
Prefeito anunciou que município tem 796 casos de pessoas com doenças transmitidas pelo Aedes somente este ano (gil velloso/pjf)
Após a confirmação de mais uma grávida em Juiz de Fora com o zika vírus e a dificuldade em se diagnosticar e distinguir as doenças causadas pelo Aedes aegypti, a Prefeitura modificou a forma de notificação. A partir de agora, todos os casos serão tratados como doença transmitida pelo Aedes aegypti, sendo aprofundada a investigação apenas nos casos que afetarem as gestantes. A grávida de 33 anos é a primeira a contrair o zika vírus dentro do próprio município, o que é chamado de autóctone, conforme divulgado ontem pelo prefeito Bruno Siqueira (PMDB). A mulher está com 14 semanas de gestação e permanece em casa, na Zona Leste. O chefe do Executivo informou que a Secretaria de Saúde irá acompanhar a gestação para verificar se haverá algum problema com o feto.
O primeiro caso de zika vírus em Juiz de Fora havia sido confirmado na segunda-feira, em uma grávida de 35 anos, que também está com 14 semanas de gestação. Neste, a mulher contraiu a doença em Rio das Ostras (RJ), na Região dos Lagos. Na semana passada, Juiz de Fora já havia divulgado o primeiro caso de febre chikungunya, também contraído na Região dos Lagos, em Cabo Frio. “A maioria dos focos é encontrada dentro das casas. Estamos com uma força-tarefa com o apoio do Exército, mas se a população não fizer sua parte dentro das residências ficará difícil vencer essa batalha”, enfatizou o prefeito.
Até o momento, a Secretaria de Saúde teve 796 casos de pessoas com doenças transmitidas pelo Aedes aegypti, conforme o chefe do Executivo. Na última terça-feira, o Ministério da Saúde anunciou que, a partir da próxima semana, haverá uma ficha exclusiva para a notificação do zika vírus. “Eles vão enviar os kits de exames para diagnosticar o zika, mas não falaram a quantidade, nem quando vão enviar. Por enquanto, não estamos separando os casos de zika, dengue e chikungunya. Quando os testes chegarem, poderemos estabelecer um fluxo melhor”, esclareceu a chefe do Departamento de Vigilância Epidemiológica e Ambiental, Michele Freitas. Ela explica que, no caso do zika vírus, o SUS prioriza a realização de testes em gestantes, que é uma situação grave. “O Ministério da Saúde autoriza realizar o exame de zika quando há muitos casos notificados em uma região, mas a sorologia dá negativa para dengue. Nesses casos, entramos em contato com a Funed (Fundação Ezequiel Dias, em Belo Horizonte) e pedimos os exames específicos para zika. A fundação avalia se é prioridade enviar esses exames ou não.”
Outras ações
Com a confirmação das autoridades norte-americanas da ocorrência, no estado do Texas, de um caso de paciente infectado pelo vírus zika por meio de relação sexual, e não pela picada do mosquito Aedes aegypti, conter essa transmissão entrou no rol dos esforços da Organização Mundial da Saúde (OMS). Assim, a Prefeitura irá incluir a conscientização nas campanhas de incentivo ao uso de preservativo e combate às DSTs no carnaval.
Conforme o secretário de Saúde, Alex Ribeiro, a partir do dia 15, o centro de hidratação da região central começará a funcionar. “Próximo a essa data, vamos divulgar como será o fluxo e quem irá encaminhar.” Os 50 novos agentes de endemias que estão sendo contratados pela Prefeitura devem começar a atuar no final do mês e serão encaminhados para o trabalho de campo. O prefeito disse que, ainda em fevereiro, haverá uma reunião em Belo Horizonte com várias cidades do estado para que a prevenção às doenças seja trabalhada em conjunto.
Subnotificações de zika e chikungunya
Antes das mudanças nas notificações realizadas ontem pela Prefeitura, quando os casos notificados eram considerados todos dengue, muitas pessoas se manifestaram nas redes sociais da Tribuna afirmando já terem tido ou conhecerem alguém que teve o zika vírus ou a febre chikungunya.
Uma moradora do Bairro Bandeirantes, região Nordeste, foi uma das que se pronunciou. “Eu me senti muito mal, com febre e dores pelo corpo. A dor estava concentrada no quadril, e não nas costas como é comum nos casos de dengue. Eu não conseguia andar. O médico me explicou que eram sintomas de zika. Eu realizei o exame para dengue, e deu negativo. Depois de sete dias, repeti o exame e novamente deu negativo. O médico tinha me falado que, se desse negativo novamente para dengue, era zika vírus. O meu caso não foi notificado”, conta a microempresária de 40 anos.
Já a febre chikungunya pode ter abatido uma cobradora de ônibus de 43 anos. “Minha mãe começou a sentir uns sintomas que achamos que era dengue, mas ela já havia tido dengue quatro vezes. Quatro dias após o início dos sintomas, ela fez um exame que apontava não ser dengue. O médico a orientou a voltar para casa e aguardar outros sintomas. Até então, ela tinha tido febre e dor no corpo. Uns dias depois, os sintomas começaram a se agravar, e as articulações a inflamar. Os dedos foram ficando vermelhos e inchados”, explicou a filha da cobradora. A mulher voltou ao médico, que confirmou clinicamente a chikungunya. “O médico pediu para ela realizar o exame para detectar chikungunya, mas o valor era R$ 380. Minha mãe se recusou a fazer porque já tinha pago pelo exame de dengue.”
O infectologista Rodrigo Daniel de Souza conta que a subnotificação dessas doenças é uma realidade. “Isso ocorre por diversos motivos. Primeiro porque, em alguns casos, os sintomas são mais leves, fazendo com que os médicos não suspeitem do zika vírus ou o paciente não procure ajuda. Às vezes, a doença passa como se fosse alergia. Ainda há os casos assintomáticos, no qual as pessoas adquirem o vírus, mas não têm sintomas. Outros casos são passados como dengue, o paciente melhora, e a investigação se encerra sem que seja concluída a verdadeira causa. Para detectar o zika e a chikungunya, os exames são mais caros.”
Segundo a chefe do Departamento de Vigilância Epidemiológica e Ambiental, Michele Freitas, os pacientes que estão com sintomas de dengue e procuram os hospitais são notificados à Secretaria de Saúde por meio da ficha de atendimento mesmo que o exame não seja realizado.

