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Mulheres bebem cada vez mais cedo

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Embora a prevalência de alcoolismo seja quase três vezes maior entre homens, o vício em bebidas alcoólicas há muito não é um problema eminentemente masculino. Estudos – reforçados por relatos de juiz-foranas que enfrentam a doença e já lidaram com a perda do emprego e até da guarda dos filhos por causa da dependência – apontam serem as mulheres as principais vítimas do álcool na atualidade. A crescente descoberta da bebida por elas é especialmente preocupante devido às perigosas consequências do abuso para o organismo feminino, potencializadas pelo estigma social que reprova e nega a associação nociva entre mulheres e bebida. De acordo com dados compilados pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), a mortalidade de mulheres dependentes é cinco vezes maior que a de homens, e doenças decorrentes do vício são desenvolvidas mais rapidamente por elas, que têm mais resistência em procurar ajuda.

"As mulheres têm começado a beber cada vez mais cedo e sofrido consequências mais graves decorrentes do consumo crônico de álcool", destaca o psiquiatra e presidente executivo do Cisa, Arthur Guerra. Para ele, o acúmulo do trabalho fora de casa com a responsabilidade pela gerência do lar e da educação dos filhos é um dos principais responsáveis pela situação atual. "Isso provoca um grande estresse, e as mulheres passam a buscar refúgio na bebida alcoólica, o que incorre, inicialmente, em problemas físicos, como hepatites alcoólicas e cirrose, e, depois, em problemas profissionais e pessoais, porque a família, normalmente, não aceita o abuso de álcool pela mulher. Até o tratamento torna-se mais difícil, já que ela costuma negar para si mesma o alcoolismo."

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Um dos coordenadores voluntários dos Alcoólicos Anônimos (AA) em Juiz de Fora, que não será identificado, confirma que existe "um paradigma de que mulher não é alcoólatra". "A maioria bebe em casa, escondido, então só os familiares, que não assumem o problema, costumam vê-las bêbadas", comenta. Segundo ele, são cerca de cem sessões semanais nas 28 salas juiz-foranas do AA, com média de 25 participantes por reunião. Apesar de a frequência de mulheres estar crescendo, o voluntário afirma que a presença feminina representa apenas cerca de 15% do total de assistidos.

Neste percentual, está L., 48, que frequenta o grupo há 27 anos. "Comecei a beber com 11 anos, e meu primeiro porre foi aos 15. Desde então, não consegui mais beber controladamente", conta a dona de casa, que procurou ajuda somente aos 21 anos, quando percebeu que estava "perdendo tudo". "Tinha perdido o emprego como auxiliar de produção, o respeito das pessoas e o controle. A bebida deixou de ser um prazer para se tornar uma necessidade." Ela assume que teve resistência em aceitar que estava doente. "As mulheres têm mais dificuldade de procurar ajuda, porque veem o AA como último refúgio. É estigmatizante, pois a sociedade condena o alcoólatra, e, sendo mulher, ainda mais."

Já S., 49, participa do AA há sete anos. Depois de um casamento arranjado pela mãe aos 15 anos, descobriu, quatro anos depois, que algumas doses de refrigerante de laranja com rum e vodka a deixavam "leve, alegre e descontraída" para aproveitar as festas que frequentava com a cunhada. "Antes de entrar para o baile, eu pedia um drinque. Isso foi ficando mais frequente, até chegar ao ponto de eu ficar doida para sair só pelo prazer de tomar aquela bebida e, então, passar a beber todos os dias", conta. Com isso, veio o divórcio, aos 24, a perda do emprego e da guarda das quatro filhas mais novas por mais de três anos. "Foi quando eu descobri que a bebida não era o que eu pensava. Até então, não via que me prejudicava. Achava que tudo o que acontecia comigo era porque o mundo tinha virado as costas pra mim. Hoje entendo que quem virou as costas para o mundo fui eu."

 

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Abuso eventual da bebida também traz prejuízos

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estabelece como consumo aceitável de álcool a ingestão de até duas doses diárias, para homens, e uma, para mulheres, considerando que não se beba pelo menos em dois dias na semana. Já o Ministério da Saúde considera consumo abusivo cinco ou mais doses na mesma ocasião, no caso dos homens, ou quatro ou mais doses, no caso das mulheres. Embora a dependência seja caracterizada pelo consumo compulsivo, ou seja, pelo impulso de ingerir álcool continuamente, quem exagera eventualmente pode estar sujeito a problemas legais, familiares ou de saúde, é o chamado uso nocivo. Conforme o Levantamento Nacional sobre os Padrões de Consumo de Álcool na População Brasileira, 26% das mulheres que beberam pelo menos uma vez tiveram problemas com o álcool.

