
Segundo estudo, o bairro tem índices de baixa escolaridade e alto desemprego
Com um índice de pobreza maior do que a média nacional, a Vila Olavo Costa, localizada na região Sudeste da cidade, e seu "mapa de privações" são sinônimos de desafio social. Os indicadores desfavoráveis atingem a saúde, a educação e, consequentemente, o padrão de vida de uma comunidade marcada pela baixa escolaridade e pelo alto índice de desemprego. Quase metade dos domicílios possui pelo menos um adulto com menos de cinco anos de estudo completo, quando o ensino fundamental, que é obrigatório, corresponde hoje a nove anos de ensino. Em outros 17,2%, não há membro da família que tenha alcançado esse patamar. Esse tempo de frequência ao ensino é inferior ao do Nordeste do país, que ocupa o último lugar nacional em relação aos anos de estudo entre a população acima de 10 ou mais anos de idade: 7,2. De acordo com dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), referente a maio de 2010 , a média de anos de estudo no Brasil é de 8,8 anos, o que já é considerado muito baixo. Quando se trata da Vila Olavo Costa ainda são subtraídos 3,8 anos. Para agravar o quadro, 3,8% das residências têm crianças em idade escolar que não frequentam as aulas, impulsionando o ciclo da exclusão.
Mas a escolaridade não é o único problema da área. O termo urgência ganha nova dimensão em um bairro onde 35,5% das 1.199 moradias pesquisadas possuem pelo menos um desempregado, 3,1% não têm acesso a água potável e 10,4% não têm sanitário adequado.
Os dados fazem parte do diagnóstico realizado em agosto, pelo Governo estadual, para a implantação do "Travessia bairro", programa que prevê investimentos da ordem de R$ 3,6 milhões nos próximos 12 meses e que tem o objetivo de mudar a realidade da Vila Olavo Costa. O local foi escolhido entre todo o território mineiro para ser o primeiro a receber a iniciativa.
Atualmente, dos 4.188 moradores, 1.440 são crianças e adolescentes, o que significa que, a cada três moradores, um é menor de idade. Boa parte desses meninos e meninas vive em condições precárias, o que aumenta a vulnerabilidade do grupo. De acordo com a direção da Escola Municipal Dilermando Cruz, que atende a maioria das crianças do bairro, o problema da infrequência escolar constitui realidade preocupante. "Com o fim da greve e a volta às aulas, muitas crianças de lá ainda não retornaram à escola. Temos grande dificuldade para entrar em contato com as famílias, porque muitos casas não têm telefone fixo. Para tentar localizá-los, uso meu próprio celular. Quando a infrequência é alta, comunicamos ao Conselho Tutelar. Mas o que nós percebemos é que a gente tem perdido cada vez mais alunos, em função dos problemas sociais que enfrentam", afirmou o representante da direção, que prefere não ter o nome divulgado.
Peça chave
Segundo Ricardo Freguglia, professor da Faculdade de Economia da UFJF, o nível educacional de uma população é a peça chave para o desenvolvimento de determinada região e até de um município. O diretor da Faculdade de Economia da UFJF, Lourival de Oliveira Júnior, afirma que cada ano de estudo tem impacto sobre a chance de empregabilidade e sobre a remuneração. "No geral, existe relação entre os anos de estudo e a empregabilidade. Mesmo entre os que estão empregados, mas possuem menos anos de estudo, a remuneração é menor e as oportunidades também." Sobre o tempo de estudo, Lourival é enfático ao dizer que a qualidade do aprendizado também pesa. "Além de os moradores da Vila Olavo Costa terem passado pouco tempo na escola, a qualidade dos anos de estudo é outro fator que precisa ser considerado. A baixa qualidade resulta em analfabetismo funcional, no qual o indivíduo não entende o significado do que está lendo, porque os índices de interpretação são muito limitados. Atualmente, 97% da população brasileira entre 7 e 14 anos frequentam o ensino fundamental, mas as altas taxas de evasão não são consideradas. Hoje crianças permanecem estudando, mas não sabem ler nem escrever." O aumento do tempo de exposição do aluno ao conhecimento é uma das políticas recomendadas no estudo "Caminhos para melhorar o aprendizado", desenvolvido pelo Instituto Ayrton Senna em parceria com o "Todos pela educação".
A relação entre ocupação e educação no Brasil foi analisada no estudo intitulado "Oportunidades ocupacionais no mercado de trabalho: uma análise dos efeitos da ampliação do acesso à educação no Brasil e na Índia". Os principais resultados evidenciam que a ampliação do acesso à educação melhora o tipo de emprego. "Isto significa que melhores ocupações em termos de remuneração e qualidade do posto de trabalho podem ser obtidas quando os trabalhadores são mais educados", conclui Freguglia.
