
Pedestre se arriscam no cruzamento da Espírito Santo com Rio Branco
A disputa por espaço e a correria nas ruas levam pedestres e motoristas a se enfrentarem diariamente no trânsito. Quem perde, em geral, são os pedestres, e o resultado é o aumento no número de atropelamentos. Só este ano, já são 375 atropelados, entre janeiro e agosto – sem registros de morte no local -, o que significa que mais de uma pessoa têm sido atingidas diariamente. O número já supera em 21% o total de ocorrências de todo o ano passado, quando aconteceram 297 atropelamentos. Os dados são do Pelotão de Policiamento de Trânsito (PPTran). Para verificar o motivo do crescimento, a Tribuna foi às ruas e flagrou o comportamento dos juiz-foranos. Nos cruzamentos, muitos transeuntes já não aguardam mais a passagem dos veículos nas calçadas e, impacientes, esperam na própria pista, arriscando-se a centímetros dos automóveis. Por outro lado, os condutores ignoram a ação arriscada dos pedestres e aceleram, inclusive no sinal amarelo, dando exemplos de desrespeito aos mais fracos. Embora tenha a preferência, o transeunte também precisa respeitar a lei e usar a faixa de travessia, além de observar o semáforo.
O mês de setembro, que ainda não entrou nas estatísticas, registrou a primeira morte deste ano. O acidente aconteceu em plena Semana de Trânsito, na BR-040, no trecho entre os trevos de acesso aos bairros Salvaterra e Aeroporto. O levantamento sobre mortes só consideram os óbitos ocorridos no local do acidente, ignorando os casos registrados em hospitais.
O aumento de casos deixa as autoridades em alerta. "Este número vem crescendo gradativamente ao longo de dez anos, sobretudo em vias centrais, como as avenidas Rio Branco e Brasil", revela o comandante do PPTran, tenente Jean Michel Amaral. Segundo especialistas, o quadro chama atenção para a imprudência de condutores e pedestres. "As normas precisam ser cumpridas, independente de como o cidadão participa do trânsito. Há abusos de ambas as partes. E o pedestre, que é mais vulnerável aos acidentes, deve se lembrar de zelar pela própria segurança", pondera o subsecretário de Mobilidade Urbana, Carlos Eduardo Meurer.
Para o tenente Jean Michel Amaral, o fato de o trecho da Avenida Rio Branco que corta a área central da cidade ser líder em número de atropelamentos também aponta para o desleixo dos passantes. "Esta parte da via é completamente semaforizada e há sinalização horizontal e vertical. Cada caso é um caso, e é claro que não se pode isentar os condutores de responsabilidade. No entanto, é muito comum ver pessoas se arriscando ao atravessar a rua."
O chefe de fiscalização da Settra, Jorge Lima, informa que a travessia fora da faixa de pedestres e o desrespeito ao sinal de "pare" do semáforo estão entre as irregularidades mais praticadas por quem circula a pé. "Além disso, muitos têm falta de atenção ou tentam atravessar a rua correndo na frente ou entre os carros. Erros como estes podem provocar não só atropelamentos, como outros acidentes. Uma freada brusca para evitar atingir alguém pode causar um engavetamento de veículos, por exemplo." Ele destaca, contudo, que há dificuldades em coibir estas ações, já que a legislação que prevê autuação de pedestres nunca foi regulamentada.
Prioridade
De acordo com o capítulo IV do Código de Trânsito Brasileiro, o transeunte, ainda que esteja errado, sempre tem prioridade em relação aos veículos. "A legislação preza pela vida, e o pedestre é o elemento mais vulnerável do trânsito. Em um acidente, tem apenas o próprio corpo como escudo", explica o comandante do PPTran. Para o subsecretário de Mobilidade Urbana, este é mais um motivo para redobrar a atenção ao atravessar a rua. "A vulnerabilidade é um ponto-chave nesta discussão. O pedestre deve respeitar as normas de trânsito e estar sempre atento ao movimento dos veículos, principalmente pelo fato de ser uma vítima em potencial", ressalta Meurer. Jorge Lima destaca que é preciso continuar investindo em ações de conscientização da população."Todo condutor é pedestre também. Ao guiar um veículo, muitos se esquecem das fraquezas de quem circula a pé e não colaboram, não são gentis. Por outro lado, os transeuntes também desrespeitam o espaço do condutor. A mudança destas condutas é possível e deve ser feita por meio da educação, desde a idade escolar."
