Ícone do site Tribuna de Minas

Entre o trabalho e a saúde: mulheres na menopausa enfrentam desafios e desigualdades

menopausa leonardo costa

(Foto: Leonardo Costa)

PUBLICIDADE

“Às vezes, você tá exausta e dá vontade de largar tudo. Tem dias que estou cheia de dor e ainda preciso caminhar 25 minutos só para pegar um ônibus, e olha que eu precisava fazer caminhada e exercício físico, mas só chego em casa às 21h, tendo que acordar 4h30 no dia seguinte. Não tenho tempo para nada e, agora na menopausa, também não tenho ânimo”, relata Ana Lúcia Duarte, 54 anos.

Lúcia relata dores e falta de tempo em meio à rotina atribulada (Foto: Leonardo Costa)

Moradora do Bairro Nova Era, na Zona Norte de Juiz de Fora, Lúcia trabalha como diarista no Centro, auxilia na renda de casa e também cuida dos dois enteados. Desde que descobriu, há três meses, que está na menopausa, a experiência tem sido “horrível”, como descreve. Ela diz que vem aprendendo a lidar com os novos desafios do dia a dia: quando não está trabalhando ou correndo para fazer exames e monitorar a saúde, tenta achar tempo para pensar em si mesma.

PUBLICIDADE

Os desafios relatados por Lúcia devem fazer parte da rotina de cerca de 1,3 bilhão de mulheres que estarão na menopausa ou climatério até 2030, segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS). Com sintomas que interferem no dia a dia, esse poderia ser só mais um assunto de saúde pública, mas considerando que as mulheres entre 44 e 55 anos integram a população economicamente ativa, sendo muitas delas chefes de famílias, o debate afeta também as esferas econômica e trabalhista.

Para a supervisora do Departamento de Saúde da Mulher, Gestante, Criança e Adolescente (DSMGCA), Andréa Lanziotti, a menopausa é um período de fragilidade. “São vários os riscos: osteopenia, osteoporose, aumento das chances de problemas cardiovasculares, ressecamento de mucosas, sudorese, ondas de calor e alterações emocionais, que podem causar ansiedade e até depressão”, elenca.

Em Juiz de Fora, as condições de saúde das mulheres na menopausa foi pauta na Câmara Municipal. Sancionada no dia 14 de janeiro, a Política Municipal de Atenção Integral à Saúde e Qualidade de Vida de Mulheres no Climatério, Menopausa e Menopausa Precoce, de autoria dos vereadores Letícia Delgado (PT) e Marcelo Condé (Avante), busca facilitar o acesso a tratamentos e medicamentos na saúde pública local

“Há uma necessidade de fornecer acesso a atendimentos e ao acompanhamento da menopausa com qualidade profissional e recursos, principalmente a pessoas menos favorecidas”, defende o médico ginecologista e vereador Marcelo Condé. Esse acesso, como explica o parlamentar, só é possível pela atuação do Poder Público na atenção primária à saúde, as UBS.

PUBLICIDADE

Acesso a acompanhamento multidisciplinar

“Prefiro recorrer à saúde privada. Estou pagando para ter paz”, diz Lúcia. Quando esteve na UBS para tentar iniciar o acompanhamento da menopausa, chegou atrasada no trabalho – mesmo sem conseguir uma consulta na unidade do Nova Era. “Já sei que na data da consulta vou perder mais algumas horas do meu dia.”

De acordo com Condé, a saúde pública de Juiz de Fora vive um déficit de profissionais especializados no atendimento às mulheres nesta fase. Por isso, o foco da nova política é garantir o acesso ao acompanhamento médico multidisciplinar para o tratamento de sintomas físicos, psicológicos e emocionais, mas, para isso, serão necessárias ações de capacitação nas UBS do município. O vereador explica que essa qualificação será realizada por meio de palestras e rodas de conversa.

PUBLICIDADE

Além disso, proporcionar “atenção integral à saúde” também significa facilitar o acesso aos medicamentos utilizados  para tratamento que não estão disponíveis no SUS. Com isso, eles poderão ser encontrados na rede de atendimento municipal.

Ainda conforme o parlamentar, uma das tentativas da nova política é a de incluir médicos ginecologistas na medicina familiar. Condé avalia essa ação como positiva para que o Executivo não sobrecarregue outros setores.

Projeto de lei chegou ao Executivo no dia 8 de dezembro, após ser aprovado na Câmara Municipal em 28 de novembro de 2025 (Foto: Leonardo Costa)

Atualmente, a saúde pública da cidade conta, apenas, com um espaço especializado no atendimento de mulheres que estão na menopausa ou climatério: o DSMGCA, localizado na Rua São Sebastião, 772, no Centro. A Secretaria de Saúde (SS) informou, em nota, que o local conta com um ambulatório de climatério, onde equipes médicas avaliam cada caso individualmente e definem a melhor condução terapêutica, podendo incluir ou não a Terapia de Reposição Hormonal.

