A Polícia Militar promete inquietar usuários e traficantes de droga que vêm agindo na parte alta da Rua Halfeld, próximo aos bares. As abordagens no ponto serão diárias, conforme a corporação, que estuda a implantação de militares fixos no ponto com cobrança da taxa de segurança dos donos dos estabelecimentos. Nas ações de quinta e sexta-feira, nenhum jovem foi detido, mas a Secretaria de Atividades Urbanas (SAU) recolheu mesas e cadeiras. O trecho entre as ruas Santo Antônio e Tiradentes foi fechado para atuação dos militares, guarda municipais, fiscais de postura e servidores do Juizado de Menores, mas, com a presença ostensiva, os grupos se dissiparam. A situação do uso e tráfico de drogas na área foi divulgada pela Tribuna no domingo.
Faremos uma operação inquietação, com abordagens específicas e constantes para dar uma resposta à comunidade. As duas viaturas do Tático Móvel estão sendo utilizadas das 18h às 4h, mas não temos condições de manter policiamento no local 24 horas por dia. O comando da unidade está estudando implantar militares, cobrando a taxa de segurança pública dos donos dos bares, comentou o tenente Fernando Paulo Coutinho, comandante do Setor 2 de policiamento da 30ª Companhia.
A Polícia Civil também prometeu iniciar o trabalho de investigações essa semana. A SAU informou sobre as ações no ponto. Dos quatro estabelecimentos, dois foram multados por falta do alvará de localização, o terceiro por perturbação do sossego, falta de higiene e por possuir mesas e cadeiras nas calçadas. Já o proprietário do quarto estabelecimento foi intimado porque fez ampliações na loja sem prévia autorização da PJF. Ainda conforme a secretaria, caso as adequações não sejam cumpridas, os pontos podem sofrer interdição.
As drogas
Se para a vizinhança de bares a venda e o uso de drogas traz insegurança e transtorno, para os usuários, os danos são ainda maiores. Segundo especialistas, o consumo precoce de drogas ilícitas, sobretudo associado ao álcool, pode trazer consequências desastrosas para o futuro desses jovens, comprometendo o processo cognitivo e moral, e colaborando para o aumento de problemas sociais. Autor de livros sobre a dependência das drogas, o psiquiatra e psicanalista Eduardo Kalina explica, em seu site, que os entorpecentes também causam danos físicos e psíquicos, algumas vezes irreversíveis, e confirma a relação droga-violência. Quando esses meninos têm danos no cérebro frontal, deixam de funcionar como pessoas. Nós tratamos com medicamentos e fazemos trabalhos cognitivos para fazer a região voltar a funcionar. Você precisa da parte frontal para pensar em Deus, ter espiritualidade, filosofia, ver o sentido da vida. Os meninos com dano nessa zona, a maioria dos que entram em crack e cocaína, viram animais. Eles matam porque gostam de um tênis que a pessoa usava. Pegam o tênis e vão embora, não importa se mataram uma pessoa que tem família, nada importa.
No dia em que a Tribuna esteve na Rua Halfeld, 15 de abril, ficou evidente a ligação dos jovens usuários com o comércio. Por duas vezes, um dos jovens que comercializava cocaína fez uso do produto. Segundo o comandante da 30ª Companhia da PM, capitão Yoshio Yamaguchi, estudantes da área Central já haviam sido detidos antes, comercializando drogas na região dos bares.
Perigo da precocidade do consumo
Pesquisa realizada pelo Laboratório de Pesquisas em Personalidade, Álcool e Drogas (Lappda) da UFJF, com universitários, entre 2005 e 2009, mostra que o uso de álcool e cigarros acontece antes dos 15 anos de idade. O estudo também diz que, entre 16 e 17 anos, a maioria desses jovens já experimentou maconha e solventes inalantes. O uso de drogas mais fortes, como a cocaína e o crack, se dá cada vez mais precocemente. Se antes o consumo destes entorpecentes acontecia com cerca de 18 anos, de 2007 para cá, estudantes revelaram que chegaram a experimentar uma das duas drogas com idade aproximada de 15 anos. Geralmente a primeira droga usada é álcool, depois o tabaco e, em seguida, o solvente. Os dados da pesquisa não permitem falar como acontece essa evolução, mas podemos supor que é uma questão cultural, destaca o coordenador do Lappda e psiquiatra Mário Sérgio Ribeiro.
