Previsão de novos postos não se concretizou
O primeiro Posto de Observação e Vigilância (POV) em Juiz de Fora foi inaugurado em agosto de 2005, no Parque Halfeld. Em dezembro de 2006, o segundo começou a funcionar na esquina das ruas Morais e Castro e Padre João Emílio, no Alto dos Passos. A promessa era de que outros postos fossem implantados em pontos críticos do município, mas somente mais um – no cruzamento das avenidas Brasil e Rio Branco, no Manoel Honório – tornou-se realidade e continua em funcionamento. Os outros previstos para as esquinas das avenidas Independência e Rio Branco, Rua São Sebastião com Avenida Francisco Bernardino, Praça da Estação, Largo do Riachuelo, Praça do Bairro Bom Pastor, Bairro São Pedro e Benfica não saíram do papel.
O projeto dos POVs foi baseado em pesquisa realizada, na época, pela Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do município e contou com apoio do empresariado de Juiz de Fora. A proposta de instalação dos postos foi considerada acertada, à época, pelos comandantes das 30ª e 32ª companhias da PM, responsáveis pela segurança no Centro e no Alto dos Passos, respectivamente. Em 2008, balanço mostrou que o índice de ocorrências no Parque Halfeld havia chegado praticamente a zero devido à presença de um policial em ronda das 8h às 18h e outro fixo no Posto de Observação e Vigilância (POV).
Mesmo tendo avaliação positiva, os POVs não conseguiram se manter. Segundo o assessor de comunicação organizacional da PM, tenente Flávio Luiz Campos, a unidade do Alto dos Passos não foi desativada, entretanto, não há mais policiais fixos, em turnos, na unidade. "A visibilidade do posto é muito boa, mas impede de o militar cuidar de outras ruas internas do bairro. Agora ele anda, percorre as ruas de viatura e tem o POV como base, apenas."
Para o pesquisador Luís Felipe Zilli, do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública da Universidade Federal de Minas Gerais (Crisp- UFMG), a mudança de estratégia de policiamento é normal, desde que ligada a um prévio diagnóstico. "O fenômeno criminal é dinâmico, por isso a polícia também precisa ter flexibilidade, modificando suas formas de atuação. Entretanto, a mudança precisa estar fundamentada em um diagnóstico da área, senão, não há razão para mudar."