PUBLICIDADE

A SS também informou que, para acessar o serviço oferecido no Departamento da Mulher, é necessário que uma UBS encaminhe a paciente para o atendimento no ambulatório. Já aquelas residentes em áreas não cobertas pela atenção primária à saúde devem buscar o atendimento diretamente no DSMGCA.

De acordo com a PJF, não há demanda reprimida para atendimentos. Todos os meses são disponibilizadas 80 vagas no Departamento de Saúde da Mulher, e todas são rapidamente preenchidas.

Rotina é obstáculo das mulheres que buscam qualidade de vida

Um estudo sobre mulheres no local de trabalho, da empresa estadunidense de consultoria comercial McKinsey & Company, lançado em 2025, mostra que a experiência de mulheres que trabalham e estão na menopausa é frequentemente negligenciada. Mais do que isso, elas sofrem com as chamadas micro agressões.

PUBLICIDADE

Essas formas sutis de preconceito incluem comentários depreciativos, piadas ou atitudes arrogantes, além da banalização de experiências físicas e emocionais vividas por mulheres que estão nessa etapa da vida, conforme o estudo.

“Eu tenho tentado conciliar o trabalho com a minha saúde. Vamos ver se é possível”, diz Lúcia. A reportagem perguntou se ela sente que prioriza as demandas da rotina e do trabalho ao invés da própria saúde, e ela respondeu que, em outros momentos, até deu mais valor ao serviço, mas atualmente a prioridade é outra. “Depois que abri mão de muita coisa, vi que não vale a pena. Saúde é tudo.”

De acordo com a OMS, em 2021, mulheres com 50 anos ou mais representavam 26% de todas as mulheres no mundo, um aumento em relação aos 22% de uma década antes (Foto: Leonardo Costa)

A realidade das mulheres na menopausa mostra que, nem sempre, existe a possibilidade de priorizar a própria saúde. A dificuldade evidencia desigualdades sociais, econômicas, trabalhistas, raciais e de gênero.

“Existe, sim, uma interferência clara de valores existentes na sociedade e que impacta a vida das mulheres na menopausa. Muitas vezes, pensando em aspectos socioeconômicos, algumas mulheres podem encontrar impedimentos no acesso à consulta especializada. Se olharmos para a questão racial, mulheres negras têm mais probabilidade de sofrerem com hipertensão, por exemplo”, aponta Andréia Lanziotti.

A especialista trabalha com saúde da mulher há mais de três décadas, sendo duas delas na saúde pública. Apesar de acreditar que Juiz de Fora é capaz, sim, de garantir atendimento de qualidade para todas as 37 mil mulheres que estão na faixa etária da menopausa ou climatério na cidade, ela não nega que as dificuldades que vêm com esse momento são agravadas pelas condições de vida em que essas pessoas se encontram.

A professora da Faculdade de Ciências Contábeis da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Renata Bicalho, corrobora a análise. Coordenadora de um grupo de pesquisa que analisa a atuação da mulher no mercado de trabalho, la reflete que não há uma preocupação real sobre a qualidade de vida daquelas que estão na menopausa. “Esse momento não só gera impactos físicos, como também emocionais – e isso compromete, muitas vezes, os relacionamentos no ambiente de trabalho. Já ouvi casos de mulheres que foram descredibilizadas com falas desrespeitosas sobre essa fase”, afirma.

Renata conta que, durante suas pesquisas sobre o espaço da mulher no trabalho, soube de uma situação em que, durante uma reunião em uma empresa, uma mulher foi estigmatizada só pelo fato de estar na menopausa: “Deve estar naquela fase, por isso está reagindo dessa forma. Se não é TPM, certamente é menopausa,”, repete as aspas que ouviu sobre o caso e afirma que não se trata de algo isolado.

Renata pontua que, muitas vezes, essas mulheres são genericamente relacionadas à ideia de que não têm mais disposição para o trabalho. “Imagine: você se dedica profissionalmente a vida inteira, adia planos pessoais e familiares e depois colhe uma situação indesejada de assédio ou de desvalorização. Quando você mais precisa, a organização te descarta.”

(Foto: Leonardo Costa)

Nesse cenário de estigmatização da menopausa, Lúcia completa. “Até achei que tudo isso que eu vivia – essas dores – eram por causa da minha correria do dia a dia, mas nunca fui essa ‘Maria das Dores’… (ri). Depois que entrei na menopausa, muita coisa mudou. Não é fácil.”

*Estagiário sob supervisão da editora Gracielle Nocelli

Sair da versão mobile