
Crucifixo chegou a ser arrancado de túmulo, mas não foi levado por causa do peso
Pelo menos um túmulo é saqueado a cada três dias no Cemitério Municipal, em Juiz de Fora. Nos últimos três meses, segundo a direção do cemitério, foram, no mínimo, 30 sepulturas depredadas no local. Na maioria dos casos, os ladrões levam objetos feitos de bronze e ainda praticam atos de vandalismo. Nem mesmo na semana de Finados, os criminosos deixaram de atuar. Na última quarta-feira, um caso chamou a atenção. Ladrões tentaram roubar uma santa por três vezes. Na última investida, conseguiram retirar o artigo preso por dez parafusos chumbados no mármore. O furto foi descoberto quando o senhor que cuidava da manutenção chegou à sepultura e não encontrou a imagem. A situação é preocupante, já que a maioria não registra os furtos na polícia. De abril para cá, segundo a direção do Cemitério Municipal, apenas quatro boletins de ocorrência foram registrados.
A Tribuna fez um levantamento na área ao lado de uma cuidadora de túmulos, que trabalha no espaço há 14 anos, e contou, em poucos minutos, mais de 30 jazigos destruídos recentemente. "Antes nós víamos que a sepultura tinha sido saqueada e avisávamos os vigias, hoje são tantos casos que fica até difícil de contar. Eles retiram tudo, letras, estátuas, brasões, medalhões, tudo de bronze. E as pessoas, muitas vezes, nem notam. O cemitério é grande, existem poucos seguranças, e as pessoas só percebem quando vêm visitar. De três meses para cá, aumentou muito, passo perto dos túmulos e, a cada dia, falta uma peça. Neste período, minha conta já passou de cem", afirma a faxineira Ronilda Clemente, 44 anos. Nem mesmo o túmulo de Henrique Halfeld, um dos fundadores de Juiz de Fora, foi preservado pelos vândalos. Ele já foi depredado várias vezes, inclusive com furto do brasão da família. Uma placa de bronze com informações sobre Halfeld, que fica em cima do túmulo e que havia sido furtada recentemente, foi recuperada e reposta.
Indignação
Familiares do túmulo depredado na última quarta-feira ficaram indignados com a situação. "Na primeira vez, eles tentaram levar a imagem, mas não conseguiram carregá-la. Um dos funcionários achou a santa caída em meio aos túmulos. Porém, os puxadores de bronze não foram encontrados. Paguei um profissional para revitalizar o túmulo e colocá-la novamente. No último dia 23, fui avisada que tentaram roubar a santa novamente. Paguei pela segunda vez um profissional que colocou os parafusos preso ao mármore. Há 60 anos, a imagem ficava no jazigo. Nunca tinha acontecido nada. E agora me deparo com isso. Fico triste pela minha mãe que é idosa e tem uma certa ligação com essas coisas religiosas", desabafa a secretária Cláudia Fagundes Netto Costa, 47 anos. Nesta sexta-feira (1º), na véspera do Finados, a santa foi encontrada caída sobre um túmulo, mas ainda não foi recolocada. Os ladrões, provavelmente, não conseguiram levá-la por causa do peso, pois, por dentro da estátua de bronze foi colocado concreto.
A psicóloga Gelda Cordeiro, 40, vai ao cemitério sempre nas datas comemorativas, como aniversários dos entes falecidos e antes do Finados, e percebeu o último furto no ano passado. "Temos três túmulos aqui. Todos foram saqueados, no mínimo, duas vezes, inclusive foram levadas até coisas sem valor, apesar de o foco serem as peças de bronze. Como não gosto de vir no dia 2 de novembro, viemos antes para ver como está a situação."
