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Inundação deixa as marcas da tragédia

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Muito mais do que ter invadido casas, destruído vidas e tornado os últimos dias mais difíceis, as enchentes deste princípio de janeiro fizeram desaparecer parte da história de muitas famílias. Foi isso o que aconteceu com milhares de moradores das cidades da Zona da Mata mineira, que, depois das inundações que arrasaram regiões inteiras, viram as coisas que demoraram a vida inteira para construir serem levadas em minutos pela enxurrada. Na viagem para Dona Euzébia, a pouco mais de cem quilômetros de Juiz de Fora, as estradas já dão sinal do que passou por lá. No km 58 da MG-353, altura de Coronel Pacheco, o trânsito está em meia-pista por causa de um deslizamento de talude em uma das margens da rodovia. Na MG-285, em Astolfo Dutra, um outro desmoronamento atingiu parte da via, mas o tráfego prossegue normalmente. Por todo caminho, onde é possível ver o trajeto dos rios Xopotó e Pomba, salta aos olhos os rastros da destruição. Na última quinta-feira, ao se dirigir à região por terra e de helicóptero, a Tribuna pôde registrar as marcas deixadas depois que a água abaixou e acompanhar a tristeza de quem tenta retomar a vida.

Na MG-120, que liga Ubá a Guidoval, e até o momento é um dos acessos mais viáveis à cidade arrasada pelas chuvas, foi construído um ponto de apoio para as equipes que atuam nos trabalhos sociais, de socorro e reconstrução e uma área de recolhimento e distribuição de donativos. A base, que tem participação de Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e outros órgãos estaduais, funciona no Ginásio Poliesportivo Antônio de Pádua Occhi, onde a chegada e partida de helicópteros levando donativos e medicamentos e trazendo feridos e doentes é constante.

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Um pouco à frente deste ponto ficava a entrada da pequena Guidoval, cidade com 7.526 habitantes, onde a ponte levada pelas águas ligava a Praça Getúlio Vargas à Rua 7 de Setembro. Neste ponto, o Corpo de Bombeiros atravessa de barco pessoas, alimentos e tudo mais que precisa ser levado à outra margem. Com um esforço incrível, as pequenas embarcações são puxadas de corda manualmente pelos bombeiros, que parecem incansáveis perante o cenário de destruição. Lá também foi construída uma espécie de tirolesa, usada por moradores e voluntários para enviar donativos.

Antes ou depois de fazer a travessia, as imagens são impressionantes em todo o município, já que a chuva não poupou ninguém. Surpreendeu ricos e pobres, casas e empresas, devastando todos os cantos pelos quais passou. Nas falas dos moradores, a comparação com duas inundações anteriores, ocorridas em 1979 e em 2008, é recorrente. "Nunca na história de Guidoval foi visto algo assim. A cidade acabou. A enchente passou e levou tudo o que tinha e também a nossa esperança", diz desolado o proprietário de uma fábrica de madeira e móveis tubulares Osvaldo Cruz, 54 anos.

Além de ter entrado nos imóveis, a água arrastou carros, placas de asfalto, animais e até mesmo coletivos e caminhões. O motorista de ônibus escolar da Prefeitura Ederson Teixeira, 38, conta que o município perdeu muitos veículos, sendo que alguns ainda não foram sequer localizados. A quantidade de materiais dependurados em galhos de árvores, encontrados nos telhados das casas e espalhados pelas ruas dá mostras da violência das águas. Não restou quase nada na agência bancária, nos mercados, nas lojas e nas fábricas.

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Na BR-120, que deveria ligar Guidoval a Dona Euzébia em um caminho mais curto, passando pelos vilarejos de Vargem Alegre e Santa Bárbara, que pertencem a Guidoval, a estrada é de chão, e o acesso por terra só era feito até ontem por motos, jipes e outros automóveis com tração nas quatro rodas. Ainda assim, a via está tomada pela lama, ainda apresenta pontos de alagamento e deslizamento, além de perigo. A Tribuna teve acesso à área com a ajuda do comerciante Wagner Carlos Rodrigues, 29, que transportou a equipe em uma "gaiola", espécie de buggy construído com partes de diversos automóveis.

Em Vargem Alegre, cenas chocantes demonstram que, direta ou indiretamente, toda a cidade foi afetada. Quem não perdeu parentes, imóveis, veículos ou utensílios está ilhado. Na estrada, a metros de distância do leito do rio, são encontrados peixes mortos, restos de móveis, de plantações e de residências. Foi nesta localidade que morreu um idoso de 81 anos, dentro de casa. A Tribuna localizou a moradia onde ele vivia e, apesar da morte ter sido constatada no início da semana, apenas na quinta-feira, segundo os vizinhos, o corpo foi retirado.

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Um pouco mais adiante, em Santa Bárbara e Monumento do Guido, os moradores também estão no isolamento. A maioria ficou sem os imóveis e está abrigada em casas de amigos e parentes. Muitos já receberam cestas básicas e água, mas há quem ainda esteja sem medicamentos e vacina, fazendo uso da água da enchente para tomar banho e cozinhar.

Quando o fim da tarde vai chegando, é hora de a equipe retornar, pois a falta de iluminação impede a volta para a outra parte da cidade. Para os moradores, também surge mais uma preocupação. São as últimas horas para fazer a travessia de barco e para passar com menos dificuldade pelas estradas de chão. Ao anoitecer, o acesso por terra torna-se ainda mais complicado e perigoso e quem ficou de um dos lados precisa esperar o dia seguinte para acessar o outro extremo. À noite em Guidoval, a população luta para acreditar que é possível recomeçar.

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