10% sem sanitários adequados
Os recursos do programa "Travessia bairro" serão empregados em infraestrutura, implantação de equipamentos públicos e melhoria das moradias, já que 7,4% dos domicílios têm papelão, sacolas ou cimento batido no lugar de piso e mais de 10% têm sanitários inadequados, o que significa não ter pelo menos um dos três itens básicos, como pia, chuveiro e vaso sanitário. Também há situações em que o banheiro é compartilhado com outro domicílio. Outro indicador do padrão de vida da população da Vila Olavo Costa revela que 8,5% dos domicílios não contam com geladeira e 23,5% não possuem telefone.
Já no setor de saúde, a constatação é que 7,5% das casas já registraram pelo menos um óbito infantil desde a constituição familiar e 2,8% têm pelo menos uma criança desnutrida. A deficiência genética e nutricional, a gravidez na adolescência e a ausência de pré-natal adequado estão entre as causas da desnutrição. Os números expõem a carência do bairro e justificam sua escolha para implantação do projeto estadual.
Frentes de trabalho
O investimento vai se somar a ações já desenvolvidas pela equipe do Estratégia Saúde da Família da Olavo Costa, cujos profissionais têm conseguido reduzir a incidência da desnutrição infantil. O último cadastramento do bairro, referente a julho de 2011, apontou que, de 139 crianças com menos de 7 anos, 14 estão recebendo assistência contra desnutrição. No ano passado, o relatório de avaliação nutricional indicava o dobro de desnutridos.
De acordo com a enfermeira da unidade de saúde do bairro e fundadora do Comitê Municipal de Combate a Desnutrição de Juiz de Fora, Gracia Maria Fonseca Aguiar, a redução dos casos é resultado de várias frentes de trabalho. "A melhora tem ocorrido em função da verificação do cartão de vacinação, da distribuição mensal de 2kg de leite em pó para o aumento de ganho de peso, do incentivo ao aleitamento materno e da exigência da consulta de puericultura mensal até 1 ano de idade. A tendência é de redução ano a ano."
O incentivo ao pré-natal adequado entre as adolescentes grávidas também está entre as ações desenvolvidas pela equipe de saúde, sendo considerado fundamental para diminuir os registros de mortalidade infantil no país. Estudo sobre as "Políticas públicas de proteção à saúde infantil e materna no Brasil: um olhar especial para os filhos de mães adolescentes’, realizado pela ONG Visão Mundial, aponta que 20% das crianças que morrem no Brasil antes de completar 1 ano, o que significa 8.544 casos, são filhos de adolescentes. Na prática, são nove mortes diárias provocadas por causas que poderiam ser evitadas. Reduzir em dois terços a mortalidade infantil e promover a saúde materna até o ano 2015 estão entre as "Metas do Milênio", da Organização das Nações Unidas (ONU), adotadas pelo Brasil.
Mudar realidade é desafio de programa
Mudar a realidade de privações da Vila Olavo Costa é o desafio do "Travessia bairro". Segundo o coordenador das ações sociais de Minas, Marcelo Garcia, o objetivo é transformar a Olavo Costa em um bairro com infraestrutura adequada, acessibilidade e garantia de serviços públicos. Além de melhorar os acessos e calçadas, será feito investimento nas moradias, incluindo a construção de sanitários e colocação de pisos nas residências.
"O Travessia vai gerar empregos para essas famílias, já que parte da mão de obra deverá ser formada pela comunidade. Também vamos trabalhar a questão da redefinição dos espaços comunitários e de lazer, pois o programa é muito mais do que um projeto de obras. Esse é o espírito do Travessia: mudar a vida das pessoas, reconstruir famílias e dar uma outra condição para que elas percebam que têm cidadania para viver. Precisamos fazer pactos pela vida, e isso significa direcionar investimento, energia e força nesse sentido. Acredito que a situação da Olavo Costa será diferente daqui a um ano", aposta Garcia.
A questão da educação também será trabalhada. Para estimular o retorno aos estudos, o Governo criou o "Banco travessia", uma espécie de poupança que poderá render até R$ 5 mil por família em repasses. Terão direito ao benefício as famílias cujo membro se matricular em alguma unidade de ensino, atingir a frequência mensal desejada, concluir um ano letivo ou assinar um contrato de trabalho formal. Quando isso acontecer, as "travessias", moeda de troca criada para viabilizar a proposta, serão depositadas. Ao final de, no mínimo, dois anos, a família terá direito a sacar o valor repassado. O direito ao benefício será perdido em caso de abandono da escola. O objetivo é estimular a mobilidade social.

