Para explicar o telefonema que recebi nesta tarde chuvosa e fria, devo retornar a Belo Horizonte. Mais precisamente à noite de autógrafos de um dos volumes de minha poesia reunida. Entre os presentes, minha grande amiga Carminha. Estávamos em 2008 e fazia tempos que não a via. Duas horas mais tarde, já numa pizzaria da Savassi, em meio à algazarra do grupo que nos acompanhava, ela me declarou, feliz da vida, que viria a Juiz de Fora no próximo final de semana e que aproveitaria o passeio para conhecer melhor a cidade. Em primeiro plano, claro, o Museu Mariano Procópio.
Não perdi a oportunidade de lhe aguçar o apetite. Destaquei a ousadia do "Tiradentes supliciado", pintura magistral de Pedro Américo, a qualidade do acervo, a beleza arquitetônica da Villa, a suntuosidade do mobiliário, o jardim de delícias que cerca o lago, enfim, tudo o que aquele magnífico espaço representa para a cidade e, mais ainda, para a memória brasileira. Demorei-me um pouco, naturalmente, na obra de Ruy Merheb, de meu falecido amigo Ruy Merheb, também representado no museu. Carminha tirou da bolsa um pequeno bloco de papel e começou a fazer anotações. Como eu não estaria em Juiz de Fora naquele final de semana, pois a divulgação de meu livro me arrastava para São Paulo, ela não queria deixar as minhas dicas penduradas nos varais da memória. "Meus varais não estão suportando os ventos fortíssimos das quarenta primaveras", disse-me, sorrindo.
Na segunda-feira seguinte, recebi um e-mail bem-humorado, com o sugestivo título de "Pegadinha". Minha amiga encontrou o museu fechado. Em obras.
Imerso na rotina de lançamentos e autógrafos, viajando sem cessar, não tive notícia da tão esperada reforma. Mas ela não acreditou muito na história. Poderia ter sido pior, argumentei, pois em Juiz de Fora, por incrível que pareça, alguns museus não funcionavam nos finais de semana. Ela me perguntou se os restaurantes da Manchester mineira também fechavam para o almoço. Assim, em resumo, minha propaganda desceu de nível e virou pegadinha.
Três anos depois, numa livraria da mesma Savassi, uma mulher me acena. Era Carminha. Agora em versão bávara: loira e com um brilho esverdeado nos olhos. "E o museu? Os cariocas do brejo da antiga boiada do Xis-di-Fora aprovaram a reforma?" Tentei explicar o inexplicável. Ela, desconfiada, pensou que fosse uma nova brincadeira: "Não pode ser falta de verba, pois há dinheiro até para a construção dos estádios de Manaus, de Natal e de Cuiabá. Tudo padrão Fifa – e sem futebol que justifique". Contestei: quando o assunto é cultura, educação e saúde, os governos tupiniquins costumam fugir pela escada de incêndio. Mas deixam o fogo completar o serviço. "Estou falando de reforma, meu querido, aquela que se faz com argamassa, tijolos e ferragens. E geralmente com 30% de comissão. Não tente confundir as coisas."
* * *
Feito o relato, posso voltar ao telefonema desta tarde. Do outro lado da linha, minha amiga me punge: "Devo passar por Juiz de Fora no próximo dia 12 e queria que você fosse comigo ao museu". Qual justificativa eu poderia lhe dar? Não tenho como me esquivar da velha rivalidade mineira. Afinal de contas, ela é de BH, a grande Berzonte. "Carminha, querida, o museu continua fechado, infelizmente. Mas a parte do lago já foi reaberta." Ela não conteve a gargalhada: "Já? É sério? Vocês aí do litoral são rápidos mesmo!"
Na minha cabeça, pouco antes da despedida, com o telefone ainda ardendo no ouvido, as arenas do Pantanal, das Dunas e da Amazônia giravam sem cessar. Todas serão entregues à Fifa daqui a alguns meses. E foram construídas – não estou falando de reforma, bem entendido – com dinheiro público, com muito dinheiro público, para uma ninharia de jogos da Copa. Somente quatro jogos, meu Deus, para cada arena. E o nosso museu, coitado, à míngua. Mais fechado que cofre de banco para a Grécia. Já pensou quando o primeiro desses três elefantes brancos for inaugurado?
Se o museu não estiver nos trinques até lá, vai ser difícil aturar a Carminha.
Iacyr Anderson Freitas – Poeta, contista e ensaísta, tendo publicado "Trinca dos traídos" (Menção Especial no Premio Casa de las Americas, em Cuba, em 2005) e "Viavária" (1º lugar no Prêmio Nacional Pen Clube do Brasil, em 2011), entre outros.
