Ícone do site Tribuna de Minas

Ataques a pedradas tornam viagens mais inseguras

PUBLICIDADE

Ataques a pedradas contra veículos, principalmente ônibus urbanos, têm assustado motoristas e passageiros. Algumas empresas de transporte coletivo afirmam que já registraram até oito ocorrências em uma semana. A motivação maior para os ataques são as rixas de gangues. Grupos arremessam pedras contra os coletivos dos bairros que consideram rivais para fazer ameaças, impor sua força e fazer acertos de contas. Entretanto, há ainda aqueles que simplesmente jogam a pedra contra o veículo para saber o que vai acontecer. Além da violência, com o risco dos usuários serem atingidos, as pedradas causam prejuízos para empresas e passageiros, já que os ônibus precisam ser retirados das ruas para registro de boletim de ocorrência, levantamento da perícia e reparo dos danos.

No último dia 23, um ônibus foi alvo de um ataque, na região Nordeste, durante uma queda de energia elétrica. O fato ocorreu na Avenida Juiz de Fora, no Bairro Grama, por volta das 20h. Segundo o boletim de ocorrência, o motorista do coletivo relatou que seguia pela via, quando escutou um estrondo. Ao verificar, percebeu que o veículo havia sido apedrejado, sendo danificado o vidro do lado direito próximo à porta dianteira do veículo. Conforme o condutor, foi impossível apontar suspeitos, já que o ataque aconteceu durante a falta de luz no trecho. Um leitor da Tribuna, que estava no coletivo, contou que os usuários precisaram trocar de ônibus para continuar a viagem. Segundo ele, a situação tem amedrontado moradores e trabalhadores da região.”No final do ano passado, o mesmo ônibus foi atacado com tiros que quase acertaram uma passageira. Ficamos preocupados, pois temos que fazer esse trecho, que é deserto, todos os dias, e não tem policiamento à noite”, afirmou.

PUBLICIDADE

Já na Avenida JK, na altura da Cidade do Sol, na Zona Norte, uma auxiliar de serviços gerais, 29 anos, foi atingida com uma pedrada no rosto, recentemente quando estava no interior de um coletivo, por volta das 21h. O motorista acionou a Polícia Militar e contou que um grupo estava na linha férrea e arremessou a pedra, que atingiu um vidro lateral, acertando o lado direito do rosto da auxiliar, que precisou ser hospitalizada. Ninguém foi preso.

A auxiliar de administração, Nayara Titoneli , 26, moradora do Bairro Benfica, viveu situação semelhante, quando voltava para casa, também por volta das 21h, na Avenida JK, a poucos metros da sede do 27º Batalhão da PM. Ela não foi atingida, mas a pedrada causou apreensão no interior do coletivo. “Uma pessoa na linha do trem arremessou a pedra. A janela do cobrador por onde a pedra entrou estava aberta, e ela caiu na perna de uma mulher. Por pouco, não pegou na minha cabeça, pois troquei de lugar minutos antes. Todos se assustaram com o barulho muito alto. A moça atingida custou a entender o que tinha acontecido”, relata a jovem, acrescentando: “Não é a primeira vez que acontece. Pessoas dentro do ônibus contaram que já tinham vivenciado situações semelhantes.” Conforme Nayara, depois do ato de vandalismo, não foi feito um boletim de ocorrência, fato que colabora para que as autoridades não tenham a dimensão real do problema.

O comerciante Carlos Augusto Santos, 39, morador do Nova Era, mostra-se preocupado. “Ando de ônibus todos os dias, e a Avenida JK faz parte do meu trajeto. Já vi veículos sendo apedrejados durante o dia e gente correndo, fugindo na linha do trem. Infelizmente, tem épocas que a JK lembra muito um ‘corredor polonês'”, lamenta o usuário.

Prejuízos mensais com danos são de até R$ 10 mil

Segundo o gerente operacional da Viação São Francisco, cujos coletivos utilizam a Avenida Juscelino Kubitschek, na Zona Norte, José Roberto Baganha, não há uma linha com maior concentração de casos na empresa. “Como os ônibus atravessam a JK, qualquer um era alvo, mas melhorou muito depois que certos eventos deixaram de acontecer no Centro, porque as pessoas brigavam nestes lugares e, depois, queriam fazer acertos de contas com quem estava nos coletivos”, observa o gerente, que não informou sobre custos da empresa para reparação de danos.

PUBLICIDADE

Baganha observa que o vandalismo na região abrangida pela empresa, responsável por 62 linhas na Zona Norte, já foi um dos grandes transtornos enfrentados. Todavia, conforme ele, após um trabalho realizado pela Polícia Militar com foco em casos de apedrejamento, as ocorrências deixaram de ser constantes. “A PM fez um trabalho na Avenida JK, nas proximidades do 27º Batalhão, surtindo efeito positivo. Já houve registros recentes, mas não tão frequentes como era no ano passado.”

No caso da Empresa Santa Luzia, responsável por 46 linhas do transporte coletivo em Juiz de Fora, os apedrejamentos concentram-se nas linhas que fazem os bairros Parque Guarani, Granjas Bethânia, Sagrado Coração de Jesus, Ipiranga e Parque Independência. Os prejuízos mensais ficam entre R$ 5 mil e R$ 10 mil. É esta empresa que já chegou a registrar uma média de oito ocorrências por semana, muitas delas relacionadas a brigas. A Santa Luzia ainda ressalta que sua maior preocupação é com usuários e funcionários, que ficam expostos a riscos de ferimentos, lembrando que as linhas trafegam com muitas crianças e idosos.

PUBLICIDADE

Necessidade de registrar ocorrência

A prática de jogar pedras contra veículos é um delito e sujeita o autor a ser punido. No caso de dano contra os coletivos, o crime é contra o patrimônio público, uma vez que os veículos pertencem a empresas que prestam serviço para a Prefeitura. Se o ataque atingir uma pessoa, causando ferimentos, o crime é de lesão corporal. “Se a lesão resultar em morte, o autor irá responder por homicídio, que é chamado de dolo eventual, no qual a pessoa não deseja o resultado de morte, mas assume o risco de produzi-la”, ressalta o delegado da 3ª Distrital, Rodolfo Rolli.

Ele ainda considera que, por menor que seja o dano ocasionado, as pessoas não devem desistir de fazer boletim de ocorrência. “Independentemente da gravidade, o registro do caso deve ser feito para a polícia ter ciência, e, dependendo do volume de casos, abrir uma investigação para apurar até mesmo a atuação de uma quadrilha, que prevê pena de reclusão que vai de um a três anos”, afirma Rolli, lembrando que, há casos, nos quais os ataques são cometidos por pessoas usuárias de entorpecente, que têm o objetivo de provocar um acidente, para cometer furtos, em casos de veículos particulares. “Isso já é muito comum no Rio e São Paulo, onde são colocadas pedras no asfalto obrigando o veículo a parar para assalto com armas praticados até por quadrilhas”, conclui.

Sair da versão mobile