A vontade de ajudar o próximo a realizar um sonho foi o que motivou a enfermeira Carolina Granato, 32 anos, a mobilizar um grupo para realizar a festa de casamento de Deiseane Trindade Couto, 29, e Wagner Costa, 26, que oficializaram a união no casamento comunitário organizado pela Casa da Mulher e Prefeitura de Juiz de Fora, na última sexta-feira (25).
Tudo começou em um grupo de trocas em uma rede social. Deiseane, que é faxineira, oferecia serviço de garçonete em troca de alimentos e outros materiais básicos e de limpeza. Em uma das festas onde realizava este serviço, conheceu Carolina. Deiseane contou que se casaria, mas que não tinha condições de participar da cerimônia da forma que sempre sonhou, com direito a vestido de noiva, sapatos novos e maquiagem, assim como o noivo Wagner, que é auxiliar de pedreiro. “Ela conseguiu para mim o aluguel de vestido de noiva com uma loja da cidade, um sapato, vestido para minha filha… ela conseguiu muita coisa que a gente nem sonhava mais em ter”, comemora Deiseane.
O que os noivos não sabiam é que a recepção que a enfermeira disse que teria apenas um bolo com refrigerante, era, na verdade, uma grande festa. Carolina mobilizou uma parte do grupo de trocas e colegas de trabalho para organizar a confraternização, que ocorreu em um salão no Bairro de Lourdes. Os voluntários arrecadaram alimentos para cozinhar os quitutes servidos na festa, além de bebidas.
Os organizadores ainda conseguiram uma fotógrafa, que realizou o ensaio pré-wedding dos noivos, a cobertura da cerimônia e a festa. A responsável pelos registros, Jéssica Seghatti, 26, diz que embarcou de cabeça na ideia. “Eu achei o máximo fazer parte da realização deste sonho e toda essa boa ação que fizeram. Acredito muito no poder da fotografia. De tudo o que aconteceu ali, a fotografia é o que vai ficar perene por toda a vida. Além disso, acredito que tudo o que você faz de bem, o mundo retorna para você. Se todo mundo fizer um pouquinho por outra pessoa, isso vai tornar o mundo um lugar melhor.”
Como tudo começou
Deiseane e Wagner se conheceram na infância. Uma tia da noiva morava próxima à casa de Wagner, e a irmã dele brincava com Deiseane. Eles passaram alguns anos sem se ver e, há seis anos, se reencontraram em uma festa na casa de amigos em comum. Pouco depois de iniciarem o relacionamento, foram morar juntos no Bairro Vila Ideal, Zona Sudeste de Juiz de Fora. O casal teve dois filhos, Lavínia, 4, e Wagner Júnior, 1 ano e 4 meses, além de Lucas, 9, filho de um relacionamento anterior de Deiseane.
“A gente já tinha planos de casar há bastante tempo, mas nunca sobrava dinheiro, sempre tinha um imprevisto. Ficamos sabendo dessa oportunidade (casamento comunitário) porque um casal de amigos nossos casou no ano passado. Este ano, eu consegui fazer a inscrição”, afirma Deiseane.
Noiva reencontra família biológica
Além da festa, o casamento de Deiseane teve outro momento de emoção: a reunião de uma família que a faxineira só conheceu agora. Adotada, ela tem o nome dos pais biológicos na carteira de identidade, mas não mantinha contato com eles. Após a morte da mãe adotiva, há três anos, Deiseane foi amadurecendo a ideia de conhecer os pais. Há um mês, através de buscas na internet, ela os encontrou e, junto deles, soube que tinha uma família grande: oito irmãos e 26 sobrinhos.
“Meus pais biológicos contaram que tinham vontade de me procurar, mas não procuravam por medo de eu não saber que era adotada e acabarem desestruturando minha família. Foi muito legal encontrar eles nesse momento.”
Wagner conta que sempre incentivou a noiva a procurar os pais biológicos. “Para mim também foi maravilhoso. Eu sou apaixonado por ela, gosto de participar de tudo na vida dela. Quando a Deiseane perdeu a mãe adotiva, ficou muito abalada. Eu sempre incentivei que ela procurasse os pais biológicos. Este ano ela encontrou e, graças a Deus, são pessoas boas e estão tentando recuperar o tempo perdido. Eu achei muito bom que ela pudesse ter esse laço com a família dela.”
Carolina conta que a junção de todos os fatos – a falta de condições financeiras e a vontade de reunir a família – tocou seu coração e a motivou para que tomasse a frente na organização da festa. “Eu fiquei com aquilo na minha cabeça, a história dela mexeu muito comigo. Queria fazer alguma coisa que pudesse ajudá-la a realizar esse sonho grande de juntar a família.”
Para os noivos, uma surpresa que ficará para sempre na memória. “Foi tudo muito perfeito. A gente está sem acreditar ainda em tudo o que aconteceu. Cuidaram de tudo com tanto carinho, em cada detalhe. Ficamos muito agradecidos, apaixonados mesmo”, declara Deiseane.
Wagner também agradece o empenho dos voluntários. “Foi tudo muito maravilhoso, tudo super bonito. Estavam meus amigos, minha família, a família da minha esposa… Foi um sonho realizado. Eu gostaria de agradecer as pessoas que ajudaram a realizar isso, um por um, por tudo o que eles fizeram por nós. Nós não esperávamos nada disso que aconteceu, foi realmente uma surpresa muito boa. Que Deus possa abençoar todos eles.”
Carolina Granato conta que a emoção tomou conta de todos os envolvidos que se empenharam para que tudo saísse como o planejado. “Uma sensação de dever cumprido e uma felicidade tão grande que não cabia no meu peito. O choro foi inevitável. Ver eles ali se casando e realizando esse sonho não tem nada que pague. Só posso deixar meu muito obrigada a todos os voluntários que se dispuseram desde o primeiro momento em que foram chamados, formando essa corrente do bem. Esse momento ficará guardado para sempre em minha memória e em meu coração.”
Bem Casados
Cento e sessenta e oito casais oficializaram a união na sexta-feira (25), por meio do projeto “Bem Casados”, mais conhecido como casamento comunitário, realizado pela Casa da Mulher. A cerimônia ocorreu na Igreja Batista Resplandecente Estrela da Manhã (Ibrem), no Bairro Santa Terezinha. Cada casal pôde levar até 15 convidados. O projeto visa regularizar a união civil de casais que não têm condições financeiras de realizar uma cerimônia individual.

