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Álcool tende a ser mais devastador que o crack

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Massivamente consumidos, igualmente destrutivos e socialmente distintos. Crack e álcool são classificados como dois tipos de drogas, contudo, mesmo estando incluídos na rota de propulsores a problemas sociais e de saúde, tal denominação não é vista desta forma. O assunto, que voltou a ser discutido com as demolições recentes de locais que abrigavam amplo consumo de drogas ilícitas na cidade, comprova a maneira como violência e marginalidade estão associadas ao consumo de crack. Contudo, estudos demonstram que a violência causada pelo uso excessivo do álcool pode ser muito mais incisiva e cruel, trazendo à tona um delicado debate. Há dois anos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgava relatório afirmando que a ingestão de álcool provoca cerca de 2,5 milhões de mortes todos os anos. Isso representa 4% dos óbitos registrados no mundo anualmente. De forma ainda mais preocupante, o levantamento aponta que a porcentagem de mortes por álcool é maior do que as causadas por aids, violência e tuberculose.

No último mês, a Tribuna mostrou a situação da cracolândia que havia sido formada na área central de Juiz de Fora, nas ruas Benjamin Constant e José Calil Ahouagi. No local, pessoas de diferentes idades consumiam drogas de forma ilegal e viviam em meio a todo tipo de crimes, como tráfico, prostituição, roubo, furtos, lesão corporal e violência sexual. Dias depois, o complexo foi totalmente demolido. Ainda na mesma semana, um conjunto de 15 imóveis abandonados na Rua Mariana Evangelista, no Poço Rico, que também era utilizado por usuários de drogas, veio abaixo. Enquanto isso, de forma legal, aberta e indiscriminada, o álcool é consumido em mesas de bares, festas, reuniões familiares e individualmente, por todas as esferas da sociedade, em todo lugar. Segundo especialistas, seja por sua grande aceitação cultural e até mesmo por crenças religiosas, o álcool não é visto como um malefício.

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Reflexos sociais

O vício por entorpecentes traz à tona uma realidade distinta entre os usuários e seus familiares, conforme analisa a professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Ana Regina Noto. Dentro de sua linha de pesquisa desenvolvida nos últimos anos, os números comprovam que, quando o álcool é comparado a outras drogas, seu nível de violência é considerado maior, dada a grande frequência dessa substância na sociedade. Reforçando o tema, a OMS declara também que o álcool é associado com muitas questões sociais sérias, como negligência infantil e abusos, além de faltas no trabalho. Esta substância prejudica a vida não somente de quem o consome em excesso, mas também dos que se relacionam com essas pessoas.

Para exemplificar seu trabalho, Ana Regina, que integra o Núcleo de Pesquisa em Saúde e Uso de Substâncias do Departamento de Psicobiologia (Nepsis) da Unifesp, contabilizou que, a cada sete casos de facadas envolvendo o uso do álcool, acontece apenas uma em virtude do crack. "As situações envolvendo os alcoólatras são mais numerosas, duram longos períodos e têm uma frequência maior dentro das casas. Isso envolve mulheres, crianças e toda a família, que acabam se omitindo perante a situação e sofrendo em silêncio, sem políticas públicas forte de apoio", explica. Para ela, os casos envolvendo a bebida são mais numerosos, no entanto, a população parece ter perdido a capacidade de perceber a dependência e os atos violentos consequentes do seu uso. "Essa dependência demora dez anos para se instalar, enquanto a do crack é instantânea. A diferença é que o crack vai para as ruas, ganha visibilidade e por isso chama mais a atenção das autoridades."

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Abuso de bebida em 65% dos casos

Pesquisa realizada pela Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher em parceria com o curso de Psicologia do CES/JF demonstra que aproximadamente 65% dos suspeitos de agressão são alcoólatras. Em um universo de 37 mulheres vítimas de violência, entrevistadas em períodos distintos do ano passado, 24 delas alegaram que o parceiro consome álcool de forma excessiva e 14 disseram que o marido é usuário de crack. Ainda dentro do levantamento, seis delas afirmaram que o parceiro usa cocaína e maconha. Um dado alarmante da pesquisa aponta que pelo menos 90% dos agressores estavam sob o efeito de alguma droga no momento do ato de violência. Lembrando que era dada a possibilidade de marcar mais de uma opção, ou seja, alguns homens fazem uso de mais de um tipo de droga. A pesquisa é realizada por alunos do CES, que fazem a entrevista com as mulheres e, caso seja necessário, promovem o acompanhamento psicológico na Clínica Escola da instituição posteriormente.