A médica e professora da pós-graduação em psiquiatria da USP, Monica Zilberman, especialista em dependência química feminina, confirma que é perceptível o aumento do número de mulheres que fazem uso de álcool excessivamente. "Isso está relacionado à mudança do papel social da mulher nos países ocidentais", explica. "É sabido, também, que a intensidade dos efeitos dessa substância no organismo da mulher é mais exacerbada em comparação ao do homem", completa a pesquisadora do Instituto Nacional de Tecnologia e Ciência para Políticas sobre Álcool e Drogas, Ana Cecilia Marques.

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A servidora pública juiz-forana C,. 26, é um exemplo dessa situação. Depois do constrangimento de passar mal em uma boate após oito doses de bebidas diferentes, chegou a ter intoxicação alcoólica, em outra ocasião. Precisou faltar ao emprego e foi repreendida pela chefe, devido à justificativa. Há poucos anos, acabou viciada em duas doses diárias de rum com tônica. "A intenção era dormir bem. O trabalho era estressante, e acabei me refugiando nos drinques para escapar da ansiedade. Quando comprei um cantil para levar brandy ao trabalho, concluí que tinha algo errado e procurei um terapeuta."

"Aliviar a tensão" é um dos motivos que leva a consultora de carreiras internacionais G., 26, a beber pelo menos três vezes por semana. A cada saída, são cerca de 2,5 litros de cerveja, às vezes mais. Nos finais de semana, a "necessidade de inserção social" a conduz aos drinques, o que já lhe rendeu alguns vexames. "Já cheguei alterada na casa de um namorado, para conhecer a família dele. Quando me dei conta, havia estragado o jantar preparado para a ocasião." Já a analista de suporte funcional M., 24, que costuma consumir quatro doses de vodka ou seis cervejas "longneck" a cada semana, lamenta a oportunidade de contato profissional perdida em uma festa familiar devido ao excesso ocasional de bebida. "No outro dia, não lembrava o conteúdo da conversa que tive com um convidado, dono de uma empresa que presta serviços na minha área de atuação."

 

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Risco de se tornar dependente é mais alto entre elas

Segundo dados do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), mais de 12% dos brasileiros são alcoólatras. Entre os homens, a dependência ultrapassa os 19%, enquanto, entre as mulheres, o percentual de alcoolistas é de quase 7%. A última pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), divulgada no ano passado, revelou que o consumo excessivo de bebidas alcoólicas por brasileiras cresceu 2,4 pontos percentuais, chegando a 10,6% da população, em quatro anos. No mesmo período, o índice de homens que abusam da bebida subiu menos, 1,3 pontos, mas alcançou 26,8%.

Em Juiz de Fora, porém, estudo realizado com ingressantes na UFJF, entre 2005 e 2009, pelo Laboratório de Pesquisas em Personalidade, Álcool e Drogas (Lappda) da universidade, aponta movimento contrário no grupo analisado: o percentual de calouras com provável dependência alcoólica caiu nesses quatro anos, passando de 9,3% para 8%. O de homens também apresentou redução, de 14,7% para 13,7%. Por outro lado, segundo análise do psiquiatra e coordenador do Lappda, Mário Sérgio Ribeiro, há tendência de queda do consumo precoce – antes dos 16 anos – entre os homens, mas, não, entre as mulheres.

Ainda assim, de acordo com o Cisa, as mulheres começam mais tarde e bebem com menos frequência. Mas, apesar disso, o risco de dependência é mais alto entre elas. A psiquiatra Monica Zilberman explica que a mulher é mais sensível aos efeitos farmacológicos do álcool por ter proporção menor de água no corpo. "Quando homens e mulheres bebem a mesma quantidade de álcool, considerando peso e altura, elas tendem a apresentar concentração sanguínea da substância mais elevada", explica. Além disso, o estômago feminino apresenta uma quantidade menor da enzima hepática desidrogenase alcoólica, que faz o metabolismo inicial do álcool. "À medida que a mulher consome bebidas alcoólicas, a quantidade dessa enzima diminui ainda mais, de modo que a mulher dependente possui um volume praticamente irrisório." 

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Tratamento

A consequência é que problemas hepáticos, cerebrais, cardiovasculares e psiquiátricos aparecem mais cedo nas mulheres do que nos homens (ver quadro). Conforme dados do Cisa, as doenças decorrentes do abuso alcoólico levam, em média, de 12 a 15 anos para aparecer nas mulheres, enquanto, nos homens, esse tempo varia entre 17 e 20 anos. Monica destaca que, diferente do dos homens, o tratamento da mulher alcoólatra geralmente ainda inclui a administração de antidepressivos, já que transtornos de depressão e ansiedade são muito frequentes entre as alcoólatras.

De acordo com a assessoria da Secretaria de Saúde de Juiz de Fora, a maioria das mulheres dependentes assistidas pelo Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD) também faz tratamento para o uso associado de outras drogas. Os atendimentos de urgência, quando há necessidade de internação, são realizados no Hospital de Pronto Socorro (HPS), enquanto os agentes comunitários são responsáveis por orientar mulheres identificadas como alcoolistas, nas visitas familiares, para as unidades de pronto atendimento (Uaps), para que sejam inseridas em programas específicos.

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