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Baleados impactam assistência

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"Que isso doutor, quem é que nunca levou um tiro na vida?" Essa pergunta nunca mais saiu da memória de um médico-cirurgião que atende no plantão do Hospital de Pronto Socorro (HPS). O questionamento foi feito por um jovem atendido pelo profissional que havia sido atingido de raspão por uma bala. Acostumado a salvar vidas, o médico, que prefere não se identificar, ficou perplexo diante do que a pergunta significava: a completa banalização da violência. Trabalhando no plantão do HPS há cerca de quatro anos, o cirurgião relata que é nítido o aumento da violência. Segundo ele, se há três anos havia uma média de um paciente para cirurgia no plantão, atualmente, pelos menos dois procedimentos são realizados a cada noite de trabalho, principalmente de vítimas de tiros. "Já tive plantão com três baleados, quadro que não estávamos acostumados a vivenciar." O aumento da criminalidade, que afeta a carga de trabalho dos médicos, tem uma face ainda mais pessimista: sobrecarrega a disponibilidade de leitos, dificultando o atendimento à população de Juiz de Fora e região. 

De acordo com a Secretaria de Saúde, o HPS, porta de entrada para o Serviço de Urgência e Emergência no município, registrou aumento de 86,6% de atendimentos a vítimas de arma de fogo na comparação entre o primeiro semestre de 2011 e o mesmo período de 2013. Há dois anos, a unidade recebeu, de janeiro a junho, 90 baleados. Em 2013, o número subiu para 168. Quando se compara o primeiro semestre do ano passado com o deste ano, a ampliação foi de 69%. Isto porque, nos seis primeiros meses de 2012, 99 baleados foram atendidos. O levantamento foi feito com exclusividade pelo HPS para a série "Por um triz". "É preocupante para o Serviço de Urgência e Emergência, pois demanda o envolvimento de uma equipe multidisciplinar com médico, cirurgião, ortopedista, fisioterapeuta, enfermeiros, técnicos em enfermagem, exames complementares, tomografia, ultrassom e diária de UTI", ressalta a subsecretária de Urgência e Emergência da Secretaria de Saúde, Adriana Fagundes Cláudio.

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Além dessa mobilização de profissionais e equipamentos, o tratamento de um paciente baleado custa caro. O caso de um jovem de 19 anos, ferido à bala na altura do pescoço, serve de exemplo. Só nos 23 primeiros dias de tratamento na UTI do HPS foram gastos R$ 11.862,84. Ele precisou passar por procedimentos de cirurgia de esôfago, traqueostomia, várias sessões de fisioterapia, uso do respirador, uma série de exames de sangue, raios X, tomografia, ultrassonografia, além dos custos do centro cirúrgico com utilização de cirurgiões, anestesista e auxiliar de enfermeiro. "Todo o processo gera uma grande carga de investimento que começa lá no chamado do Samu, que se desloca ao local de atendimento com médico, técnico, condutor e ambulância", pontua Adriana, destacando que o impacto não envolve apenas o momento hospitalar. "Geralmente as vítimas de arma de fogo são pacientes jovens que ainda teriam uma vida produtiva e, normalmente, ficam sequelados, pois foram alvos de tentativas de morte, que acabam atingindo órgãos vitais. Isso tem custo para a sociedade, pois o paciente vai depender do apoio do Governo para se manter. A família também perde uma fonte de renda."

 

Lenta rotatividade de leitos

A vítima de disparo de arma de fogo, que necessita de longo período de hospitalização para recuperação, causa lentidão na rotatividade de vagas. "Como o HPS é um hospital de referência em urgência e emergência para Juiz de Fora e cidades vizinhas, temos uma população de cerca de 1,5 milhão de habitantes e, nesse contexto, o aumento da violência resulta em impacto para o atendimento, que só não é percebido de forma tão grande pela população, porque temos uma equipe bem treinada", observa a subsecretária de Urgência e Emergência, Adriana Fagundes Cláudio. Ela enfatiza que o ônus resultado pelos crimes violentos repercute nos chamados leitos de retaguarda. "Depois que o HPS faz o primeiro atendimento e estabiliza o paciente, ele precisa ser transferido para esse leito de retaguarda em outros hospitais da rede, nos quais irá se recuperar. Quando a recuperação é de longa permanência, a rotatividade nos leitos diminui e, com isso, há uma dificuldade para a liberação de novas vagas", alerta Adriana.