Em análise sobre o tema, o assessor de comunicação da 4ª Região de Polícia Militar (4ª RPM), major Jeferson Ulisses Pires, defende que as ocorrências envolvendo o uso do álcool estão mais ligadas à violência doméstica, enquanto os crackeiros se relacionam com situações ilícitas, além de furtos e roubos. "Enquanto tem sempre alguém disposto a pagar uma pinga para um alcoólatra, o usuário de crack não vai encontrar ninguém na rua para oferecer ajuda para consumir a droga."

Demora para procurar ajuda agrava situação

A situação analisada em âmbito nacional pela professora Ana Regina Noto, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), pode ser trazida para a realidade juiz-forana, onde os dados oficiais demonstram um alto índice de dependência do álcool. De acordo com informações da Secretaria de Desenvolvimento Social, dentro do perfil analisado especificamente com moradores em situação de rua, foi constatado que o maior problema dessas pessoas é o álcool, seguido do crack. Contudo, segundo a coordenadora do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD), Sonia Maria Netto Ramos, a procura por ajuda em busca da recuperação acontece, na maioria das vezes, por consumidores de drogas ilícitas. Segundo ela, entre 80% e 90% dos atendidos pelo Caps AD são usuários apenas de crack ou da droga associada a outras substâncias, como maconha e álcool. No local, cerca de 400 pessoas, entre jovens e adultos, estão em tratamento atualmente. São 75 novos casos por mês e mais de 3.400 prontuários, ou seja, pessoas que já passaram pelo atendimento do serviço.

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"Há uns quatro anos, tínhamos um maior número de alcoólatras, mas o crack vem chamando a atenção devido à intensidade dos danos causados no organismo. A grande diferença é que o usuário de álcool demora mais tempo para procurar ajuda, seja pelo fato de os problemas de saúde surgirem de forma mais lenta ou por conta do fator cultural, que associa o seu uso a uma questão social." Conforme a reflexão da coordenadora do Caps AD, essa situação se explica pelo fato de o uso esporádico da bebida ter deixado as pessoas acostumadas e desatentas quanto ao cuidado no consumo exagerado. "O problema é quando vira vício, e a pessoa não percebe e nem busca ajuda, e é por isso que temos pouca procura por dependentes de álcool. A maioria dos nossos atendidos é de pessoas com idade mais avançada, com quadro clínico já agravado. Em contrapartida, ninguém é acostumado a usar crack socialmente, e a droga age de forma mais severa."

Dentro desse contexto, Sonia explica que a questão do morador de rua é reflexo dessas circunstâncias, tendo em vista que boa parte dessas pessoas está fora de casa pelo fato de não saber lidar com a droga. Ainda nesse recorte, a coordenadora do Consultório de Rua do Departamento de Saúde Mental da Secretaria de Saúde, Tatiana Tavares, confirma a tendência e garante que o álcool é a substância de maior consumo entre os moradores em situação de rua atendidos no local. Das 688 pessoas que participam do trabalho, executado pela Associação Casa Viva, 422 (61%) delas declararam serem consumidoras do álcool e 145 (22%) informaram usar essa droga associada a duas ou mais substâncias, como crack, maconha, tabaco ou cocaína. Já com relação ao crack, os índices são menores, sendo 214 (31%) consumidoras desse entorpecente. Segundo Tatiana, no primeiro ano de trabalho, o consultório de rua realizou mais de 2.500 atendimentos, sendo que a grande parcela desse total é formada por homens, 84%, contra 16% de mulheres. "Já com relação à idade, percebe-se que a maioria são jovens em momento produtivo, com faixa etária que varia entre 26 e 35 anos."

 

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