“Esse acidente não começou agora, mas antes dessa chuva”, diz Luiz do Carmo da Silva, 59 anos, morador do Bairro Tiguera, na região Sudeste de Juiz de Fora, referindo-se ao deslizamento de terra que ocorreu na Rua José Francisco Garcia na noite de segunda-feira (23). O temporal que atingiu o bairro fez uma parte do barranco ceder sobre casas, deixando quatro mortos e várias famílias desalojadas no local.
Os moradores do bairro contam que há meses solicitavam auxílio do poder público para resolver a falta de manutenção de uma passagem construída em meio ao barranco, usada como atalho até a rua de cima. Nesse trecho, como relataram, houve os primeiros deslizamentos, mas, até então, menores. Além disso, infiltrações recorrentes nas casas também passaram a preocupá-los.
‘Vi as casas tapadas por terra’
Morador do Tiguera, David Bento, 38 anos, conta que na noite de segunda-feira (23) ouviu um estrondo alto. Logo depois, seus vizinhos passaram alertando sobre o deslizamento de terra que arrastou uma estrutura de concreto sobre quatro casas na Rua José Francisco Garcia. “Quando cheguei aqui embaixo, vi as casas tapadas por terra, e os moradores resgatando um amigo nosso, que graças a Deus está vivo, mas infelizmente perdeu a mãe.”
Como conta, ele nasceu e foi criado no bairro, e conhece todos os moradores desde criança. “Nunca aconteceu isso, mesmo chovendo várias vezes. Mas, de uns meses para cá, começaram a aparecer uns problemas ali na região atingida.” Segundo ele, os moradores das proximidades da área afetada reclamavam de infiltração nas casas.
‘A terra veio e me levou tudo’
Uma das casas atingidas naquela noite foi a de Marcos Maurício dos Santos, 70 anos, que morava no local há mais de 30 anos. Com o deslizamento do barranco sobre sua casa, ele conseguiu se salvar, mas sua esposa, Neuza Mageste de Paula Santos, que estava em outro cômodo, morreu soterrada. Seu filho, que estava em outra casa, construída no mesmo terreno, foi resgatado dos escombros com vida e segue em recuperação.
“A terra veio e me levou tudo. Tive um prejuízo incalculável. Fiquei sem roupas, mas já mandaram algumas para mim. A gente fica muito triste, mas o bairro todo está me dando apoio. Estou ficando na casa de parentes. Eu tô meio triste, tentando voltar aos pouquinhos, né?”, conta Marcos.
‘Isso começou antes, tem urgência’
Na rua de cima, a Florentina Garcia o morador Luiz do Carmo da Silva, 59 anos, teve a casa em que vive e aquelas que alugava interditadas pela Defesa Civil após o deslizamento. Parte de uma das casas está cedendo, com risco de desabamento sobre o barranco. Ele e os outros moradores do terreno precisaram evacuar as moradias às pressas e se mudar. Todos desejam retornar às suas casas, mas aguardam que orientações e obras de contenção sejam realizadas com urgência — antes que um novo deslize possa destruir o que sobrou.
Como conta, a passagem construída em meio ao barranco já vinha trazendo problemas para os moradores. “Já estava trincando, tinha rachaduras e falhas no escoamento da água. Depois, com uma outra chuva, caiu a primeira parte dessa estrutura e do barranco, então, cobriram com uma lona. Agora, imagina se descerem esses três prédios aqui, a rua também pode cair e levar o morro inteiro. Isso começou antes dessa chuva forte, tem urgência”, alerta.
PJF afirma seguir com vistorias conforme prioridade
De acordo com a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), a atuação no Bairro Tiguera segue os mesmos critérios técnicos adotados em todas as áreas atingidas pelas chuvas, com monitoramento, vistorias e definição de interdições, liberações e intervenções sempre com foco na preservação de vidas. “As vistorias da Defesa Civil continuam sendo realizadas conforme critérios de prioridade, diante do elevado volume de ocorrências no município”, declarou em nota.
Segundo a orientação, diante de trincas, estalos, movimentação de terra ou qualquer sinal de insegurança, os moradores devem deixar imediatamente o imóvel e acionar a Defesa Civil pelo telefone 199. “O retorno às residências só pode ocorrer após nova análise técnica. Não é seguro retirar terra, lama, entulho ou fazer qualquer intervenção por conta própria em áreas de encosta ou deslizamento.”
O órgão informou que os serviços de limpeza, remoção de terra, desobstrução, reparos de rede e demais intervenções dependem de avaliação técnica prévia e da estabilização das áreas afetadas, para garantir a segurança da população e das equipes. “No caso da rede de esgoto, a Cesama esteve no ponto do deslizamento nas proximidades da Rua José Francisco Garcia, mas, por segurança, não foi possível executar os reparos na tubulação rompida. A manutenção será realizada após a estabilização do terreno”, afirmou.
Quanto às obras de contenção ou outras soluções definitivas, a Prefeitura informou que “a definição de cada intervenção depende da consolidação dos levantamentos técnicos em campo e dos critérios e processos legais para que as intervenções possam ocorrer”.
Sobre o apoio às famílias desabrigadas e desalojadas, o órgão afirma manter acolhimento, assistência em saúde e apoio psicossocial. Como afirmou, as famílias desabrigadas estão sendo cadastradas nos abrigos, e as desalojadas devem procurar o CRAS para cadastro, possibilitando benefícios disponíveis.
