
No dia 25 de janeiro, ônibus perdeu força e parou. Passageiros tiveram que deixar o veículo
Interrupções por causa de defeito têm sido comuns
Realizar o trajeto entre Juiz de Fora e Rio de Janeiro de ônibus se tornou sinônimo de medo. Veículos quebrados, perda de freio na Serra de Petrópolis e má condição dos coletivos são apenas alguns dos relatos de centenas de passageiros, que dependem quase exclusivamente da União Transporte Interestadual de Luxo, a Util, para se deslocar entre as cidades. A situação é tão grave que aqueles que utilizam o serviço com frequência garantem que a chance de ter algum problema é maior do que a de fazer uma viagem tranquila. Prova disso é que a Util foi a empresa do setor mais reclamada do Brasil na Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT) em 2014. Nos últimos quatro anos, a empresa saltou da oitava ocupação em número de denúncias sobre problemas com o serviço de transporte coletivo para a primeira posição, com 941 registros. Em 2015, foram 1.386 reclamações contra a empresa, mas a ANTT não soube informar em qual posição a Util se encontra, visto que o relatório só será finalizado em meados de abril (ver quadro). A gravidade é ainda maior levando em consideração a importância da empresa, responsável por um dos trajetos mais realizados do país, com 419.522 passageiros transportados em 2015, sendo 13% a mais que no ano anterior. Segundo a agência, foram lavrados 1.626 autos de infração contra a viação somente no ano passado.
A Tribuna recebe, com frequência, dezenas de reclamações a respeito do tema. A situação já acontece há anos e inclusive foi tema de outras reportagens. Contudo os problemas têm ficado cada vez mais recorrentes, a ponto de os usuários criarem página no Facebook (Reclamações sobre a Util) e grupo de WhatsApp para reunir e compartilhar as denúncias. A última iniciativa do grupo foi criar um e-mail destinado, exclusivamente, ao recebimento deste tipo de informações, bem como documentos e fotos que comprovem cada situação vivida. Conforme um dos organizadores, o designer Vinicius Morais, as denúncias serão encaminhadas ao Procon, que deverá analisar os documentos e acionar o Ministério Público. “Desde que os grupos nas redes sociais foram criados, mais de 350 reclamações já foram realizadas”, disse. Ele ressalta que, aqueles que tiverem tido problema com a empresa podem enviar seu relato com provas, caso haja, para reclameaquitransporte@gmail.com.
Polícia é acionada
Vinicius, que vai para o Rio de Janeiro pelo menos uma vez por semana a trabalho, conta que, somente este ano, foram três situações de “perda de freio” de ônibus da empresa na Serra de Petrópolis e outras dezenas de vezes em que os ônibus quebraram. Em uma das ocorrências mais graves, no dia 6 de janeiro deste ano, os passageiros saíram do Rio de Janeiro às 18h e só conseguiram chegar em Juiz de Fora mais de dez horas depois, às 4h30. “O ônibus já saiu quebrado da rodoviária, e só andava a 40km/h. Ele parou duas vezes no trajeto porque o motor estava superaquecido. Em Petrópolis, paramos de vez, e disseram que não tinha veículo extra para enviar. Por volta das 20h, acionamos a Polícia Rodoviária Federal, que se recusou a nos atender. Queríamos exigir nossos direitos, como alimentação e hospedagem, e procuramos a Polícia Civil da cidade. O delegado não quis fazer boletim de ocorrência, mas ligou para a Util exigindo um novo veículo, que foi mandado. Se o delegado não tivesse feito isso, acho que passaríamos a noite toda lá”, explicou Vinicius. Ainda segundo ele, no fim da noite, a PRF procurou os usuários e fez uma declaração sobre o ocorrido. O documento é um dos que será utilizado pelo grupo na luta contra a empresa.
Veículo é trocado três vezes em uma mesma viagem
Em outro caso, ocorrido no ano passado, o designer Vinicius Morais conta que se recusou a viajar em um ônibus que apresentava mofo. “Chamei um funcionário da ANTT e informei que não embarcaria. Acabou que ninguém quis ir, e enviaram um novo ônibus. Resultado: 15 minutos depois que saímos da rodoviária, ele arrebentou a correia, e pediram um terceiro veículo.” Mas o problema não parou por aí, segundo o passageiro. Chegando na altura de Petrópolis, o vidro frontal do veículo quebrou e cortou um passageiro. “Demorou mais quatro horas e meia para resolver, e o resultado foi todo mundo se dividindo entre os ônibus que passavam”, relata.
