Corrigida em 21/08/2014 às 15h48
Chapéu D’Uvas começa a ser utilizada como manancial de abastecimento de Juiz de Fora este mês. O início do funcionamento da represa, com capacidade dez vezes maior do que a João Penido, está marcado para o próximo dia 22. A previsão é de que ela seja suficiente para garantir o fornecimento da água no município por pelo menos mais 30 anos. Esta situação é considerada confortável e até diferente de muitos municípios do estado, onde 140 cidades já decretaram estado de emergência em razão da seca e da estiagem. Mesmo assim, especialistas apontam que o juiz-forano precisa realizar o uso consciente da água, e um dos desafios é reduzir o consumo per capita. Hoje cada cidadão utiliza, em média, 159 litros do produto por dia na cidade, enquanto a Organização das Nações Unidas (ONU) recomenda como suficiente o uso de 110 litros diários. No entanto, a média da cidade é igual à do estado e está abaixo da média de gasto nacional, que é de 167,5 litros por dia.
Soluções alternativas existem, mas não são incentivadas. O técnico em eletrônica de Juiz de Fora Alexandre Pereira Pires, 42 anos, foi premiado, no ano passado, em um concurso estadual que incentivava pessoas, instituições e empresas a desenvolverem projetos de preservação de recursos hídricos. Sua ideia parte da utilização da água da chuva em máquinas de lavar roupas que, depois, poderiam ser reutilizadas nas descargas dos banheiros. O projeto foi implantado em um condomínio na cidade de Niterói (RJ), mas não em Juiz de Fora. Segundo ele, houve dificuldade em fazer com que 38 famílias do seu edifício entendessem o investimento a longo prazo. "Dá até vontade de tirar do próprio bolso e fazer. Custa cerca de R$ 15 mil, que seriam utilizados nas compras da bomba, cisterna, caixa e gerador de ozônio (para o tratamento da água). Ela só não poderia ser utilizada para beber, mas para outros fins, inclusive limpeza de calçada e garagem, não há qualquer tipo de problema." Conforme Alexandre, o sistema consegue economizar R$ 700 em um grupo de cem pessoas, o que significa uma redução entre 25% e 30% na conta.
Um trabalho semelhante tem o engenheiro civil Wadih Garios, 54. Ele desenvolveu sistemas que estão sendo patenteados em vários países, como China, Estados Unidos e Índia, que permitem não apenas captar a água da chuva, como eliminar as impurezas. Por meio de dispositivos criados pelo engenheiro, autor de outras invenções, a primeira água da precipitação que entra na rede com cor turva e carregando materiais como folhas, é eliminada. Atualmente sua ideia é utilizada em uma quadra de futebol administrada por ele, no Centro. "Com a reserva de 80 mil litros, eu consigo ter água da chuva o ano inteiro para os chuveiros, pias e lavagem das roupas utilizadas na quadra. Só não deixo a água nos bebedouros e nos tanques destinados à limpeza de alimentos, nos quais meus clientes fazem churrasco." Mesmo assim, existe a possibilidade de tratar a água com cloro para estas finalidades. Pelas contas da Cesama apresentadas por ele, o consumo de água no local reduziu à metade.
Conscientização
Para o doutor em hidráulica e saneamento Marconi Fonseca de Moraes, professor do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFJF, a redução do consumo só será possível com um forte trabalho de conscientização. "Desenvolvo um projeto de extensão em escolas do município onde mostramos aos alunos justamente a importância de economizar água. Explicamos o que é bacia hidrográfica e incentivamos o desenvolvimento de campanhas com eles dentro da escola, mostrando a utilização correta da descarga e das torneiras. Além disso, eles são orientados a transmitir a mensagem para seus pais. Este é um primeiro passo", explicou. No entanto, o especialista afirma que faltam outros incentivos com a participação dos órgãos públicos em propagandas, já que a situação confortável de hoje pode não ser a de amanhã. "Vejo poucas propagandas sobre o uso consciente do recurso. Penso ser importante falar mais disso."
Outro ponto mencionado pelo engenheiro é a necessidade de se criar políticas públicas de incentivo a reutilização da água. "Em Curitiba (PR), por exemplo, a Prefeitura só libera o ‘Habite-se’ de um imóvel após ser apresentado projeto de captação e armazenamento de água da chuva. Mas é uma questão cultural que precisa ser mudada. A redução no consumo parte de um trabalho de longo prazo, que precisa ser iniciado."
Outras represas do município devem ser poupadas
A partir do dia 22 deste mês, a Cesama vai inaugurar e iniciar a operação da Represa de Chapéu D’Uvas, embora ainda em caráter de teste, como manancial de abastecimento. O lago onde a água é armazenada tem um volume dez vezes maior que o da Represa de João Penido. Na prática, isso significa que, mesmo se a cidade chegar a uma população superior a 900 mil habitantes, os recursos existentes hoje serão suficientes para atender a demanda. Conforme o diretor de Desenvolvimento e Expansão da Cesama, Marcelo Mello do Amaral, Chapéu D’Uvas tem um potencial tão grande que não será necessária utilizar toda sua capacidade. A previsão é que, já no próximo verão, principalmente entre janeiro e fevereiro, meses de maior consumo, sejam retirados do local 900 litros de água por segundo, sendo que há a possibilidade de captar até quatro mil litros por segundo. Para se ter ideia, para atender toda a cidade, a companhia utiliza atualmente 1.500 litros de água por segundo, dividido pelas três represas em operação: São Pedro, João Penido e Ribeirão do Espírito Santo, que é um manancial de passagem, do qual é retirada a água corrente.
