Pó pô pó, madame? Pó pô. O diálogo em bom e claro mineirês dá o tom simples e descontraído da composição vencedora do 3º Concurso de Marchinhas Carnavalescas de Juiz de Fora, realizado pela Funalfa, no último fim de semana. Depois de contagiar o público no salão, Cafezinho macho, de Flávio Ferraz Lima, ganhou o Prêmio João Cardoso, levando R$ 1.500. O segundo lugar ficou com Sonho real, de Bruno Nogueira, Diogo Milho e Carlos Fernando Cunha, contemplados com R$ 1 mil. Já Danniel Goulart recebeu R$ 800 pela terceira posição com Então fica assim. Premiada com a mesma quantia em dinheiro, Dionísia Moreira, 81 anos, foi escolhida a melhor intérprete da disputa por sua emocionante versão de Triste retorno, de Alfredo Toschi, já falecido. É uma alegria muito grande ter a idade que eu tenho e receber um reconhecimento desses, comemorou a cantora.
Doze canções foram selecionadas entre 74 inscritas, um recorde de participação da competição. É um grande barato ver a evolução que este projeto teve ao longo dos anos. Hoje, o salão está cheio, as pessoas vêm torcer pelas marchinhas. Isso é muito interessante porque, para uma geração, é o resgate de uma tradição, e para outras, não familiarizadas com o gênero, é a criação de uma nova, é a cultura acontecendo, avalia o superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, adiantando que, no ano que vem, a intenção é homenagear Armando Toschi, o Ministrinho, na premiação, em menção ao seu centenário.
Musicalmente também é possível notar composições melhores com o passar das edições, o que só fortalece o concurso, que pretendemos expandir a ponto de Juiz de Fora tornar-se referência na Zona da Mata, pontua Roger Resende, um dos idealizadores da iniciativa, que já anunciou a gravação de um CD com as concorrentes, a exemplo do que houve nas edições anteriores.
Mais do que mera conhecida de outros carnavais, a marchinha é um verdadeiro emblema do feriado mais brasileiro do ano, e o concurso juiz-forano, a exemplo de outros, como o da Fundição Progresso, no Rio, tem contribuído para que o gênero continue vivo. Juiz de Fora tem uma cena de compositores muito forte, e as marchinhas são um estilo musical que precisa ser perpetuado. O concurso tem sido um sucesso não apenas no resgate, mas na criação de novas marchinhas, renovando o gênero, diz o músico Fred Fonseca, um dos idealizadores da competição.
Segundo o também músico e pesquisador Márcio Gomes, Juiz de Fora já teve grandes compositores de marchinhas, e a retomada da produção de forma contínua pode trazer esta perspectiva de volta à cidade. Tivemos Paulo Pires, Oceano Soares, Djalma Carvalho, Alfredo Toschi e diversos outros nomes que fortaleceram Juiz de Fora na criação de marchinhas. Ter essa possibilidade novamente tem uma relevância musical muito grande.
‘Parte da vida de todo mundo’
Desde a inauguração do estilo com Ó abre alas, de Chiquinha Gonzaga, em 1899, mais marchinhas conquistaram gerações e gerações de foliões, com uma receita de simplicidade, bom humor e refrões que agarram. A riqueza delas está nisso, em ter uma letra que todo mundo possa cantar e uma melodia fácil de ser memorizada, que seja capaz de contagiar um salão inteiro, explica o sambista Carreira, um dos jurados da edição deste ano do concurso.
Historicamente, as marchinhas também têm um viés de crítica social, mas de forma divertida. Elas acabaram ganhando esse papel de conscientização sem que as pessoas percebessem, por causa do caráter viral que elas possuem, de irem se repetindo e se espalhando, acrescenta Fred Fonseca. Outro ponto marcante é que a marchinha deriva da marcha militar, então pode ser executada em um compasso, as pessoas meio que dançam, meio que andam, o que fez com que ela se tornasse popular nos blocos, aponta Roger Resende.
Apesar de serem facilmente relacionadas com um uma pegada rítmica alegre, existe uma vertente mais melancólica e mais lenta, a chamada marcha-rancho. Também é muito tradicional e emblemática, e normalmente as letras abordam amores perdidos ou impossíveis, a tristeza pelo fim do carnaval e outros temas mais tristes, e as canções mais clássicas nos remetem muito a era de ouro das rádios, destaca Márcio Gomes, acrescentando que o concurso juiz-forano sempre tem composições deste estilo entre as concorrentes. Criando um canal de comunicação com o público pela alegria ou pela tristeza, acho que as marchinhas tocam sempre por falarem de situações rotineiras, de coisas que fazem parte da vida de todo mundo.
