Vamos fazer a prova sem saber que parâmetro devemos alcançar e com quantas pessoas estamos disputando, e isso certamente aumenta nossa insegurança em relação à aprovação. A realidade de Samuel Rodrigues, 18 anos, que pretende estudar direito, reflete a situação de todos os candidatos a uma vaga na UFJF. Com o fim do vestibular, anunciado pela instituição no ano passado, 70% das cadeiras serão disputadas usando o Enem como prova de seleção, e os outros 30% serão reservados a estudantes aprovados via Programa de Ingresso Seletivo Misto (Pism), a avaliação seriada da universidade. Segundo o pró-reitor de Graduação da UFJF, Eduardo Magrone, como este é o primeiro ano em que o ingresso será feito inteiramente por meio do exame nacional, não é possível ter acesso a informações como a relação candidato/vaga e a nota de corte para cada curso. Isso já acontecia, por exemplo, quando novas graduações eram criadas. A partir do próximo ano, já teremos este balizamento para orientação dos estudantes.
Para Magrone, é provável que estas informações variem pouco em relação aos últimos vestibulares. Os cursos de alta demanda, como medicina e direito, continuarão tendo as disputas mais acirradas. Não vejo diferenças significativas ocorrendo nos primeiros anos, talvez elas aconteçam a longo prazo. Uma pesquisa que fizemos quando a UFJF passou a adotar o Enem como primeira fase do vestibular indicou que todos os alunos que participaram dessa seleção com o Enem seriam também aprovados pelos critérios do vestibular, e é esse o prognóstico para este primeiro processo seletivo feito somente via Enem e Sisu.
A coordenadora do ensino médio do Colégio Academia, Maria Rinaldi, acredita que algumas graduações devem sofrer alteração. Os cursos muito concorridos sempre exigirão as maiores notas, mas há uma grande flutuação, de ano para ano, na demanda de outras carreiras, que têm a ver com as características do mercado, entre outros fatores.
Outro aspecto que potencializa a insegurança dos candidatos é a possibilidade de disputar uma cadeira com estudantes do Brasil inteiro, já que a classificação das notas do Enem é feita por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que reúne as pontuações de todos os inscritos no exame. Magrone acredita, entretanto, que a possibilidade de nacionalização das vagas deve ser relativizada. Há uma supervalorização dessa teoria das desregionalização das vagas. É raro um aluno querer ir para cidades muito afastadas das suas, até porque a maioria não tem condições econômicas de se manter muito longe de casa. Com isso, acredito que a UFJF vai continuar recebendo muitos estudantes da cidade e das regiões mais próximas, e claro que haverá alguns que virão com essa possibilidade oferecida pelo Sisu, sobretudo para vagas mais disputadas.
A psicóloga do Cave Eliana Balena indica que, no caso dos candidatos de Juiz de Fora, a maioria almeja uma vaga nos arredores, em instituições do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, por exemplo. Além disso, muitos querem mesmo é ficar em Juiz de Fora. O Sisu é democrático se pensarmos que, do mesmo jeito que alunos de qualquer parte do país podem passar na UFJF, estudantes de Juiz de Fora podem ir para qualquer lugar também. Só que, na maioria das vezes, eles querem é ficar em suas cidades ou perto delas. É o que acontece com Samuel, que pensa em mudar sua opção de curso na UFJF para ficar na cidade. Se não tiver nota para entrar em direito, vou tentar em economia, e posso fazer direito em uma particular.
‘Cabe ao aluno dar o melhor de si’
Para a estudante Nathália Ruiz, 21 anos, não ter acesso a informações sobre a concorrência do curso pretendido pode ser positivo. Quando você sabe o número exato de candidatos que estão na disputa com você ou a nota que precisa obter para passar, acho que a pressão é muito maior, e isso pode prejudicar a preparação para a prova. Para a coordenadora do ensino médio do Colégio Academia, Maria Rinaldi, o aluno não deve se pautar pelos dados referentes à concorrência para se preparar para o Enem. A aprovação em qualquer processo seletivo não é resultado do desempenho do último ano, mas de um processo ao longo dos anos escolares. Por isso, os pontos de corte e a relação entre candidatos e cadeiras não devem ser uma preocupação.
A psicóloga do Cave Eliana Balena também defende este ponto de vista. Estamos falando de uma seleção, onde a reprovação de alguns candidatos é inerente, pois não há vagas para todos os inscritos. Cabe ao aluno dar o melhor de si, focar em seu rendimento independente de que nota precise tirar para ser aprovado ou de quantas pessoas estão na disputa.
‘Prova de resistência’
Eliana Balena destaca que, às vésperas do exame, o importante é evitar excessos. Para muitos candidatos, é importante dar aquela última ‘olhadinha’ na matéria, dá mais segurança. Para outros, é essencial descansar, fazer outras atividades que não envolvam a preparação para o exame. Não existe fórmula pronta, cada um deve respeitar suas características individuais lembrando dos limites. Na véspera das provas, qualquer excesso é prejudicial. Já a coordenadora da Academia, Maria Rinaldi, ressalta que é importante estar fisicamente descansado. Uma das críticas mais veementes ao Enem é o longo tempo de duração das provas, então é essencial estar bem disposto para fazer o exame, que acaba sendo também uma prova de resistência.
