Uma semana após ter sido atacada no Campus da UFJF por um adolescente armado com duas facas, a professora na Faculdade de Engenharia, de 34 anos, conversou, na última segunda-feira, com a Tribuna e revelou o que aconteceu no dia do episódio violento. A ação contra ela, ocorrida no último dia 23 e registrada como tentativa de roubo, mobilizou estudantes. Além disso, o modo como ocorreu o crime levantou a possibilidade de o suspeito ter a intenção de estuprá-la, já que, mesmo após roubar sua bolsa, o jovem insistiu em arrastá-la para dentro de uma sala. Além de contar detalhes do crime, a docente, que não terá o nome divulgado, faz um alerta para a questão da falta de segurança no campus. Mesmo após o episódio, a professora não se afastou do trabalho.
Tribuna – Como começou a ação criminosa?
Professora – Eu havia acabado de chegar no meu departamento. Logo que abri a porta da sala, fui surpreendida por ele (adolescente), que me disse alguma coisa, mas não consigo me lembrar o que foi. Tudo aconteceu no corredor, que é um lugar fechado e bastante ermo. Ele já começou a gritar comigo, tentando puxar minha bolsa. Então, eu caí, com metade do corpo para dentro da sala e a outra metade para fora. Daí para frente, não consigo mais dizer como ocorreram as coisas, em qual momento, por exemplo, ele pegou minha bolsa. Mas o tempo todo, ele insistia em me arrastar para dentro da sala e mandava eu calar a boca.
– Quando o jovem tentou arrastá-la, segundo o boletim de ocorrência, a calça que a senhora vestia saiu parcialmente. Houve intenção dele em despi-la?
– Não posso te responder isso. Eu me debatia e gritava muito, alto e o tempo todo. A minha primeira reação foi a de não deixar que ele me levasse para dentro da sala e pedir ajuda. Fiquei focada nisso: em gritar e não ir lá pra dentro com ele. Então, não sei se a calça abaixou quando eu me debatia ou se ele arrancou em algum momento. Fiquei com hematomas e dor no corpo, mas também não consigo dizer se ele me agrediu. Fiquei fora de mim.
– A senhora acredita que a intenção dele era a violência sexual?
– Como mulher, digo que, durante todo o tempo, já que ele insistia em me levar para dentro da sala, imaginei que ele iria fazer algo comigo neste sentido. Meu pânico foi justamente por pensar isso. O garoto não disse nada sobre estupro ou qualquer outra coisa de cunho sexual. Mas me pergunto por qual motivo ele insistia em me levar para a sala? Ele poderia ter fugido com a bolsa. Após conversar com o delegado, ele falou que a intenção poderia ser roubar mais algum pertence meu, mas naquele momento só pensava no pior.
– Estudantes questionaram a polícia e a UFJF em relação à tipificação do caso como roubo, entendendo que houve intenção de ocultar a tentativa de estupro.
– Pelo contrário. Os seguranças me ajudaram todo o tempo e questionaram o que houve realmente. Os policiais militares também. O que aconteceu, eu detalhei em depoimento à polícia e repito agora. Não julgo em momento nenhum quem falou que foi estupro. Eu gritei muito e, quando chegou socorro, foram umas dez pessoas que me encontraram com a calça um pouco abaixada, com a roupa toda desarrumada, descabelada, acabada, por conta de tentar me desvencilhar dele. A cena foi muito forte, impactante, e realmente quem chegou interpretou assim. Dentro daquele contexto, era aquilo que parecia ser. A única coisa que eu gostaria é chamar a atenção para a insegurança dentro do campus. Precisamos de uma segurança mais efetiva, estou com medo. Minha luta agora é ir até as autoridades da universidade e pedir mais segurança, que se aumente o efetivo da Faculdade de Engenharia, que é um lugar distante. Isso não pode continuar. Graças a Deus, comigo não aconteceu nada, mas realmente não sei o que poderia ter ocorrido caso não tivesse chegado ajuda.
