
Durante a estiagem, quando o volume de chuvas é menor, as consequências da ação do homem contra o Rio Paraibuna ficam mais evidentes. Nas últimas semanas, têm chamado atenção os bolsões de areia que se formaram no leito, principalmente em áreas próximas às saídas dos córregos. Com nível mais baixo, o assoreamento salta aos olhos, evidenciando a necessidade de promover dragagens, que é a retirada do excesso de sedimentos do curso d’água. No entanto, tal procedimento seria um paliativo, conforme afirmam especialistas ouvidos pela reportagem. O necessário, segundo eles, seria cuidar melhor do entorno do rio e dos seus inúmeros córregos de contribuição. Nesta matemática, quanto menos cobertos os contribuintes estiverem de vegetação e mais ocupados por moradias, pior será para o Paraibuna.
O professor da UFJF Pedro Machado, especialista em recursos hídricos, explica que o Paraibuna é o ponto mais baixo da sua bacia, por onde são levados todos os sedimentos produzidos nas encostas que, segundo ele, estão quase todas sem proteção da cobertura vegetal. “Esta situação, portanto, e infelizmente, é uma realidade de nossa bacia e se reflete em alguns pontos do rio, especialmente onde a declividade e a velocidade das águas são menores”, explicou.
O Rio Paraibuna recebe hoje, diariamente, água e esgoto dos córregos que cortam o perímetro de Juiz de Fora. Todo este líquido é diluído com a água vinda de Chapéu D’Uvas que, além de agora abastecer a cidade, também funciona como regulador do nível do rio. O que causa estas ilhotas, conforme Pedro Machado, não seria nem o esgoto, mas o material sólido que a água carrega. Em sua opinião, é preciso agir na causa, antes de tratar as consequências. “Teria que ter um trabalho de vegetação das encostas, obrigando aquele que faz exploração mineral proteger o entorno quando a área é abandonada.”
A opinião é compartilhada pelo engenheiro Cézar Henrique Barra, que coordena o curso de especialização em análise ambiental da UFJF. Em sua avaliação, seria necessário respeitar as Áreas de Preservação Permanente (APPs) dos córregos e dos rios, com a plantação de mata ciliar. “Esta matinha segura os sedimentos, funcionando como um filtro, limpando até a poluição do tráfego de veículos. É esta cobertura que evitaria a chegada dos sedimentos no rio”, garantiu.
Paliativo
Por se tratar de um procedimento com consequências em médio e longo prazo, os especialistas foram questionados da possibilidade de dragar este material do rio. Conforme Pedro, tal atividade seria um paliativo. Mas quando deixa de ser feita, pode haver a diminuição da capacidade do rio em transportar suas águas, principalmente no período chuvoso, contribuindo para as enchentes. “Esta pode ser, e deve ser, a causa maior a explicar a situação do Paraibuna hoje.”
Segundo Cézar, a dragagem deve ser licenciada, acompanhada dos órgãos ambientais e não pode ser rotineira, por se tratar de um processo que pode interferir na qualidade da água. “É um processo que deveria ser feito se não tivesse outro jeito. Apenas dragar não adianta, se faz necessário o reflorestamento nas áreas de proteção, a começar pela bacia dos córregos, onde ainda existem muitas áreas descobertas.”
Cesama tenta recursos para resolver problema
Para o diretor de Desenvolvimento e Expansão da Cesama, Marcelo Mello do Amaral, as ilhotas são causadas, principalmente, pela contribuição dos córregos, com as construções próximas aos leitos. “Qualquer escavação em um lote ou terreno acaba carreando no córrego até chegar ao Rio Paraibuna.” Segundo ele, a última retirada de sedimentos foi feita entre o fim de 2014 e 2015, de forma pontual, no trecho em frente à Polícia Federal, na região do Bairro Ladeira, Zona Leste. “A gente foca sempre na foz dos córregos. Quando percebemos que algo prejudica o escoamento ou traz perigos para as margens, atuamos pontualmente na tentativa de resolver a questão. Mas constatamos, ao longo dos anos, que a dragagem nem sempre é a melhor solução, até mesmo porque existe um processo natural de remoção destes sedimentos.”
Segundo o diretor, uma forma de impedir este assoreamento, que fica evidente na estiagem, é atuar em obras que melhorem o escoamento da água do rio. Ele explicou que um estudo foi iniciado em 2013 para resolver de forma definitiva o assoreamento, para que as dragagens não sejam necessárias no futuro. “Neste estudo, descobrimos o comportamento da água não apenas de forma visual como também no fundo. Neste primeiro levantamento, observamos, por exemplo, que na altura da Ponte Santa Terezinha o fundo é rochoso, se tornando uma barreira natural do escoamento da água.”
Para resolver a questão, uma possibilidade é readequar alguns pontos de forma que a vazão seja sempre a mesma, com intuito de transportar estes sedimentos naturalmente na água. “Ao longo de 2015, buscamos recursos junto ao Governo federal para custear este projeto, mas não fomos contemplados. Outra questão é que a crise hídrica, com o comportamento irregular das chuvas, dificultou a continuidade do estudo. Penso que, a partir do ano que vem, poderemos intensificar este levantamento.”
Chapéu D’Uvas
Perguntando se aumentar a vazão de Chapéu D’Uvas seria uma solução, o diretor explicou que não. Segundo ele, não existe a capacidade de ampliar este volume de água ao ponto de permitir uma auto limpeza do rio. No entanto, ele fala da possibilidade contrária. “Vamos monitorar, entre julho e agosto, para definir se uma dragagem pontual vai se fazer necessária. Por outro lado, se começar a chover muito e um eventual assoreamento causar riscos de enchentes, podemos segurar a água no manancial para fazer este trabalho pontual.”