"Com Chapéu D’Uvas, vamos conseguir poupar as outras represas, deixando-as em níveis satisfatórios para o período de estiagem. Guardada a mesma média de consumo e crescimento, temos, com segurança, um horizonte de 30 anos sem problemas de água." Além da nova adutora e de uma estação de bombeamento, já inaugurada, atualmente a Cesama trabalha na ampliação da Estação de Tratamento de Água Walfrido Machado Mendonça, que irá receber a nova oferta de água de Chapéu D’Uvas, além de contribuir para a implantação da subadutora de São Pedro e do reservatório do Bairro Caiçaras, que terá capacidade para cinco milhões de litros.
Situação atual
Ainda sem a utilização do novo manancial e em pleno período de estiagem, há em Juiz de Fora água suficiente para que o cidadão utilize o recurso sem sacrifício. Hoje São Pedro, que abastece cerca de 10% da população, está com 55% de sua capacidade preenchidas, e João Penido, responsável por 50%, tem 60% da água que consegue comportar. "Fazemos manobras no sistema para que os índices não caiam muito diariamente. À noite, por exemplo, diminuímos a vazão de João Penido e aumentamos da CDI (Ribeirão do Espírito Santo). Acreditamos que vamos chegar ao próximo período de chuvas com a João Penido em torno dos 40%. No caso de São Pedro, é mais difícil estimar, porque é pequeno e qualquer chuva volta a subir o nível. Não temos preocupações. O problema que tivemos, no início do ano, quando faltou água em alguns bairros, foi em razão do atendimento à demanda, e não da falta de água na represa. Para evitar que isso volte a ocorrer, investimos em obras", garantiu Marcelo.
Manancial para o futuro
Para o engenheiro especialista em transporte e meio ambiente e professor da UFJF, Cézar Henrique Barra, Chapéu D’Uvas deveria ser um manancial para o futuro, e não para o presente. Em sua opinião, o aproveitamento desta água ocorrerá agora por uma questão política, que envolve a especulação imobiliária nas áreas de São Pedro e João Penido. Para ele, construções irregulares às margens destas represas interferem no armazenamento e na qualidade da água. "As margens não são protegidas, embora sejam de preservação permanente (APP)." Segundo ele, seria ideal ter vegetação na APP, também chamada de mata ciliar ou mata ripária. Isso porque suas raízes funcionam como filtro, retendo nutrientes, matéria orgânica, sólidos e evitam que o solo seja carreado para dentro do curso d´água. "A verdade é que poderia haver investimentos, tanto em São Pedro como em João Penido, para que elas fossem utilizadas por mais tempo." Entre os investimentos, Barra cita ampliações de estações de tratamento e realizações de operações de dragagem.
Lavação de calçada em discussão
A preocupação com o futuro do abastecimento de água da cidade fez com que o vereador Antônio Aguiar (PMDB) apresentasse um projeto de lei que tem causado polêmica. Trata-se da punição, por meio de multa, da pessoa que utilizar água tratada para lavar fachadas e calçadas. O projeto entrou em primeira discussão na Câmara Municipal, mas foi retirado de pauta para que o vereador discutisse e explicasse melhor sua ideia à população, além de adequar melhor as formas de fiscalização, já que a matéria inicial previa denúncias feitas à Cesama, pela própria população, por meio do telefone 115. A previsão é que o assunto volte ao plenário na segunda quinzena deste mês.
Segundo o parlamentar, a lei não tem como objetivo a punição, e sim a conscientização de que a água é um recurso finito e que deve ser utilizado de forma racional. "Não quero que Juiz de Fora viva o drama de perder investimentos em função do abastecimento comprometido de água. Vejam só o que está acontecendo com São Paulo (onde a represa da Cantareira, responsável por fornecer água para mais de 14 milhões de pessoas, está praticamente seca, e há o sério risco de faltar água ainda este ano). Mesmo com Chapéu D’Uvas, teremos um horizonte de 30 anos, mas e depois? Precisamos que as pessoas entendam a importância de economizar. Os cidadãos precisam saber que uma mangueira de água para lavar calçada gasta cerca de 310 litros de água. Não queremos proibir ninguém de limpar suas propriedades. Uma boa varrição resolve. E em casos como limpeza de fezes de cachorro ou urina, dois ou três baldes são suficientes. Queremos chamar atenção para o uso racional e cuidadoso da água", explicou.
Aguiar também esclarece que, no argumento de seu projeto de lei, está claro que uma das ideias é estimular a criação de sistemas de reaproveitamento da água em futuras construções e naquelas já existentes. "Com a lei entrando em vigor, daremos tempo para a Prefeitura fazer campanhas educativas. Além disso, a primeira abordagem será sempre de advertência. Queremos que o contribuinte assuma a responsabilidade dele e entenda que uma lavação em calçada pode comprometer o abastecimento de até dois juiz-foranos."