Motocicletas lideram ranking de acidentes
De acordo com levantamento do Pelotão de Policiamento de Trânsito (PPTran), Juiz de Fora tem, atualmente, 25 mil motocicletas e 140 mil automóveis em circulação. O comandante do pelotão, tenente Jean Michel Amaral, estima que, nos últimos dez anos, o número de motos tenha aumentado até cinco vezes. Embora não possua dados brutos, ele afirma que a quantidade de atropelamentos envolvendo motos é quase a mesma que a de ocorrências com automóveis. "Proporcionalmente, isso indica que mais motociclistas estão envolvidos em acidentes. Isso é alarmante porque, se o número destes veículos aumentar, as motos serão as grandes vilãs nos casos de atropelamento na cidade", destaca.
Especialista em transporte e trânsito, José Luiz Britto Bastos também relaciona a crescente quantidade de motocicletas a esse tipo de acidente. "O veículo é mais leve e, normalmente, circula com mais velocidade do que os automóveis, o que já é arriscado. Além disso, há a facilidade de passar por entre os automóveis, muitas vezes ocupando o espaço de travessia dos pedestres." O tenente Amaral ressalta que estes problemas podem ser agravados pela crescente disputa por espaço nas vias, que tende a ficar maior com o aumento do número de motos. "O espaço vai ficar cada vez menor, e na busca pela passagem, o motociclista acaba ‘costurando’ o caminho entre veículos e pedestres."
Dificuldade de travessia assusta pedestres
Alguns pontos da cidade oferecem riscos à travessia mesmo quando as normas de trânsito são respeitadas. É o caso do trecho da Garganta do Dilermando, na Avenida Rio Branco, no Manoel Honório, Zona Leste. "Mesmo com a faixa de pedestres, o fluxo de veículos é muito intenso e variado, pois há ônibus, motos e automóveis circulando. Com isso, o pedestre fica prejudicado, e é natural que encontre dificuldades para atravessar", destaca o especialista em transporte e trânsito, José Luiz Britto Bastos. O problema é enfrentado constantemente pelo vendedor Daniel Henrique Figueira, 28 anos, que trabalha na região. "O pedestre espera muito tempo para conseguir atravessar e, muitas vezes, se arrisca entre vários veículos."
Problema semelhante é enfrentado por quem mora ou circula pela Avenida Brasil, no trecho próximo à Ponte Nelson Silva, no Poço Rico, região Sudeste. "As faixas são muito longe umas das outras, e passa carro o dia todo. A gente tem que aproveitar as brechas, mesmo sendo ariscado", revela a doméstica Marilza Lopes, 43. Na Rua São Mateus, a distância entre as faixas de pedestres é agravada pelo fato de a via ser de mão dupla. "Procuro atravessar quando o sinal está fechado, mas já fiquei presa entre uma fileira e outra várias vezes. Os condutores continuam acelerando mesmo com a luz vermelha", reclama a estudante Luana Seixas, 19. A situação se repete em trecho da Avenida Independência, entre a Rua Espírito Santo e a Avenida Getúlio Vargas, onde há extensão sem calçada. "Ficamos à mercê da boa vontade dos condutores", diz a aposentada Maria Bittar, 85.
Segundo o chefe de fiscalização da Settra, Jorge Lima, pelo Código de Trânsito Brasileiro, o pedestre é obrigado a usar faixas de travessia que estejam a uma distância máxima de 50 metros de sua posição. "O problema é que, nem sempre, há sinalização a este alcance", reconhece.
Travessia segura
O subsecretário de Mobilidade Urbana, Carlos Eduardo Meurer, informa que a Settra está investindo em intervenções para maior segurança no trânsito, com atenção especial à travessia de pedestres. Parte das ações está incluída no projeto de reurbanização da Avenida Rio Branco. "Haverá alterações na geometria da avenida, visando melhorar o trânsito de veículos e pedestres. Além disso, serão implantadas mais faixas para travessia, semáforos e sinalização horizontal e vertical." Jorge Lima ressalta que a intenção é melhorar as condições de travessia em toda a cidade, mas alerta que o pedestre deve estar sempre atento ao cruzar uma via. "Deve-se evitar curvas e esquinas, onde a visibilidade do condutor é limitada, e a travessia em diagonal, que aumenta o tempo de passagem pela rua. As faixas devem ser usadas sempre que possível, e as normas de trânsito devem ser respeitadas sempre."

