O técnico em enfermagem de 32 anos, que agrediu a pauladas Jefferson Wellington Lima, 35, filho da Maria do Calçadão, apresentou-se espontaneamente à Polícia Civil esta semana e confessou ter praticado o crime por causa de perturbação do sossego a sua família. Ele disse ter desferido duas pauladas na vítima, atingida na cabeça e no braço, no último dia 24, no Bairro Bandeirantes, Zona Nordeste. O rapaz morreu três dias depois no Hospital de Pronto Socorro (HPS). O autor esteve na delegacia, em Santa Terezinha, na segunda-feira, mas apenas ontem a informação foi divulgada à imprensa. Por meio da assessoria de comunicação, o delegado Saed Divan afirmou que a motivação teria sido o fato de que, durante a noite e a madrugada que antecederam os golpes, Jefferson e mais uma pessoa teriam promovido algazarra em frente à casa do técnico em enfermagem. Este, ao amanhecer, teria ido tirar satisfações com os dois, resultando na agressão.
O delegado também informou que o exame de necropsia apontou que a morte de Jefferson foi ocasionada por politraumatismo craniano. Ainda ontem uma pessoa que presenciou a agressão prestou depoimento e confirmou ter visto o suspeito desferindo as pauladas contra a vítima. Na próxima semana, conforme o delegado, novas testemunhas serão ouvidas. Ainda segundo Saed, o inquérito busca, neste momento, investigar as circunstâncias da morte, sendo que o técnico poderá responder por homicídio ou lesão corporal grave.
A notícia sobre a confissão do crime à Polícia Civil representou, para a família de Jefferson, a esperança de haver justiça. "Esta é uma informação que mostra que o caso está em andamento e, talvez, não acabe na impunidade. Mas, infelizmente, não vai devolver a vida dele", desabafou Sandra Cristiane Lima, 31, irmã de Jefferson. Ela ainda afirmou que a morte do irmão, além de ter deixado um grande vazio aos parentes, tem trazido transtornos. "Minha mãe está tendo dificuldades para quitar as dívidas deixadas pelo Jefferson, porque minha família é pobre, e estamos passando uma situação difícil."
Jefferson morreu no HPS no dia 27 de março, onde estava internado depois de ter sido vítima dos golpes na Rua Sargento Cunha. De acordo com informações da Polícia Militar, no dia da ocorrência, a vítima foi encontrada pelos policiais com a cabeça lesionada, sendo, de imediato, acionado o Samu para socorrê-la. Um homem, 52, que estava junto com Jefferson, contou à PM que o autor da agressão, sem motivo aparente, munido de um pedaço de pau, passou a desferir golpes contra a cabeça do rapaz. A testemunha também teria sido atingida no abdômen. Depois da agressão, o suspeito não foi localizado. Jefferson foi levado ao HPS, onde ficou em observação, mas assinou um termo de responsabilidade e deixou a unidade no mesmo dia. Entretanto, conforme a assessoria de comunicação da Secretaria de Saúde, ele retornou, no dia 26, permanecendo internado até ir a óbito.
Intolerância crescente em via pública
A intolerância das pessoas em relação à perturbação do sossego também resultou na morte de Lincoln Brandi Neto, 28 anos, em 9 de fevereiro deste ano. Ele foi espancado, no dia 5 do mesmo mês, com golpes de coronhada no rosto, após pedir para que um jovem abaixasse o volume do som do carro, no Poço Rico, Zona Sudeste. Para o delegado que apurou o caso, Carlos Eduardo Rodrigues, a vítima, ao ser abatida de surpresa, como Lincoln e Jefferson, torna-se ainda mais indefesa. "Elas não estão esperando uma reação. Não é como em uma briga, em que agressor e agredido estão preparados para bater e se defender. Por isso, pega de surpresa, não há como escapar", analisa o delegado.
Para o psicólogo social Lélio Lourenço, é assustador o número de ocorrências com violência em via pública registradas em Juiz de Fora em curto intervalo de tempo. "Isso preocupa, porque a cidade, até onde se sabe, não tem tradição de atos violentos nestes ambientes. Mais assustador é ver a repercussão nas redes sociais, como no episódio do jovem espancado no Cascatinha (agredido no dia 25, rapaz morreu no dia seguinte, no HPS), em que as pessoas demonstram apoio ao ato de violência", afirma o especialista, acrescentando: "Usar a violência para externar um mal-estar, como o provocado pela perturbação do sossego, é abominável e irracional. É uma ação injustificada que merece ser revista pela sociedade, para se chegar ao ponto que causa este tipo de situação, tanto em âmbito pessoal como social, a fim de que possam ser combatidas."