Atenta a essa dificuldade, a Secretaria de Saúde trabalha a fim de agilizar esse tipo de assistência e permitir o maior número de atendimento possíveis de acordo com a necessidade. Para tanto, estão sendo realizadas oficinas destinadas aos profissionais da Rede de Urgência e Emergência com objetivo de prepará-los para o crescimento da procura que vem acompanhada da violência. Segundo Adriana, uma das alternativas é a criação do Departamento de Internação Domiciliar, cuja implantação visa a desospitalizar pacientes, que serão tratados em casa, contribuindo para liberação de vagas. "Também procuramos pactuar mais leitos de retaguarda e vocacionar os hospitais da Rede SUS com finalidade de receber essas vítimas em recuperação. Essas unidades são diagnosticadas para receber os pacientes politraumatizados, neurológicos e vítimas de acidentes vasculares. Esse estudo já acontece desde o ano passado, visando a agilizar o atendimento."

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Seis baleados em um fim de semana

No sábado, 15 de junho, seis pessoas vítimas de tentativas de homicídio provocaram sobrecarga nos atendimentos do HPS. Na ocasião, a Secretaria de Saúde informou a necessidade de diminuir o tempo de permanência das visitas no CTI , para agilizar os atendimentos. Como explicou a subsecretária de Urgência e Emergência, Adriana Fagundes, a ação teve como meta "limpar" a área de pessoas que não eram do setor. "Como era preciso movimentar macas, o grande número de pessoas nos corredores dificultava o transporte até o centro cirúrgico. O tempo é fundamental, porque significa vida, e retirá-las do caminho pode fazer a diferença." Ela afirma que, quando é necessário, o fluxo normal do HPS é modificado, como horários de visita, de refeição e para o médico conversar com o paciente. "Tudo será alterado para salvar vidas", diz, acrescentando que, apesar das dificuldades, o hospital consegue absorver a demanda, mobilizando mais profissionais e fazendo rearranjamentos.

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O alto número de feridos à bala e de mortes associadas a crimes também impactou o HPS no que diz respeito ao cumprimento de uma das metas pactuadas com a Secretaria de Estado de Saúde (SES). A unidade conseguiu cumprir a maioria delas no último quadrimestre de 2012 e vai receber verba de R$ 287 mil. No entanto, a taxa de mortalidade institucional ultrapassou o previsto, atingindo 10,12%. O percentual deveria ter ficado abaixo de 7,79% no período. O índice mede o percentual de óbitos após as primeiras 24 horas de internação dos pacientes. Para a comissão que repassa a verba, a direção do HPS justificou o não cumprimento a diversos fatores, como o aumento da violência e das vítimas de armas de fogo. A justificativa apresentou um estudo recente da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), revelando que o número de homicídios em Juiz de Fora, entre 2011 e 2012, cresceu cerca de 51,2%. Quanto aos crimes violentos, a comissão utilizou o Informativo dos Índices de Criminalidade de Minas Gerais 2012, que divulgou que o município registrou, entre os meses de setembro e dezembro, aumento de 14,2% nos casos em relação ao mesmo período do ano anterior. As razões apresentadas pela comissão foram acatadas pelos técnicos da SES.

"Dentro da Urgência e Emergência, a violência gera a mobilização de muitos profissionais, criando uma nova rede para se adaptar a essa nova realidade. O ideal é que esse investimento fosse destinado a outros setores e não para dar conta de um quadro de violência crescente", conclui a subsecretária.

 

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Equipe vivencia momentos de tensão

A violência que explode nos bairros também deixa suas marcas nos profissionais do Serviço de Urgência e Emergência. O médico-cirurgião entrevistado pela Tribuna contou que já houve ocasião na qual vítima e agressor tiveram que dividir o mesmo espaço dentro do hospital. Em um plantão na noite de sábado, a unidade recebeu um jovem esfaqueado por um rapaz depois de se envolverem em uma desavença. Por ironia do destino, minutos depois, o homem que havia esfaqueado o paciente também deu entrada no HPS, pois havia sido baleado por outra pessoa como desforra pelo esfaqueamento praticado. "Ambos ficaram na maca, um perto do outro, e foi uma situação tensa. Todo esse quadro de violência acaba inclusive influenciando na decisão de alguns profissionais em deixar o trabalho no plantão", pontua o médico.

Ele ainda explica que, apesar da sobrecarga emocional à qual estão sujeitos, os profissionais adotam uma conduta que procura se desvincular da situação que levou cada paciente até o hospital. "Recebemos essas vítimas sem tentar saber quem são, em que tipo de crime estão envolvidas. Uma vez que entrou pela porta do hospital vira paciente e fazemos o que for possível para salvar sua vida", afirma o cirurgião, completando que: "No plantão, quando há o registro de uma pessoa baleada, geralmente, o Samu se desloca ao local e já avisa à equipe do hospital a respeito da ocorrência. Quando chega lá, faz uma avaliação do ferimento e também comunica isso aos médicos do plantão que já se preparam para recebê-la."

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