Vigilância
De acordo com o diretor do Cemitério Municipal, João Wagner de Siqueira Antoniol, a prática de furtos tem sido recorrente. "Estamos tentando descobrir o porquê desse aumento. Se soubéssemos, atacaríamos o foco. Não sabemos quem são essas pessoas, achávamos que eram os craqueiros da cracolândia do Poço Rico, pedimos a demolição das casas, achamos que ia parar. Descobrimos material roubado lá, mas não parou. Estamos investigando, mas temos muitos casos de furtos. Tem muita coisa que a gente não vê, e o reflexo será depois do dia 2, quando familiares vierem ver os túmulos. Aí teremos a real situação de quantos foram saqueados. Os casos nos chegam por meio dos vigias, já que não existe outro procedimento e não conseguimos pegar os culpados" revela Wagner.
Segundo o diretor, o caso é preocupante, já que não existem muitos vigias na área. "Estamos estudando o caso de aumentar a vigilância, em colocar a Guarda Municipal de maneira constante. O caso está sendo apurado e estamos tentando resolver. Oriento as pessoas que tiveram seus túmulos saqueados que registrem boletim de ocorrência e que procurem o JF Informação."
Situação interfere na queda do número de visitantes
A área central do Cemitério Municipal é a mais afetada, porém, o foco maior está na parte do velho cemitério, já que lá existem peças mais antigas e valiosas. Os saques acontecem principalmente à noite, e alguns no horário de almoço dos vigilantes. "No ano passado, na mesma época de Finados, pessoas entraram no cômodo onde os funcionários guardavam bolsas, ferramentas e a bicicleta. Tudo foi furtado, e ninguém foi pego. Neste ano, na semana do Dia das Mães, duas bolsas de funcionários com documentos e marmita foram levadas. Uma das bolsas foi encontrada na avenida, próximo ao cemitério. É sempre na hora do almoço, quando não tem ninguém. Eles arrobam a porta e levam tudo. Os portões ao redor do cemitério neste sábado (2) permanecem fechados. Estão abertos apenas os dois principais", conta a faxineira Ronilda Clemente, que trabalha limpando túmulos diariamente no local, contratada por várias famílias.
O cenário de insegurança e falta de respeito interfere na queda no número de visitantes. "Antigamente muita gente vinha visitar, hoje são poucas as pessoas que vêm. Acho que é por isso. As pessoas se sentem inseguras. Tem uma freguesa minha que só vem quando eu posso vir com ela ou quando a filha pode. Sozinha ela não vem, por causa da insegurança. Antes eu tinha paz, hoje venho trabalhar com medo. Tem lugar que eu não vou sozinha, chamo algum funcionário para ir comigo", conta Ronilda .
Na área superior do cemitério, já foram notificadas ações de vandalismo e depredação de túmulos, porém atualmente a situação está controlada. "Há um mês, em um sábado à noite, fui chamado porque os vigias viram um movimento. Fui com a Guarda Municipal na parte de cima, e encontramos um casal gótico. Mas eles não estavam praticando furtos e foram liberados. Na parte mais alta, não há tantas ocorrências porque os túmulos são mais simples e está mais tranquilo, não há casos de vandalismo ou consumo de drogas", afirma Wagner.
Projeto
Durante a última semana, o cemitério passou por procedimentos especiais de limpeza, por causa da chegada do feriado. Foram realizadas capinas, limpeza dos muros, balaustres e varrição. Sobre o projeto de reforma do espaço, o diretor afirma que já foi aprovado e espera a liberação de verba. "O projeto está pronto e envolve a reforma das capelas, dos banheiros, construção de uma sala para a preparação de corpos, restauração da igreja do cemitério velho, além de reformas estruturais, como captação pluvial, construção de acesso às quadras, reforma da cantina e administração, além de melhorar a segurança. Esse projeto depende da aprovação de verba. O que falta é captação de recursos, cuja previsão é para o ano que vem."
Além disso, desde o início do ano, acontece o recadastramento das famílias que possuem jazigos perpétuos no cemitério. Até o momento, apenas cerca de 520 foram registrados. Os interessados devem comparecer ao local munidos da cópia de identidade, CPF e comprovante de residência do titular ou dos descendentes.