Para o especialista, dois aspectos devem ser considerados em relação ao consumo de substâncias, como cocaína e crack. O primeiro é quanto ao risco associado ao consumo. Ainda que o percentual de consumo seja baixo entre os universitários, pode ser preocupante, como é o caso, em especial, do crack. O segundo aspecto que deve ser considerado é o foco na população consumidora e no local de consumo. Por que é possível a venda e o uso descarado em pleno Centro, onde os adolescentes frequentam? Enfim, nossa cultura admite isso?, indaga Mário Sérgio.
A pesquisa também mostrou que a influência dos amigos aparece em primeiro lugar entre os motivos para o contato inicial com as drogas. A diversão e o prazer são indicados como a segunda razão para o consumo, pela primeira vez na vida, de álcool e tabaco, enquanto a curiosidade ocupa a terceira posição na iniciação do uso de entorpecentes ilícitos.
Professor do Departamento de Psicologia da UFJF, Telmo Ronzani, confirma a precocidade do consumo e da experimentação, o que, segundo ele, resultará em um aumento real de dependentes num futuro próximo. Só iremos perceber a gravidade do problema com a elevação da dependência, principalmente entre as mulheres. Do ponto de vista clínico, os danos são ainda maiores nas meninas. Muitos desses usuários ainda estão em franco desenvolvimento, e, está mais do que provado, que as drogas afetam as áreas cognitivas, além de contribuírem para terríveis consequências sociais, como o aumento da violência.
Exemplo deve vir dos pais
Dar exemplo. Acompanhar os filhos de perto, sem ser autoritário. Ser menos permissivo. Naturalizar menos o uso de drogas, como o álcool e o cigarro. Não podemos negligenciar esse consumo inicial. Todos devem agir: pais, Poder Público. Deve haver uma maior fiscalização, o que hoje não acontece, aconselha o professor Telmo Ronzani.
O pensamento é reiterado pelo psiquiatra Eduardo Kalina. Primeiro, dar um bom exemplo. Um pai que toma um copo de vinho no jantar não está criando um filho toxicômano. Porém, um pai que está todo dia fumando e que bebe muito por qualquer explicação não pode dizer ao filho que não consuma, porque ele está consumindo. Muitas pessoas não se dão conta de que estão constantemente dando exemplo. Segundo, é importante, desde criança, ensinar o perigo que isso significa. Nos EUA, em um colégio com crianças entre 7 e 12 anos, fizeram um jogo que teria como prêmio uma viagem à Disney de graça. Todos queriam participar e perguntavam: ‘Como é a prova?’. Disseram a eles que teriam de atravessar uma fossa com jacarés. Então ninguém quis brincar, todos responderam não, porque o jacaré devora, bate com o rabo e pode quebrar a cabeça. Então o doutor que organizou esse jogo falou: ‘Toda criança sabe do perigo dos jacarés. Temos de fazer o mesmo com nossos filhos, para que eles aprendam o perigo da droga’. Quando se explica à criança pequena o perigo do cigarro, ela luta para que os pais parem de fumar. Temos de fazer o mesmo com a droga, um trabalho de educação, informação e prevenção. E, além disso, proibir a apologia à droga, controlar a presença da droga, não facilitar, não legalizar, cuidar muito.
O psiquiatra e pesquisador do Lappda, Mário Sérgio Ribeiro, também destaca a importância da mudança de comportamento. O que os pais e o país deveriam buscar é um consenso quanto ao que se pode esperar de cada um de nós, cidadãos brasileiros: ou seja, estamos dispostos, individual e coletivamente, a efetivamente modificar nossos padrões de comportamento no sentido de atitudes menos hedonistas, menos individualistas e mais responsáveis? Se assim o for, poderemos ter mudanças sociais mais amplas (ainda que demoradas), que necessariamente incluirão ‘regras mais rígidas’ no processo de educação dos indivíduos.
