
A crescente violência em Juiz de Fora tem refletido no aumento das vítimas de arma de fogo atendidas no Hospital de Pronto Socorro (HPS). A cada dois dias, em média, pelo menos um baleado foi recebido na unidade, de janeiro a 5 de agosto deste ano. Ao todo,103 feridos a bala chegaram ao local. O atendimento a esses pacientes gera custos que impactam a demanda de tratamento na unidade. Segundo levantamento realizado pela Secretaria de Saúde, a pedido da Tribuna, considerando situações semelhantes às reais (ver quadro), uma pessoa que é recebida pelo hospital com ferimento provocado por tiro na cabeça custa, em um único dia, R$ 2.084,40, uma vez que necessita passar por radiografia de crânio, tomografia computadorizada de crânio, craniotomia para retirada de corpo estranho intracraniano e internação na unidade de terapia intensiva (UTI). O valor pode ser maior dependendo do estado clínico do paciente, da existência de mais de um tiro em regiões diferentes do corpo, da necessidade de novos exames e de maior tempo de hospitalização. No Brasil, a situação não é diferente. Para especialistas, o número de feridos à bala por ano no país, comparável ao de uma guerra, virou epidemia, afetando de modo negativo o sistema público de saúde.
Entre os feridos recebidos no HPS, 63% eram de jovens entre 15 e 24 anos. O fato vem comprovar uma realidade que desafia a sociedade e as forças de segurança pública municipais, que é o envolvimento de pessoas, com cada vez menos idade, com armas de potencial letal, principalmente comprometidas com a organização de brigas de gangues e o tráfico de drogas. Os dados ainda revelam que 93% dos feridos são do sexo masculino, percentual que pode ser explicado pelo ímpeto do homem diante de uma situação de disputa, tão comum no ambiente marcado pela violência. Das vítimas que deram entrada no hospital devido a ferimentos ocasionados por tiro, no período analisado, 17 morreram. Todas são do sexo masculino, e a maioria, 12 delas, com idade entre 15 e 34 anos.
Para o diretor do HPS, Clorivaldo Rocha, o número de óbitos serve de alerta para autoridades públicas e de segurança. "Quando se fala em violência urbana, as estatísticas não funcionam. A partir do momento que tenho uma situação de violência, mesmo que seja um fato isolado, ou um número aparentemente reduzido, isso funciona como alerta, exigindo avaliação dos aspectos socioeconômicos e sociais, para se chegar até a razão dessas mortes, principalmente com pessoas tão jovens", adverte o médico. Conforme Clorivaldo, a situação de ferimento por projétil faz parte do grupo de ocorrências provocadas por causas externas, que, atualmente, é o maior motivo de morte na população abaixo de 40 anos de idade, em todo o Brasil. Dentro dessas causas externas, estão as situações de homicídio, suicídio, acidente, ferimento por arma branca e por arma de fogo.
94 mortes por arma de fogo por dia
O sociólogo e coordenador da campanha de desarmamento da ONG Viva Rio, Antônio Rangel, considerado uma das maiores autoridades em matéria de arma de fogo na América Latina, destaca que este tipo de dispositivo deve ser tratado como questão de saúde pública no Brasil. Ele publicou, por meio da Viva Rio, o livro "Arma de fogo: proteção ou risco?", na qual revela que o gasto com internação de cada ferido à bala no país fica em R$ 5.564, considerando uma média de sete dias de hospitalização. "São R$ 795 por dia. É muito mais do que outros casos hospitalares, causando um grande impacto, roubando dinheiro do tratamento de outras situações, como de vítimas de atropelamento", afirma o sociólogo. Ele ainda pontua que, no Brasil, morrem 94 pessoas por dia devido à arma de fogo. Para comprovar o tamanho do problema, Antônio Rangel compara o quadro nacional com a Grã-Bretanha, onde 87 pessoas baleadas perdem a vida a cada ano. "É uma situação descontrolada, pois, no Brasil, são 16 milhões de armas de fogo circulando, sendo que 90% estão nas mãos da sociedade e não nas das forças de segurança pública. A média internacional é de 59% das armas nas mãos da sociedade. Pior, dos 90%, 48% são ilegais, ou seja, a metade, e o Estado não sabe com quem elas estão, onde estão e de que tipo são."
A realidade brasileira, como aponta o especialista, é extremamente preocupante. "Existe uma banalização do uso da arma. O roubo de um tênis é resolvido com um tiro. Assim, o jovem acaba sendo vítima e algoz ao mesmo tempo." Segundo o IBGE, no Rio de Janeiro, os homens vivem uma média de 62 anos, as mulheres 74. "São 12 anos de diferença. A arma de fogo é a explicação para a falta de equidade. No país, a diferença é de seis anos. Isso mostra que a vitimização por tiro atingiu status catastróficos. Se são 94 por dia, são 34.300 homicídios de arma de fogo por ano. Este número absoluto é o maior do mundo. Em nenhum outro país, se mata tanto por tiro como no Brasil", constata, acrescentando que 64% dos homicídios são de arma de fogo e 20% de arma branca.
De acordo com o sociólogo, até há 30 anos, havia mais feridos à bala do que mortos. "Hoje, as armas tornaram-se tão poderosas que há duas vezes mais mortos do que feridos. Atualmente, estes instrumentos explodem as pessoas. Quando se leva um tiro é mais provável que se morra. De quatro pessoas que são baleadas no Brasil, três vão a óbito", afirma o especialista, completando que a arma branca exige uma proximidade, dando a possibilidade de defesa da vítima. "Com a arma de fogo, pode-se matar alguém a distância, sem chances de defesa. Quando alguém leva um disparo, a probabilidade de morte é de 75%, já quando se é esfaqueado, a probabilidade de morte é de 34%. A arma de fogo hoje é devastadora."
Tráfico de drogas facilita acesso às armas
Para retirar as armas de circulação, a PM realiza operações e abordagens de cidadãos em atitudes suspeitas nos locais de maior incidência criminal. Este ano, de janeiro a agosto, conforme dados da 4ª Região da Polícia Militar (RPM), foram apreendidas 177 armas em Juiz de Fora, o número é 16% superior ao que foi recolhido no mesmo período do ano passado, quando 150 foram retiradas das ruas. Para o assessor de comunicação da 4ª RPM, major Sebastião Justino, o fato de armas chegarem às mãos de adolescentes e jovens está relacionado ao roubo desses instrumentos em casas e à impossibilidade de menores de 18 anos serem responsabilizados criminalmente. Ele ainda afirma que o envolvimento com o tráfico de drogas tem levado muitos jovens à criminalidade. "Em função da venda de drogas e do próprio consumo, muitos se tornam infratores e vítimas."
Além da ligação com o tráfico, o sociólogo Antônio Rangel afirma que a venda ilegal é outro fator que facilita o acesso ao armamento. Ele cita que no Brasil, assim como nos Estados Unidos, principalmente à época do Governo Bill Clinton, fabricantes e lojistas nada fazem a fim de evitar a comercialização clandestina. "Temos um sistema de fiscalização que permite a compra de armamento a quem não pode comprar, burlando a lei. Isso despeja no mercado armas em mãos indevidas e, consequentemente, gera prejuízos ao SUS."

