
Estrada ficou parcialmente obstruída com a queda de um barranco
A chuva deu uma trégua ontem e permitiu que as cidades mineiras afetadas pelas águas desde a virada do ano começassem a contabilizar os prejuízos, mas o número de mortos não para de subir no estado. A Coordenadoria Estadual da Defesa Civil confirmou, em seu último boletim, divulgado ontem, quatro vítimas fatais em decorrência das chuvas, desde outubro. Ainda não entraram nas estatísticas o taxista soterrado, na madrugada de ontem, enquanto dormia no interior de seu veículo, estacionado próximo à rodoviária de Ouro Preto. Até a noite de ontem, as equipes do Corpo de Bombeiros tentavam localizar um segundo taxista que também teria sido soterrado no mesmo local. Também não foi contabilizado o corpo de um homem encontrado em uma fazenda, provavelmente em decorrência das chuvas, em Guidoval. Já em Ponte Nova, na Zona da Mata, um homem de 27 anos morreu após ser levado pela correnteza no final da tarde de ontem. Uma mulher de 74 anos, arrastada pelo córrego Bambus, em Santo Antônio do Rio Baixo, no dia 30 de dezembro, ainda continua desaparecida.
Guidoval, a cerca de 130 quilômetros de Juiz de Fora, é um dos mais atingidos. A cidade foi dividida ao meio após o nível do Rio Xopotó subir e destruir pontes. Pelo menos 18 municípios da Zona da Mata já decretaram situação de emergência. Muriaé, Dona Euzébia e Visconde do Rio Branco baixaram decreto ontem. Nesta última, uma idosa de 78 anos morreu soterrada na segunda-feira. A Prefeitura de Cataguases decretou estado de calamidade pública.
Conforme a Defesa Civil estadual, outros 52 municípios estão em situação de emergência. Em todo o estado, são mais de dois milhões de pessoas afetadas pelas chuvas, sendo quase dez mil desalojadas e mais de 400 desabrigadas, conforme cálculos do governo de Minas, com base nas informações repassadas pelas prefeituras dos 108 municípios atingidos pelas chuvas. Vários registraram problemas na telefonia fixa, além de falta de energia elétrica. De acordo com a Energisa, concessionária responsável pelo abastecimento em algumas cidades afetadas, "tem sido necessário o desligamento de trechos da rede elétrica por questões de segurança". O acesso das equipes a algumas áreas, principalmente Dona Euzébia e Guidoval, ficou inviabilizado, forçando a empresa a buscar alternativas de transporte e acesso, inclusive com o uso de barcos.
Atualmente há 13 depósitos avançados da Defesa Civil estruturados para armazenar mantimentos e demais doações, espalhados por todas as regiões de Minas. Neste período chuvoso, 21 equipes de transporte de ajuda humanitária foram deslocadas para o abastecimento dos depósitos avançados no interior e outras 17 equipes de prevenção e resposta a desastres foram deslocadas para municípios de diversas regiões.
De acordo com o 5º Distrito de Meteorologia, a frente fria que causou os temporais em Minas está se deslocando para a Bahia. "Pelo menos até o final de semana não há previsão de chuvas fortes para a Zona da Mata; apenas em áreas isoladas", explica o pesquisador Cléber Souza. Com o deslocamento da frente fria, há risco de chuvas mais intensas no Norte e Leste de Minas.
Solidariedade surge com as tragédias
Em Guidoval, a população já começou a se mobilizar para auxiliar os moradores que estão ilhados devido à queda e interdição de pontes que passam sobre o Rio Xopotó. Ontem, mesmo com a trégua das chuvas, várias partes do Centro da cidade ainda continuavam alagadas e tomadas pela lama. Carros foram revirados e muito entulho era visto pelas ruas da cidade de 7.526 habitantes. Um helicóptero do Instituto Estadual de Florestas (IEF) ajudou a resgatar moradores e levar ajuda aos que ficaram ilhados. Na segunda-feira, o rio transbordou e atingiu casas que antes nunca haviam sido inundadas. "Estamos arrecadando colchões, roupas e alimentos em um ginásio na entrada da cidade para serem enviados aos moradores que estão ilhados. Ainda não sabemos como iremos levar todo esse material até eles, pois nessas áreas só se chega de helicóptero ou barco", conta um dos voluntários, o designer Leo Gonçalves.