Já outro internauta do grupo Reclamações sobre a Util, no Facebook, contou ter chegado 45 minutos atrasado em Juiz de Fora, em uma viagem vinda de Macaé (RJ) no dia 5 de fevereiro. O motivo seria que o motorista do ônibus, que era da empresa Brisa (a serviço da Util), errou o caminho. Além disso, ele afirmou que o coletivo estava com cheiro ruim, banheiro sujo e ar-condicionado ineficiente. Em outra denúncia, passageiros publicaram, nas redes sociais, uma foto de um ônibus da empresa parado em um dos pedágios da BR-040 para resfriar o motor. “Eu me pergunto até quando a Util vai disponibilizar carroça para o povo viajar ao invés de ônibus de verdade e de qualidade?”, indaga outro internauta.
Ainda entre as reclamações dos internautas, um deles informou que utiliza o serviço desde 2010 para viagens de Juiz de Fora a Macaé e listou uma série de problemas que, segundo ele, se repetem a cada ano. Entre eles está a falta de cumprimento de horários, confusões em itinerários, precariedade dos veículos e preços abusivos. Em agosto do ano passado, passageiros relataram ter vivido momentos de pânico quando começou a sair muita fumaça do motor de um ônibus, 15 minutos após sair da rodoviária no Rio. O motorista teria parado o veículo, e os passageiros desceram com medo, sendo obrigados a esperar por meia hora até que um novo veículo fosse enviado.
O leitor Alexandro Alonso registrou um incidente ocorrido com ele e outros passageiros no último dia 25 de janeiro. Por volta das 17h, quando o ônibus estava chegando em Juiz de Fora, ele perdeu força e parou. Os passageiros precisaram descer do veículo e ficaram às margens da rodovia. “Não sei se o ônibus foi substituído por outro ou o que os passageiros fizeram, pois arrumei carona com um desconhecido na BR mesmo.” Existe também um abaixo-assinado on-line, que conta com 154 assinaturas, contra os “maus serviços prestados pela Util”. O documento é destinado à ANTT e à empresa.
Empresa alega que problemas estão resolvidos
Por meio de sua assessoria, a Util informou que é uma empresa atenta às necessidades dos seus clientes e que está aperfeiçoando os processos de manutenção e renovando sua frota, incluindo aquela que opera a linha Rio de Janeiro/Juiz de Fora. “Nos colocamos abertos, através de um representante, para atender o grupo e ouvir suas demandas em data e local a definir, assim como a disposição para apresentar aos mesmos todo o trabalho realizado pelo grupo.” Sobre os problemas denunciados na reportagem, a empresa disse que as situações mencionadas pelo grupo já foram corrigidas. Contudo, os usuários rebatem as informações. “Já tentamos dialogar várias vezes com a empresa, mas não adianta. E o maior problema é a falta de fiscalização por parte da ANTT, porque a Util faz o que ela quer. Foram vários aumentos de passagens somente no ano passado, não é possível que não tenha nada errado. E o pior é que, a cada dia que passa, a empresa só piora e sucateia ainda mais a frota”, afirma o designer Vinicius Morais.
A Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT) informou à Tribuna que as linhas regulares de sua competência são fiscalizadas nos terminais rodoviários, observando-se critérios de higiene, conforto e segurança. Também são realizadas fiscalizações em forma de comando operacionais durante o trajeto dos serviços executados. A agência disse que as denúncias recebidas por sua ouvidoria são respondidas no prazo de cinco dias úteis e, após avaliação, podem ser objeto de diligências e apurações que orientam a execução das ações da fiscalização. Sobre a precariedade do serviço, a ANTT informou que consta, no site da agência, pesquisa de satisfação na qual não é demonstrada índice abaixo da média para a empresa Util. No entanto, a ANTT informou ainda que, somente no ano passado, foram lavrados 1.626 autos de infração para a empresa, sendo dois deles cancelados até o momento. Como decorrência desses autos, já foram emitidas 87 notificações de multa.
Valores
Ainda conforme a ANTT, Util e Brisa são as empresas autorizadas a realizar o trajeto para o Rio de Janeiro, sendo que esta última também realiza viagens para Duque de Caxias e Niterói. Os ônibus da Util variam de convencional (R$ 29,34), executivo (R$ 36,38) e semileito (R$ 40,20), sendo que nestes valores não está incluso ICMS, taxa de embarque e pedágios. Já com relação ao aumento no valor das passagens, a agência informou que as tarifas estabelecidas são realizadas conforme previsão na Resolução 1.627/06, sendo empregada a fórmula paramétrica para o seu cálculo e considerada a variação dos itens: combustível, lubrificante, rodagem, pessoa, peças e acessórios, veículos e despesas gerais. O reajuste ocorre em julho de cada ano. A agência informou ainda que, por meio da Resolução 4.953, facultou-se às empresas utilizar um fator de acréscimo tarifário nos serviços diferenciados (executivo, semileito, leito).