Já Muriaé amanheceu debaixo de chuva ontem, mas a precipitação parou à tarde, trazendo um pouco de alívio aos moradores, temerosos pelo nível do Rio Muriaé, que chegou a subir 5,4 metros acima do normal. Cerca de 800 pessoas estão desalojadas e 153 precisaram ir para abrigos da Prefeitura. O município registrou mais de 25 pontos de deslizamentos de terra. "Na história de Muriaé, não houve uma enchente como essa. Nos três dias de janeiro, choveu 253 milímetros, quando a média histórica é 263 para o mês inteiro, ou seja, choveu, em três dias, o que estava previsto para 30 dias", disse o chefe da Defesa Civil de Muriaé, João Ciribelli.
Após ter 70% da área urbana inundada, o município de Dona Euzébia também começou os trabalhos de assistência aos afetados pelas chuvas. "Iniciamos hoje (ontem) um mutirão de limpeza, com vários carros-pipa e participação de cidades vizinhas. Foi restabelecido o abastecimento de água, mas ainda temos 700 pessoas desalojadas e desabrigadas", avalia o coordenador da Defesa Civil local, José Flávio Magalhães. As famílias afetadas foram abrigadas em igrejas e escolas disponibilizadas pelo município. A Zona Rural da cidade também foi prejudicada.
Em Visconde do Rio Branco, a Defesa Civil e a Secretaria de Assistência Social estão recolhendo roupas, colchões e alimentos para serem distribuídos às famílias. Levantamento do município aponta mais de 40 desabrigados e mais de 400 desalojados. Além da idosa de 78 anos que morreu soterrada na segunda-feira, outras cinco pessoas se feriram devido os temporais.
Já em Cataguases, o Rio Pomba estava oito metros acima do seu nível normal às 10h de ontem. Chegou a 200 o número de pessoas atendidas nos abrigos montados pela Prefeitura em onze escolas municipais. Ainda pela manhã, a ponte em Barão de Camargo, uma das entradas para a cidade, foi interditada para o trânsito de caminhões, ônibus e todo tipo de transporte pesado pelo Corpo de Bombeiros, devido a um deslocamento de 40 cm na estrutura da ponte. Uma equipe do Corpo de Bombeiros de Ubá está na cidade, usando quatro barcos, para resgatar as vítimas. Outra equipe do Corpo de Bombeiros de Juiz de Fora chegaria à cidade até a noite de ontem. A Secretaria Municipal de Assistência Social distribuiu colchonetes, cestas básicas e kits de higiene para moradores dos distritos de Vista Alegre, Cataguarino, Glória, Aracati e Sereno.
Nos cerca de 30 km entre Senador Firmino e Ubá houve pelo menos 20 deslizamentos de terra nas MGs 280 e 124 desde o final de semana. Ontem pela manhã, a maioria das barreiras já havia sido removida, liberando o trânsito nessas vias.
Em Lima Duarte, cerca de 20 residências ainda continuam interditadas devido ao risco de desabamento. A cidade sofreu com as chuvas na virada do ano, mas, de acordo com o coordenador da Defesa Civil local, Joaquim Eduardo Pereira, não houve pontos de alagamento no município.
Anastasia visita cidades
A presidenta Dilma Rousseff ofereceu ontem, ao governador de Minas Gerais, Antonio Anastasia, recursos financeiros e ajuda do Governo federal para enfrentar os problemas causados pelas enchentes. Dilma passa férias na Bahia, de onde telefonou a Anastasia. Hoje o governador visita Ubá, Guidoval, Dona Euzébia e Muriaé. O vice, Alberto Pinto Coelho, vai a Visconde do Rio Branco e Cataguases.
Ontem o governador se reuniu com secretários de Estado, comandantes da Defesa Civil, Polícia e Bombeiros Militares, técnicos e presidentes de autarquias e empresas estatais para uma avaliação dos estragos causados pelas últimas chuvas em Minas. Anastasia determinou que todas as áreas do governo priorizem a ajuda à população atingida. "Estamos dando prioridade, e tenho repetido à exaustão, que o objetivo de sempre é evitar as perdas humanas, através do trabalho de prevenção, da identificação das áreas de risco, evitando os desmoronamentos. Com relação à assistência, tomamos as medidas, junto com a Secretaria de Saúde, a Copasa, a Cemig e os órgãos da Secretaria de Transportes e Obras Públicas, para dar toda atenção àquelas cidades que estão mais prejudicadas", destacou Anastasia à Agência Minas.

